25.1 C
Brasília
sábado, 20 junho 2026

O bolsonarismo é fruto do retrocesso neoliberal brasileiro

Pedro Augusto Pingo*

A divisão simplista das populações mundiais em direita e esquerda reflete o nível dos desenvolvimentos culturais a que chegaram as civilizações. É uma simplificação necessária para o baixo nível intelectual que domina a menos de um século a civilização ocidental. Mas também reflete o processo mais amplo da própria evolução dos estágios do homo sapiens. Denominar-se-ão questão civilizatória, a dimensão antropológica, e dimensão política, as questões socioeconômicas mais recentes, com o advento do neoliberalismo financeiro.

O Brasil serve de exemplo com a eleição para presidente do País de Jair Messias Bolsonaro e a criação do bolsonarismo como verdadeiro partido político no Brasil.

A QUESTÃO CIVILIZATÓRIA

O antropólogo, professor do Collège de France, Pascal Picq (“Sapiens face à Sapiens”, 2019) escreve: “O povoamento da Terra pelo sapiens foi um acontecimento inaudito na história da vida, e tão brutal que foi mal interpretado. O poder ecológico dos humanos cresce do Homo erectus ao Homo sapiens, mas se amplia, com grande aceleração, a partir da última era glacial, a tal ponto que, 12 mil anos depois, ou seja, hoje, ameaça sua própria sobrevivência – em todo caso, tal como se a conhece no início de terceiro milênio”.

E prossegue e precisa este cientista da morfologia evolutiva: “Que nova coevolução precisa-se inventar para as gerações futuras? Pois a evolução, segundo a definição de Charles Darwin, não está apenas no passado, mas na descendência com modificação. O que fazemos hoje restringe as possibilidades das gerações mais jovens. Após o último período glacial, entramos no Holoceno, período em que ainda estamos. Um período interglacial de espantosa estabilidade climática e pouco marcado por catástrofes naturais de grande amplitude”.

Após discorrer sobre algumas catástrofes naturais, Dr. Picq ressalva que nada interrompeu os seis mil anos da história da agricultura do homo sapiens, o que nos leva a questionar se os projetos humanos levam ao declínio civilizacional ou reagem às mudanças climáticas. Mas o professor também acresce que muitas espécies próximas ao homo sapiens, concorrentes ou predadoras, não tiveram o mesmo sucesso e ficaram pelo caminho nestes últimos dez milênios.

E nos traz então as questões das organizações sociais, políticas, as pressões econômicas, que hodiernamente atravessa a revolução digital, além dos simples problemas técnicos e econômicos. E escreve: “tudo o que pertence à dimensão imaterial das culturas e das crenças constitui uma evidência consubstancial da singularidade da evolução humana”, ou seja, do fenômeno humano, do porvir do que identificamos como homo sapiens.

Mas qual teria sido a evolução humana se não tivesse havido a intensa miscigenação de neandertais, denisovamos, lusonensis, lanedi (surgidos com os sapiens) e outras linhagens pós o homo heidelbergensis?

Para nossa compreensão já é bastante observar esta verdadeira extensão do corpo humano, o aparelho celular, nos últimos cinquenta anos, ou seja, desde o início do domínio neoliberal, que datamos com a desregulação, na década de 1980, promovida pela Baronesa Thatcher de Kesteven, química, advogada e Primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990, que carregou o ator e 40º presidente dos Estados Unidos da América (EUA), de 20 de janeiro de 1981 à mesma data em 1989, para universalização da total liberdade de circulação dada apenas às moedas, o neocapitalismo financeiro.

Em novembro de 1989, é imposta como Constituição ou Bíblia, conforme se exija materialidade ou crença, o Consenso de Washington, por servidores do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dois anos depois, em 26/12/1991, pela Declaração n.º 142-Н do Soviete Supremo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), formalmente dissolvida a União Soviética.

Curiosamente, em 1992, o filósofo e economista político nipo-estadunidense, Yoshihiro Francis Fukuyama, então associado ao movimento neoconservador, publica “The End of History and the Last Man”, onde enaltece o advento da democracia liberal ocidental que entende ser o ponto final da evolução sociocultural humana e a forma final de governo.

A DIMENSÃO POLÍTICA

Vive-se, atualmente, não em todo Planeta, mas no que é conhecido por civilização ocidental, sob a ideologia neoliberal, que nem pode ser identificada como evolução ou consequência das ideias liberais do século XVII.

O liberalismo, que surgiu como reação ao absolutismo monárquico e ao mercantilismo, buscava garantir as liberdades individuais e o fim dos privilégios do clero e da nobreza.

Para os dois primeiros pensadores e divulgadores do liberalismo: John Locke (1632–1704), os indivíduos possuem direitos naturais (vida, liberdade e propriedade) e que o governo existe, através de um contrato social, para protegê-los, e para Adam Smith (1723–1790), o mercado se autorregula sozinho através da “mão invisível” da oferta e da procura.

Já o neoliberalismo surge no século XX, sendo datado com a criação da Sociedade de Mont Pèlerin (1947), limitando a ação do Estado à ordem pública e à segurança, garantindo a privatização da economia, redução de barreiras alfandegárias e as poucas ações do Estado com absoluto rigor nas contas públicas, com o objetivo de conter a inflação e reduzir a dívida estatal.

Observe-se que já apresenta uma incongruência na redução de uma dívida que pela pequena atribuição do Estado nem deveria existir. Mas poder-se-á entender que esta incoerência será aumentada na medida em que o neoliberalismo financeiro açambarque o poder político. Será a concentração de renda, a existência da fome com multibilionários, a nova e distinta característica no processo dessas transformações permanentes dos australopitecos ao homo sapiens, neste estágio em que vivemos?

O colonialismo que parecia retroceder se revigora, não mais pela dispendiosa atuação política, mas pela rentável dominação das diretrizes financeiras, muito menos onerosa também pela padronização dos processos, ao dominarem a burocracia com normas globalizadas.

Mas pode-se compreender a política como o astro onde ela é exercida. Um planeta impaciente e caprichoso: continentes mudam, montanhas se erguem, correntes oceânicas deslizam em todas as direções. Afirma o jornalista e escritor estadunidense William J. (Chip) Walter Jr., “a inquietude geológica é um dos motivos para que a vida na Terra seja tão selvagem e exagerada” (“Thumbs, toes and tears”, 2006).

Unindo a evolução antropológica ao domínio financeiro o que podemos ver para o que designamos civilização humana? Uma pessoa que atinge trilhões de dólares estadunidenses (ainda a moeda de referência mundial) em consequência de centenas, senão milhares de mortes.

Um excepcional romance de ficção científica, publicado em 1952, “CiTY”, em Portugal traduzido por “Cidades Mortas”, narrado por cachorros, que substituíram os homens na Terra, revelam os próximos senhores do planeta, as formigas.

A CAMINHO DA EXTINÇÃO?

Onde se posiciona o ser humano hoje? Ao fim do primeiro quartel do século XXI?

Seguindo as perspectivas de Pascal Picq e Chip Walter num androide: os cachorros da “City”. E sob a ótica sociopolítica?

Permita-nos uma digressão.

O neoliberalismo não nos trouxe apenas a concentração de renda; senão o mundo estaria explodindo em revoluções sociais. Ele nos trouxe a regressão cognitiva, a incapacidade de entender o que estava ocorrendo com o domínio financeiro do poder político.

Seria a onda direitista que surge de eleições uma opção consciente das populações ou seria consequência de doutrinação, das falsas identidades, pregadas pelas comunicações de massa e por venais professores, mais interessados em receber propinas do que abrir os olhos dos educandos.

Antes de tratar do Brasil, que é nossa maior e permanente preocupação, examinemos a vizinhança: o que ocorre/ocorreu nas últimas eleições na América do Sul.

No Chile, o advogado José Antonio Kast Rist (1966), conhecido pela sigla JAK, foi eleito com uma agenda de extrema-direita, focada em segurança pública e controle migratório rígidos e políticas econômicas da linha liberal. Ele se posiciona no âmbito internacional como os líderes conservadores: Donald Trump e Javier Milei.

No Peru tem-se Keiko Fujimori (1975), filha de Alberto Fujimori, ditador que, entre outras atrocidades, encoberto por um “Programa Nacional de Planejamento Familiar”, esterilizou (laqueaduras e vasectomias) mais de 300 mil pessoas, concentradas nas populações mais vulneráveis e pobres do país. A plataforma de Keiko propõe mão de ferro contra a criminalidade e o crime organizado, o livre mercado, a independência do Banco Central, a atração de investimentos privados e a manutenção do modelo extrativista mineral do país.

Na Colômbia, o candidato de extrema-direita advogado, filiado ao Movimento de Salvação Nacional, Abelardo de la Espriella Otero (1978) promete agir com “mão de ferro” contra o crime, o narcotráfico, a corrupção e o que chama de ilegalidade (?). Tem seus exemplos no presidente de El Salvador, Nayib Armando Bukele Ortez, no da Argentina, Javier Milei e no incoerente e paradoxal Donald Trump, dos EUA.

A direita sempre foi uma força relevante na política brasileira. Tomando-se apenas o período republicano pode-se afirmar que somente no governo de Getúlio Vargas e de João Goulart não dominaram o executivo; mas os “conservadores” tinham força suficiente para impedir no legislativo e no judiciário medidas protetivas, garantias no trabalho e avanços sociais, além da própria independência, a efetiva soberania da nação.

O neoliberalismo, iniciado no Governo João Figueiredo (1979-1985), trouxe o retrocesso em todos os sentidos: econômico, social, político e, principalmente, no campo da formação intelectual dos brasileiros. Pode-se afirmar que fomos ficando menos informados, mais burros e alienados da nossa própria realidade. O bolsonarismo é o ápice desta desconstrução nacional. E pretende estabelecer um império pelo voto inconsequente e antinacional nas eleições, em todos os níveis, para todos os cargos eletivos.

Aguardaremos então as formigas.

*Pedro Augusto Pinho, administrador de empresa, membro do Conselho Editorial do Pátria Latina.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS