Em meio à Mata Atlântica da Costa do Descobrimento, a Reserva da Jaqueira mostra como o turismo pode caminhar junto à preservação cultural e ao empoderamento indígena.
Conhecer uma das fundadoras do etnoturismo praticado hoje no Brasil. Esta é uma oportunidade única e possível na Reserva da Jaqueira, a apenas 12 km de Porto Seguro, no sul da Bahia. Um local onde a comunidade Pataxó oferece uma verdadeira aula sobre receptivo e luta constante pela preservação ambiental e cultural.
Após passar por um pórtico e seguir a pé por uma trilha, ou em quadriciclo ou van por caminho pavimentado, turistas curiosos são recebidos em uma grande estrutura circular. Ao centro, Nitynawã Pataxó, cujo nome significa “Muitas Frutas”, conta como a aldeia foi criada e como sobrevive nos tempos atuais, convivendo com a pressão do turismo tradicional e do agronegócio.
Nitynawã conta que ela e suas irmãs, Jandaya e Nayara, são filhas de Taquara, hoje com 106 anos, sobrevivente do massacre da Aldeia Barra Velha, ocorrido em 1951. O episódio provocou a dispersão do povo Pataxó pelo sul da Bahia e obrigou muitas famílias a viverem escondidas nas matas da região durante anos.
A regularização das terras do povo Pataxó, ocupando 827 hectares de Mata Atlântica na Costa do Descobrimento, ocorreu somente em 1998. Viver no chamado berço do descobrimento estimulou as filhas de Taquara a criarem o projeto da Reserva da Jaqueira. “Construímos a aldeia com as nossas mãos”, conta Nitynawã, com orgulho, ao ressaltar que o turismo é a principal fonte econômica para 34 famílias, somando 115 moradores.
A criação do Instituto Pataxó da Jaqueira foi uma consequência organizacional desse processo. Por meio dele, os recursos deixados pelos cerca de 40 mil visitantes anuais são distribuídos entre a manutenção estrutural da aldeia, a aquisição de alimentos para toda a comunidade e a remuneração dos indígenas diretamente envolvidos no receptivo.
O restaurante é a novidade mais recente: uma construção erguida com recursos próprios, como revelou a líder, que mantém um forte discurso de fortalecimento sociocultural indígena, especialmente feminino.
Aldeia modelo
O desenvolvimento do povo Pataxó por meio do turismo — apontado em pesquisas como um dos primeiros casos oficiais desse modelo de Turismo de Base Comunitária no Brasil — aparece em cada detalhe: da limpeza da aldeia à organização do atendimento, que, após a conversa inicial, segue para o museu, com enorme variedade de artigos artesanais à venda, e para o encontro com o pajé Imburé, de 79 anos, que compartilha conhecimentos sobre medicina tradicional, chás, mandioca cozida, farinha de casca de coco e benzimentos.
Os guias são jovens da própria comunidade, responsáveis por apresentar vários pontos da aldeia, como o viveiro de mudas com capacidade para a reprodução de 10 mil plantas nativas, além da escola indígena voltada aos alunos da primeira fase do ensino fundamental, que também recebe crianças de outras aldeias. Ensino mais avançado ocorre em outra aldeia.
E aqui vale uma ressalva: o estímulo à educação formal e tradicional, voltada não apenas ao conhecimento individual, mas também ao empoderamento social e ao retorno para a própria comunidade. “Hoje nós temos 20 jovens com nível superior”, revela Nitynawã, ao relatar que ela mesma estudou pedagogia, possui dois livros de autoria própria, mas foi analfabeta até os 14 anos. “Temos formados nas áreas da saúde, administração, direito e artes”, conta.
O travel designer Marcos Luz, que desenvolveu experiências de turismo junto ao povo Krahô, do Tocantins, em parceria com a Aldeia Manoel Alves, ressalta o que mais chamou sua atenção: o orgulho da comunidade, seu empoderamento e sua apropriação cultural.
“É uma aldeia criada para receber turistas. Parte dela não está acessível aos visitantes, e isso é uma forma de preservar seu modo de vida, diferente da experiência Krahô, onde convidávamos os turistas a conhecerem a aldeia em dias de rituais (Amji Kin) e a conviverem de perto com a comunidade”, explica, ao ressaltar que existem diferentes modelos possíveis de turismo indígena, desde que as decisões partam da própria comunidade e ressaltem os conhecimentos originários. “O etnoturismo, quando bem conduzido, é importante para a autonomia e o empoderamento cultural”, completa.
Febtur na Reserva
Os participantes do II Encontro Nacional de Jornalistas e Comunicadores de Turismo, realizado pela Febtur em Porto Seguro, entre os dias 12 e 17 de maio, tiveram a oportunidade de participar da vivência de três horas, encerrada com uma apresentação de canto e dança, na qual os visitantes são convidados a interagir.
Há, no entanto, opções para permanência durante todo o dia ou até duas noites, proporcionando maior aproximação com a cultura Pataxó. Na Reserva da Jaqueira, a hospedagem Kijêmi Bahikó é formada por ocas em modelos contemporâneos, mas seguindo as referências indígenas. São circulares, simples, mas com uma amplitude confortável e com banheiros construídos separadamente.
As visitas ocorrem de segunda a sábado, das 9h às 14h, podendo ser agendadas diretamente pelo WhatsApp (73) 9800-2236 ou por operadoras que atuam em Porto Seguro, como a Tribal Turismo e Receptivo, e incluem o passeio em suas programações. Vale lembrar que também há roteiros que passam por várias aldeias ao longo de três dias.
Mais informações estão disponíveis no Instagram @reservapataxodajaqueira.
Aos 79 anos, o Pajé Imburé recebe os visitantes com chás e histórias (Seleucia Fontes)
Loja reflete arte e cultura do povo Pataxó (Edy Fernandes)
Hospedagem reúne elementos tradicionais e conforto moderno (Seleucia Fontes)
Marcos Luz, com a matriarca Taquara, reflete sobre o poder do etnoturismo (Seleucia Fontes)
Nitynawã conta aos visitantes como seu povo sobreviveu ao massacre e se reconstruiu com ajuda do turismo (Duda Tawil)
Viveiro de árvores nativas colabora com a preservação da Mata Atlântica (Seleucia Fontes)
Jovens da aldeia são os guias e contam sobre plantas e o modo de vida Pataxó (Seleucia Fontes)
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