Brasília, 20 de maio de 2022 às 12:11
Selecione o Idioma:

Sem Titulo

Postado em 27/03/2016 10:02

Crise da água no topo dos riscos globais

.

Havana (Prensa Latina) Ao redor de 40% da população na Terra sofre com a escassez da água ao menos durante um mês a cada ano, mas a crise poderia piorar e propõe perigos globais de amplo espectro, disseram diversas pesquisas.

Um estudo do Fórum Econômico Mundial estima que nos próximos 10 anos os problemas em torno da disponibilidade e da qualidade desse elemento vital ocuparão a posição mais alta entre os riscos de maior alcance e conotação planetária.

Se os atuais padrões de consumo se mantiverem, em apenas 15 anos o déficit global no fornecimento do líquido será de 40%, calculam especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), ao considerar as demandas associadas à urbanização, ao crescimento demográfico, às produções agrícolas e industriais e de energia.

Segundo dados da ONU, na África subsaariana a proporção de habitantes com água corrente em suas instalações caiu de 42 para 34% desde 1990, devido à rápida e não planificada urbanização.

Estatísticas avaliadas pelas Nações Unidas confirmam que bilhões de seres humanos vivem em assentamentos irregulares, dos quais 90% se encontra em países em desenvolvimento.

Os migrantes, os refugiados e os deslocados internos formam um grupo significativo e cada vez mais numeroso de habitantes urbanos informais, pois não podem ter moradias melhores, avaliou em dezembro de 2015 o Fundo de População das Nações Unidas (Unfpa, por suas siglas em inglês).

Muitos dos assentamentos, acrescentou o Unfpa, situam-se em zonas com uma provisão de serviços deficiente e sem infraestruturas básicas como os serviços de saúde, o acesso à água potável e ao saneamento.

Em termos de assimetrias, uma análise conjunta da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e o Banco de Desenvolvimento da América Latina indicou que a região possui a maior disponibilidade média de água no mundo (ao redor de 24 mil 400 metros cúbicos per capita).

No entanto, um número superior aos 34 milhões de habitantes não tem acesso a esse elemento vital e mais de 106 milhões não dispõem de melhores instalações de saneamento.

Para 2050, dois terços da população no planeta viverá nas cidades, e é previsível que as exigências do consumo de água cresça em 55%, devido fundamentalmente à urbanização nos países menos avançados, informou o Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2015.

Cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, por suas siglas em inglês) da NASA e da Universidade de Califórnia, nos Estados Unidos, verificaram recentemente uma alarmante desigualdade na distribuição da água; com regiões secas que estão cada vez mais áridas e, ao inverso, zonas úmidas onde cresce o potencial.

Ainda que nenhuma situação extrema seja favorável, particularmente a progressiva escassez do líquido representa uma ameaça para a segurança e o desenvolvimento de vários países, afirma o Conselho de Interação (IAC, por suas siglas em inglês), composto por um grupo de 40 ex-chefes de Estado.

Em seu relatório intitulado “A Crise Global da Água: Encarando um Urgente Tema de Segurança”, o IAC apontou que dntes de 2030 Índia e China padecerão de água potável suficiente para satisfazer suas necessidades e a escassez poderia criar conflitos em detrimento da estabilidade regional.

Diferentes analistas coincidem em que o fenômeno, unido à falta de alimentos e energia, atua como um catalizador de conflitos em diversas partes do planeta, entre elas a África e o Oriente Médio.

Um artigo do colunista Nafeez Ahmed, publicado no portal Middle East Eye, aponta que os recortes drásticos do fornecimento do líquido não só são um problema para a produção de alimentos e para a geração de eletricidade, mas também incidem no aumento da violência em territórios como Iraque, Síria e Iêmen.

Para o especialista estadunidense e assessor de governo sobre a administração da água Roger Patrick, é evidente que “a instabilidade política no barril de pólvora que o Oriente Médio se transformou e o risco potencial em outros países é por causa desta circunstância”.

O texto apresentado em Middle East Eye destaca as discrepâncias entre Egito e Etiópia, devido à construção da represa Renaissance em território etíope, pois poderia afetar a irrigação das terras egípcias pelo rio Nilo.

Em janeiro deste ano, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) notificou que a Etiópia atravessa a pior seca em 30 anos, o que atenta contra a segurança alimentar de 10,2 milhões de pessoas.

De acordo com Nafeez Ahmed, na Síria a seca poderia reavivar distúrbios civis no país, enquanto a perda de água subterrânea na bacia do Tigre e do Eufrates gera maiores complicações para a Turquia, Iraque, Síria e Irã.

Também não se pode obviar o assunto hídrico no contexto da agressão de Israel a Palestina, pois a Faixa de Gaza pode ser convertida em inabitável devido à falta desse recurso.

Estimativas da FAO advertem que em 2050 o número de habitantes no planeta rondará os nove bilhões e mais água fará falta para produzir 60% dos alimentos adicionais necessários para esse período.

Na opinião da instituição, é preciso conseguir um uso “mais eficiente, equitativo e respeitoso com o meio ambiente”, e isso propõe questões básicas como produzir mais alimentos com menos água, criar possibilidades nas comunidades agrícolas para fazer frente a inundações e secas, e aplicar tecnologias de água potável capazes de proteger os ecossistemas.

A mudança climática conduzirá a fenômenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes e intensos, como secas e inundações, com um impacto devastador nos sistemas de produção de alimentos, manifestou a FAO.

Portanto, “um uso racional da água é essencial para aumentar a resiliência (capacidade de uma pessoa ou grupo de se recuperar frente à adversidade) para seguir projetando o futuro da sociedade contra estas ameaças cada vez maiores”, disse o organismo.

De acordo com o Unfpa, sem contar outros eventos climáticos, só as secas, as temperaturas extremas e o risco de inundações provocarão que para 2030 ao redor de 319 milhões de pessoas extremamente pobres vivam em 45 países mais expostos a esses perigos.

“Esta questão é um motivo de preocupação importante, dado que os riscos de seca e inundações se encontram entre os fatores mais determinantes do empobrecimento em longo prazo”, afirmou a entidade.

Nos países pobres a água utilizada pelos setores mais vulneráveis geralmente nâo tem os requisitos mínimos para o consumo humano, enquanto as fontes de fornecimento costumam estar distantes ou as comunidades carecem dos meios necessários para poder extrair o líquido.

De acordo com a ONU, a forma de manejar o problema será determinante para a consecução ou não da maioria das metas de desenvolvimento sustentável subscritas pela comunidade internacional, pois o acesso à água para fins domésticos e produtivos influi de maneira direta sobre a pobreza e a segurança alimentar.

A agenda para o desenvolvimento após 2015 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relativos aos recursos hídricos fazem um chamado para “garantir a disponibilidade da água e sua classificação sustentável e saneamento para todos”.

Nenhum processo político, econômico e social escapa às ameaças multidimensionais do fenômeno exposto, considerado com justeza como um dos riscos globais mais importantes do século XXI.

* Jornalista da Redação de Economia da Prensa Latina.

Comentários: