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sexta-feira, 29 maio 2026

Lula na defesa intransigente da soberania brasileira contra decreto intervencionista dos EUA

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

– Dois lideres milicianos tão criminosos quanto a turma do PCC e do CV,  são recebidos na Casa Branca

Emiliano José

Tempos estranhos.

Claro, poderíamos dizer: os EUA, desde os primeiros ensaios de país imperialista, e podemos datar isso a partir já do início do século XX, acostumou-se a pensar como dono do mundo.

Só lembrar, e bem a propósito, a atitude do país diante da luta de Cuba pela independência: admitiu a libertação da Ilha do domínio espanhol mas cravou uma cunha, a selar presença lá: a Base naval da Baía de Guantanamo, instalação militar norte-americana, desde 1903.

Talvez pudéssemos voltar ainda mais, e nos referirmos à Doutrina Monroe, início do século XIX, 1823, decretada pelo presidente James Monroe sob o lema “A América para os americanos”.

Espécie de aviso aos países europeus: América Latina era desde aquele momento, quintal dos EUA. E dessa maneira, seguiu. Difícil contar o número de intervenções militares do país, algumas expansionistas, como a empreendida contra o México, outras ofensivas, com a tentativa de dominação.

De 1776 até 2019, fala-se em mais de 500 intervenções militares, de acordo com o “Military Intervention Project”, da Universidade Tufts, a mapear tais intervenções. Desse incrível total, 60% ocorreram entre 1950 e 2017, um quarto delas concentrado em nações da América Latina e Caribe, no quintal, como os EUA sempre chamaram a região, para insistir, não deixar esquecer.

Um país imperialista, disposto a agredir qualquer nação, a impor desejos expansonistas e de domínio, não importando os rios de sangue provocados, e provocou muitos.

Imaginou-se um novo período quando do fim da Segunda Guerra Mundial.  Afinal, o nazifascismo havia sido derrotado a partir de uma aliança de muitos países, e onde houve a participação decisiva, fundamental, no campo de batalha, da União Soviética. Então, quem sabe, uma paz duradoura. Iniciara-se, no entanto, a chamada era nuclear, com a barbárie Hiroshima e Nagasaki, ataque dos EUA ao Japão quando a guerra já estava decidida, levando o mundo em busca da bomba atômica, a nos colocar à beira do precipício, em cuja borda nos encontramos até os dias atuais.

Houve o período da Guerra Fria. Houve a Guerra do Vietnã, quando os EUA enviaram 500 mil jovens para o país asiático, rio de sangue, e derrota humilhante do império. Imaginou-se, outra vez, viesse a paz quando do fim da URSS, no início dos anos 1990.

Nada.

EUA seguiram a tradição de tentar mandar no mundo pelas armas, garantir o capitalismo na fase imperialista na ponta do fuzil.

Derrotas humilhantes na Guerra do Iraque e na Guerra do Afeganistão, guerras levadas à frente à base do que hoje chamamos fake news, como a existência de armas químicas em poder do Iraque.

Tudo, no entanto, pode piorar. A chegada de Donald Trump ao poder fez o império dobrar a aposta. Diante da evidente decadência, diante do avanço econômico da China, diante do inegável papel dos BRICs, os EUA parecem concluir não terem outro caminho senão o de ignorar minimamente as regras do Direito Internacional estabelecidas no pós-Segunda Guerra.

Com Trump, estabeleceu-se um cenário de absoluto desrespeito à soberania dos países, com ele arvorando-se numa espécie de árbitro mundial, um déspota a ditar como cada nação deve se comportar.

Os EUA hoje decepcionam uma parte significativa dos liberais, acostumados a olhar para o país como uma espécie de modelo de democracia, uma falácia, como a história comprova.

Gaza, o mais terrível holocausto dos tempos recentes, com o assassinato de mais de 70 mil palestinos, só foi possível com a decisiva participação dos EUA, atiçando Netanyahu a desenvolver aquela limpeza étnica terrível, morte de mulheres, crianças, médicos, jornalistas, funcionários da ONU.

Com a Venezuela, sequestram e prendem o presidente Maduro e a mulher dele. Impõe taxas para o resto do mundo. Promovem um cerco militar em torno de Cuba, sobrepondo-se ao bloqueio completo à Ilha, não permitindo chegar uma gota de petróleo ao país. Aonde vamos parar?

Agora, atendendo a pedido da quadrilha Bolsonaro, inteiramente envolvida com o crime organizado, como tem sido reiteradamente provado já há anos pela imprensa, os EUA resolvem decretar serem Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho organizações terroristas, maneira de permitir intervenções do país em solo brasileiro, ao bel prazer deles próprios, a bel prazer do império.

Evidente violação do princípio da soberania. E o curioso é a naturalização do crime de lesa-pátria, cometida pela família, cujo pai já foi devidamente condenado pelo golpe de 8 de janeiro de 2023. Fala-se de traidores da pátria sem nominá-los como tal. Quem for a favor do Brasil, seja qual seja a posição política, não pode deixar de condenar de modo enfático tal traição: pedir para abrirem-se as portas para a intervenção estrangeira.

A família traiu a pátria, nota do governo Lula já acabou de dizer isso, apropriadamente, situando-o como um Joaquim Silvério dos Reis. E o pior é, ainda, fazê-lo de modo cínico e hipócrita. É conhecida, já bastante divulgada, a relação da família com as milícias. Conhecida, de modo especial, a relação com elas no Rio de Janeiro, a intimidade da família, de Flávio Bolsonaro especialmente, com Cláudio Castro e com todo o esquema criminoso dele.

Disso, das milícias, Flávio Bolsonaro não fala, porque não pode falar. E, de sobra, há de se dizer: isso foi feito, além de tudo, para tentar abafar a corrupção cinematográfica dele, envolvido em profundidade com o maior escândalo de corrupção financeiro-bancária da história.

Quem sabe, com o gesto dos EUA, a mídia empresarial reforce agora sua tendência em colocar Vorcaro à sombra, junto com ele Flávio Bolsonaro, tarefa um pouco difícil, mas ela vai tentar, podem anotar.

Governo Lula divulgou nota enérgica. Não fala em Trump. Diz: Brasil é nação soberana, a travar combate permanente às organizações criminosas, prioridade do Estado brasileiro. Tais organizações buscam o lucro através do crime, sitiam, aterrorizam milhões de pessoas nos territórios onde elas vivem.

Não podem, no entanto, serem confundidas, porque seria falso, com organizações movidas por motivos ideológicos, políticos, religiosos, próprios do terrorismo internacional.

A segurança da população é importante demais para “ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos, por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”.

Deplorável, diz a nota, a atitude de integrantes da família Bolsonaro, novamente indo aos EUA para defender intervenção estrangeira como já haviam feito ao pedir o tarifaço. Traidores da pátria.

A nota lembra a aprovação recente de rigorosa lei de combate às facções e milícias, com penas de até 80 anos de prisão. O governo do Brasil leva à frente o programa “Brasil contra o Crime Organizado”, “que combate as faccões e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima”.

Foi apresentada pelo governo brasileiro, em 16 de abril deste ano, ao Departamento de Estado dos EUA, proposta focada na inteligência e na cooperação internacional que inclui ampliação dos controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas enviadas ao Brasil. Tudo isso está na nota, serena e firme.

Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. “Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros”.

Em resumo, diz a nota, “trata-se de possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país”.

Conclui:

“A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança”.

Uma nota, insista-se, firme e serena, defensora da soberania.

Lula, outra vez, altivo.

Não abaixando a cabeça diante do império.

Sempre aberto ao diálogo.

Nunca aceitando submissão.

A soberania, inegociável.

Como deve ser.

#comandopccesoberania

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