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Postado em 28/11/2021 10:23

2016: o novembro de Fidel

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Foto: Ladyrene Pérez/ Cubadebate

Das últimas homenagens a Fidel; o desastre da Chape e como, às vezes, a mentira não muda a história por mais que tentem.

Valter Xéu*

Corria a tarde de 27 de novembro de 2016 quando o celular toca. Atendo e, do outro lado da linha, a voz da Consul Geral de Cuba na Bahia, Laura Pujol, me invade o cérebro com o aviso que eu iria para Cuba para as últimas homenagens a Fidel Castro, como único jornalista brasileiro convidado do governo cubano.

– Ok – aceito o convite – e que dia viajo?

– Hoje, respondeu ela.

– O carro do consulado vai passar na sua residência para lhe pegar e levá-lo até o aeroporto.

Foi só a correria de me arrumar com carro e motorista já à espera. No aeroporto de Salvador, pego um voo da Latam para Belo Horizonte onde faço conexão para Lima em outro voo da Latam que se transforma em mais uma conexão. Esta, sim, vai me deixar em Havana. Tudo isto feito em classe especial na qual acabo encontrando Marilia Guimarães, que nos anos 70 sequestrou um aviao e foi pra Cuba e tambem Frei Beto.

Os três, convidados do governo.

Depois de várias horas desembarcamos no aeroporto José Martí em Havana e em vez de ir para a sala vip onde membros do Ministerio das Relações Exteriores nos esperavam, deixei Marilia e Frei Beto e desembarquei por onde eu sempre desembarcava nas viagens anteriores e assim ficamos: o pessoal do Mirex me aguardando na Sala Vip e eu, no desembarque comum, aguardando alguém para me pegar e levar para o hotel.

Como em Cuba estou em casa, lá estava meu fiel e querido amigo Jorge Ferrera, diplomata, membro do  Comite Central e etc. como não apareceu ninguém, pedi a Jorge que me levasse para o hotel Hotel Memories Miramar, um quatro estrela onde sempre fico hospedado  em Havana.

La chegando, novamente, encontrei a Marilia Guimaraes.

A essa altura, liguei para Laura em Salvador afirmando que não tinha ninguem no aeroporto me esperando e que eu tinha ido para o hotel Memories Miramar

Laura disse que iria resolver e resolveu.

Minutos depois da ligação, chega um carro da Cubatur com o motorista me informando solícito que enquanto eu estivesse em Cuba ele e o carro estariam à minha disposição. Me levou para o Hotel Park Central onde estava a minha reserva e sou recebido então pela direção do Hotel e pelos funcionários do Mirex.

Alegando que tinha alguns amigos em Havana e que todos dispunham de automóveis e justificando ainda que preferia ficar com eles pois assim teria mais facilidades em perambular por Havana, dispensei o motorista da Cubatur; no carro do Estado não seria possivel levar convidados.

Cansado da viagem, fui dormir e no dia seguinte quando desço para o café da manhã em um dos restaurantes, encontrei com as arrumadeiras de quartos que dirigem-se a mim:

– Meus pêsames!

Entro no elevador e o ascensorista:

– Meus pêsames!

-No restaurante para o café e os garcons:

– Meus pêsames!

Ai, já meio aperreado com tantos “meus pêsames”, eu disse:

– Perai! Quem morreu foi Fidel e eu é que tenho que dar os pêsames a vocês, cubanos pela perda.

Um garcom respondeu:

-Não! Estamos lhe dando os pêsames pela morte de toda equipe de futebol de um clube brasileiro que morreu na Colombia em acidente aereo.

Fiquei perplexo e meio desesperado pois não tinha nenhuma informação de nada do gênero que houvesse acontecido.

Liguei para a Prensa Latina, agência de noticias cubana e fui informado do acidente com o time da Chapecoense.

As homenagens póstumas a Fidel seriam a partir das 17 horas e, durante o dia, fiquei perambulando pelo hotel ocasião em que Frei Beto e eu conversamos bastante sobre a situação política brasileira; depois, mais um bom e longo papo com Ignacio Ramonet, diretor e editor do Le Monde Diplomatique  (foto abaixo) e que é colaborador de Pátria Latina desde a sua fundação em fevereiro de 2002.

Cuba reservou o hotel Parque Central em Havana Velha para as pessoas mais chegadas a Fidel e eu era uma dessas pessoas.

Nesse mesmo hotel estava o ator e ativista norteamericano Danny Glover com quem travei amizade, ficamos juntos na Tribuna de Honra da Praça da Revolução e depois das homenagens, no hotel, dividimos um prato de uma big salada de bacalhau pois ele estava com fome e o meu prato chegou primeiro.

Com Danny Glover no restaurante do Hotel

Na Tribuna de Honra da Praça da Revolução estavam 175 Chefes de Estado ou representantes – o Estadão disse que tinha 25 chefes – eu, Frei Beto, Danny Glover, sentamos ao lado do Ministro da Cultura Abel Prieto e do presidente da Duma da Rússia (Parlamento), figura de quem não lembro o nome.

Com Frei Beto e o Ministro da Cultura de Cuba, Abel Prieto

Praça da Revolução

A Praça da Revolução, estava lotada e dizer aqui que tinha dois milhões ou mais de pessoas, não é nenhum exagero de um apaixonado por Cuba; eram, na sua maioria, jovens de várias localidades do país que tinham vindo a Havana para a homenagear aquele que segundo uma engenheira química que conheci na rua Obispo, tinha sido um farol para toda uma geração de cubanos.

José Serra, Ministro de Relações Exteriores do Brasil

Do local onde estava sentado avistei o Ministro brasileiro José Serra e fui até ele.

Me identifiquei e fui logo perguntando sobre o desastre que vitimou a equipe da Chapecoense.

Ele me deu varias informações, falou da morte de Mário Sérgio que conheci quando jogava peloi Vitoria da Bahia.

Me disse Serra que logo após as homenagens a Fidel ele embarcaria para a Colombia representando o governo brasileiro na missão.

Ainda naTribuna de Honra me encontro com Evo Morales, presidente da Bolivia; Rafael Correa do Equador que me homenageou em 2015 com a medalha Amigo do Equador e com Maduro, da Venezuela e este quando me avistou bradou: Pátria Latina! Pátria Latina! Fiquei meio sem entender como ele sabia que eu era do Pátria pois nunca havia conversado com ele e imagino que deva ter sido alguém da sua comitiva que me conhecia da época do Chavez que o informou da minha presença na tribuna..

Depois de ouvir vários discursos e o povo na praça a gritar Fidel! Fidel! Fidel! Fui transportado a longínquos anos 90 quando, em um encontro, perguntamos a Fidel o que seria de Cuba quando ele partisse e ele respondeu.

– Os irmãos Maceo se foram, José Marti se foi e no dia em que eu me for, milhões de Fidel estarão por toda Cuba.

Quando vi o povo na praça gritando seu nome, me lembrei do que ele tinha dito e ali estava a resposta.

Nesse período estavam em Cuba – não como convidados – varios jornalistas da chamada  grande imprensa brasileira que mentiram descaradamente nos textos que escreveram, alguns forjando entrevistas com dissidentes fictícios e assim por diante.

Mas esse filme nos já conhecemos.

*Valter Xèu é jornalista e diretor e editor do portal Pátria Latina, desde fevereiro de 2002

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