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domingo, 17 maio 2026

Holocaustos: o caso do Congo belga  (II) 

Emiliano José

Em texto anterior, falávamos do conceito histórico “holocausto”. 

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, ficou assentado, diante da barbárie hitlerista, diante do assassinato de milhões de judeus, ciganos, comunistas, homossexuais, todos os considerados diferentes pelo nazismo, não contemplados como arianos, entrou-se numa espécie de acordo a dar como “holocausto” apenas aquele praticado por Hitler. 

Equívoco alimentado pelo sionismo e de alguma forma por uma consciência culpada europeia, como se isso pudesse apagar os tantos crimes da Europa ao longo da história.  

O nazismo dava sequência a outros tantos holocaustos ao longo da história, tão bárbaros quanto o praticado por Hitler. 

Independentemente das tantas barbáries explicadas pelos modos de produção ao longo de nossa história, não seria de todo equivocado voltarmo-nos também a Freud, caracterizando o ser humano como uma “besta” quando a civilização não consegue conter os instintos mais cruéis dele. 

Claro, não nos enganemos: em séculos recentes, o sangue jorrou pela sede insaciável do capitalismo, seja na fase da acumulação primitiva, seja na atual, onde a barbárie se apresenta a olho nu, televisionada, como o holocausto em Gaza, a seguir, incessante, apesar de um aparente, e só aparente mesmo, cessar fogo. 

Qual o receio de chamar o horrendo massacre de Gaza de holocausto? Quem diria não se tratar de uma óbvia tentativa de limpeza étnica, de uma visão ariana, pretensão de ser o Estado judeu guardião da pureza de uma raça? Sequência do colonialismo? 

Receio infundado: trata-se de um holocausto, e volto a dizer, televisionado. Morte sem parar de mulheres e crianças, mais de 70 mil pessoas assassinadas pela dupla Israel-EUA, sem dó nem piedade. 

Outro caso: por que quase não se fala do holocausto do Congo Belga?  Um processo brutal de exploração e violência da Bélgica entre os séculos XIX e XX, a resultar na morte de aproximadamente 10 milhões de congoleses. 

Por que o silêncio? 

Europa, insistamos, talvez não queira recordar os crimes dela. Crianças eram arrancadas das famílias, internadas em reformatórios e orfanatos, enquanto os pais eram submetidos a uma exploração semelhante ao trabalho escravo, apesar de legalmente, então, ter sido suprimido. Isso é apenas a ponta de gigantesco iceberg, embaixo do qual restaram sepultadas, assassinadas milhões de vítimas. 

Rei da Bélgica lamenta passado colonial do país no Congo

Voltemos um pouco. Entre os séculos XVI e XIX, europeus escravizaram mais de quatro milhões de nativos da Bacia do Rio Congo, vendidos para executar trabalhos forçados nas colônias americanas. 

Decadência do tráfico como consequência do desenvolvimento capitalista, a preferir agora a exploração do trabalho assalariado, e nações europeias se voltam à exploração dos recursos naturais, a incluir diamante, ouro e de modo especial, a borracha. 

Ação missionária em África nos tempos do Rei Leopoldo II - Vatican News

O rei belga Leopoldo II, sabendo de tanta riqueza naquele solo, funda a Associação Internacional Africana, embrião da Associação Internacional do Congo. 

Tal associação nasce sob discurso conhecido, antigo, secular: organização filantrópica, voltada ao fomento do desenvolvimento do território africano, levar a civilização e o cristianismo àqueles povos primitivos. 

Com isso, o rei privatizou um país. Tal domínio foi garantido pela Conferência de Berlim (1884-1885), ocasião da partilha de África entre as nações capitalistas. 

Em 1885, o rei Leopoldo II funda o “Estado Livre do Congo”, um reino privado, propriedade da família real belga, um território equivalente a 76 vezes o tamanho da Bélgica, e um dos mais ricos do mundo então em recursos naturais. 

Confisco de terras dos nativos, criação de um sistema de concessões, distribuição de terras para companhias privadas, dada a elas o direito de administrar a força de trabalho do modo que bem entendessem, sem qualquer regulação. 

O rei institui o uso de mão de obra escrava, e dá carta branca para o assassinato dos nativos inconformados com o trabalho forçado, violência levada a cabo pela “Força Pública”, milícia composta por mercenários. 

Congoleses, forçados a trabalhar até a morte na extração da borracha, nas plantações e nas minas de ouro e diamante. Açoitamentos, torturas, estupros, mutilações e assassinatos constituíam formas rotineiras de punir ou pressionar os trabalhadores. Um país transformado em campo de concentração.

Cada trabalhador escravizado era responsável por uma cota de produção. Caso não conseguisse bater as metas de extração de látex, marfim ou pedras preciosas, tinha como castigo a amputação de uma das mãos.  Caso o escravizado fugisse de modo a evitar a mutilação, a milícia decepava as mãos ou os pés da esposa ou dos filhos dele.

Horror.

Terror. 

Mutilações incentivadas por um sistema de recompensas, vejam até onde vai o horror: quantos mais membros decepados os mercenários apresentassem, mais bônus recebiam, mais eram premiados com folgas extras. Não são incomuns fotos de homens e crianças com as mãos decepadas, ao lado dos patrões, dos algozes. 

Atrocidades no Estado Livre do Congo – Wikipédia, uma enciclopédia livre

Muitos os meios de pressionar os nativos ao cumprimento das cotas de produção. Sequestro das famílias dos trabalhadores, levados para campos de concentração. Submetidas a todo tipo de tortura até o cumprimento das cotas de produção. Não cumpridas, a família podia ser toda assassinada ou ter mãos ou pés decepados, como já dito. 

Fome, péssimas condições sanitárias conferiam àquele território altas taxas de letalidade, provocadas pela varíola, gripe suína, disenteria amébica e tripanossomíase africana – a chamada doença do sono. 

Apesar de toda a pressão internacional e de alguns recuos por parte do rei Leopoldo II no início do século XX, homenageado como herói nacional, pouca coisa mudou: deslocamentos forçados, desapropriação de terras, repressão violenta dos trabalhadores e o rígido sistema de segregação racial seguiram incólumes até a independência do Congo, em 1960. 

Não se deve esquecer daquele horrível holocausto. Não bastasse, e para finalizar, quando da independência e assunção de Patrice Lumumba, este é assassinado por agentes norte-americanos e belgas, e dissolvido em ácido. Holocausto.

#Holocaustos 

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