César Fonseca
O encontro dos dois líderes mundiais, Xi Jinping, China, e Donald Trump, Estados Unidos, semana passada, em Pequim, lança luzes diretas sobre o Brasil e o sentido do seu desenolvimento, amparado nas reformas chinesas que transformaram a China na maior potência global, no Século 21.
Foi, afinal, no Brasil que os chineses buscaram as inspirações para decisões nacionalistas que transformaram a China de país agrário em industrial de primeira linha, a partir da primeira metade do século 20.
A fonte inspiradora chinesa está no Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, apoiados pelo Tenentismo Trabalhista, que levou Mao Tse Tung a comandar a Revolução em seu país, em 1949, a partir das reformas defendidas por Vargas.
Em especial, a reforma agrária, implementada pelo Maoismo, alavanca de partida para a industrialização chinesa.
Com a implementação da indústria, ampliou-se reformas trabalhistas, valorização dos salários, agregação dos produtos industriais, fortalecimento do mercado interno e fim da escravidão.
Nascia a grande China do futuro, que hoje passa à frente dos Estados Unidos.
NACIONALISMO E REVOLUÇÃO
Os nacionalistas chineses, que fugiram da China Continental para Taiwan, durante a Revolução liderada por Mao, encontraram região devastada pelos japoneses.
A primeira providência dos chineses, na Ilha, que mantinham vínculos culturais com os chineses liderada por Mao, no continente, embora imbuídos de ideologias concorrentes, foi instaurar a reforma agrária.
Em segundo lugar, foi buscar, avidamente, a industrialização de ponta.
A fabricação de chips representaria matéria prima industrial indispensável ao desenvolvimento dos componentes e insumos complementares às demais indústrias de eletroeletrônicos.
Significou ponto de partida da industrialização da China como um todo, tanto a da Ilha, Taiwan, como a do continente, onde estaria o grande mercado consumidor.
Uma complementaria a outra, ampliando-se, quando Deng Xiao Ping disseminou as zonas de exportação na China, para atrair investidores internacionais e ganhar mercado mundial.
JANGO NA CHINA EM 1963 E O FUTUTO DO BRASIL
Quanto mais o tempo vai passando, cada vez mais vai se confirmando que o maior discurso presidencial da História do Brasil é o de Jango Goulart, em 13 de março de 1964, intitulado “As Reformas de Base”.
Nelas estavam contidas o Projeto Brasil nação: reformas agrária, financeira, administrativa, interior, exterior e cambial.
Goulart preparou seu grande discurso de 1964, quando retornou da China, em 1963, para ocupar o poder, deixado pela renúncia de Jânio Quadros em 1961, seguida do Parlamentarismo, em 1962/63, derrotado pelo janguismo no ano seguinte, derrubado no ano seguinte pelo golpe militar, apoiado pelos Estados Unidos.
O governo Goulart, no comando das decisões de tais reformas fundamentais para garantir a soberania nacional, é uma herança da Revolução de 1930, liderada pelos tenentistas, comandadas por Getúlio Vargas, que influenciaram, junto com a Revolução Soviética Leninista-Trotskista-Stalinista de 1917, a Revolução Maoista de 1949.
NACIONALISMO X IMPÉRIO ANGLO-SAXÃO
Suas bases políticas fundamentais são socialismo e trabalhismo como ideologia política, ancorados nas empresas estatais de energia como fatores econômicos dinâmicos do desenvolvimento nacional-socialista para enfrentar o capitalismo expansionista imperialista anglo-saxão ocidental.
Para Lenin, revolução era a soma dos soviets com energia elétrica.
O império europeu impôs a escravidão mundial com as grandes cruzadas, a partir do século 14, mediante expansão do mercantilismo, sistema capitalista comercial, para vencer o feudalismo, na Europa, implantado depois da queda do império romano.
Ao capitalismo comercial, seguiu, com a Inglaterra, o capitalismo industrial, depois da Revolução Francesa, de 1789, que derrotou de vez o absolutismo feudal, para disseminar pelo mundo o modo de produção burguês, a partir da reforma agrária.
Com a reforma agrária, emergiu a revolução industrial, no século 19, algo que replicaria, depois na Europa continental e, em seguida nos Estados Unidos.
No Brasil, tentativas, nesse sentido, sempre se frustraram, diante do regime colonial dominado pelo regime imperial escravocrata, encerrado, apenas, em 1888.
O Império(1822-1888) encerraria em 1889, mas a escravidão permaneceria na República Velha(1889-1930), tornando-se permanente obstáculo à reforma agrária.
Como diz o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no Governo Lula(2022-2025), candidato pelo PT ao governo de São Paulo, em 2026, no seu novo livro, “Capitalismo Superindustrial”, o preço da libertação dos escravos foi o domínio do Estado pela oligarquia agrária, expressa nos agricultores paulistas do café, a título de indenização.
Dessa forma, jamais houve, até hoje, a reforma agrária, no Brasil.
Portanto, não ocorreu, também, a industrialização brasileira, como se deu nos países capitalistas desenvolvidos, nem na China, até a revolução maoista de 1949.
Getúlio Vargas comandou a Revolução de 1930 para fazer a industrialização sem realizar a reforma agrária, porque teve que enfrentar os capitalistas “terratenientes” brasileiros, aliados dos ingleses, sempre que ventilou o assunto.
Contra a reforma agrária estourou o golpe político, no Estado de São Paulo, onde se realizou a contra-revolução de 1932, para combater o Estado Novo getulista, que levou ao fechamento do regime, em 1937, depois do golpe frustrado direitista de 1935, com apoio dos comunistas stalinistas.
COMUNISTAS MARCHAM CONTRA REFORMA AGRÁRIA
Politicamente, inconscientes e alienados, os comunistas tupiniquins, teleguiados por Stalin, marcharam com os cafeicultores direitistas fascistas de São Paulo, fazendo o jogo do império inglês, como denunciaria Trotsky.
Na ocasião, exilado no México do nacionalista Cardenas, apoiou Getúlio Vargas, denominado pelo ex-criador do poderoso exército soviético de bonapartista populista.
O Estado Novo getulista não conseguiu implementar a reforma agrária no Brasil, graças à aliança conservadora dos cafeicultores paulistas com os comunistas contrarrevolucionários, participes alienados-inconscientes dos integralistas de 1938, que lutariam contra Getúlio, até derrubá-lo em 1945, quando, então, lutava, ao lado de Roosevelt contra Hitler.
A volta de Getúlio em 1950, com plataforma reforma agrária-industrialização jamais seria completada porque os Estados Unidos imperialmente impediriam a concretização desse projeto.
Em sua trilogia, A Era Vargas, o jornalista e escritor José Augusto Ribeiro, descreve que a elite americana, depois da morte de Roosevelt, aliado de Vargas, criou dificuldades para implementação das reformas varguistas, com receio de o Brasil virar concorrente dos Estados Unidos.
O PODER ANGLO-AMERICANO CONTRA
REFORMA AGRÁRIA E INDUSTRIALIZAÇÃO
O império americano tomaria o lugar do império inglês, depois da segunda guerra mundial, a partir de 1945, e no que diz respeito ao Brasil, os Estados Unidos cuidariam de impedir, em aliança com as elites culturalmente coloniais, o avanço nacionalista da Revolução de 1930.
Washington fez feroz oposição ao Varguismo trabalhista, para impedir a reforma agrária e a concretização da industrialização nacionalista, com criação da Petrobrás e, posteriormente, Eletrobrás.
A resistência americana, contando com seus aliados reacionários brasileiros pró-Washington, se levantaria contra Jango Goulart, em 1964, opondo-se ao seu discurso pelas Reformas de Base, no qual se destacava a reforma agrária, ponto de partida para a industrialização brasileira, iniciada com Vargas, na Revolução de 1930.
Sem a reforma agrária, ponto alto do discurso de Jango, em 1963/64, que se inspirava na reforma agrária de Mao Tse Tung, para alavancar a industrialização no Brasil, jamais ocorreu, por aqui, o desenvolvimento nacionalista sustentável.
NEOLIBERAIS, INIMIGOS DA REFORMA AGRÁRIA BRASILEIRA
Os países capitalistas desenvolvidos, vencedores da segunda guerra, capitaneados pelos Estados Unidos, cuidaram de manter, no Brasil e na América Latina, o status quo colonial, fornecedores de matérias primas, para gerar a industrialização nos seus países, à moda imperialista, em união com as elites locais, herdeiras do colonialismo agrário escravocrata antiindustrial.
A industrialização brasileira sempre foi vista pelos países desenvolvidos como ameaça, porque, dispondo de fontes inesgotáveis de matérias primas, estas poderiam ser manufaturadas por aqui mesmo, tornando o Brasil superpotência, mediante vantagens comparativas inigualáveis.
O modelo econômico que os capitalistas desenvolvidos impuseram aos governos brasileiros, instalados pela força do capitalismo internacional, foi e continua sendo o da dependência crônica de poupança externa, baseada na deterioração dos termos de troca.
O Brasil exportador de matérias primas baratas compra produtos manufaturados caros, eternizando, nas relações de trocas, perdas internacionais crescentes, como dizia o ex-governador Leonel Brizola, do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, herdeiro político nacionalista de Getúlio Vargas e Jango Goulart.
A Nova República, a partir de 1985, que substitui os militares de viés nacionalista, como Ernesto Geisel, derrotados pelos Estados Unidos, com o golpe do dólar sobrevalorizado, para golpear a industrialização, ancorada na dívida externa, caiu na armadilha do neoliberalismo.
ARMADILHA NEOLIBERAL
Os neoliberais antinacionalistas brasileiros, apoiados pelos americanos, a partir do Consenso de Washington, para inviabilizar a reforma agrária e a industrialização, valorizaram artificialmente o câmbio, de modo a combater a inflação, e isentaram do pagamento de ICMS exportações de produtos primários e semielaborados, para eternizar o estado colonial anti industrial.
Impuseram o fim do federalismo nacional, que tinha na receita do ICMS a fonte tributária capaz de industrializar regionalmente o país, a partir de 1996, com a imperialista Lei Kandir, sob argumento colonialista de que não se deve exportar impostos.
Resultado: não se industrializa produtos primários, vendendo-os barato, e continua importando produtos manufaturados caros, comprando inflação, dívida, subemprego e subdesenvolvimento crônico.
GUERRA APROFUNDA DEPENDÊNCIA
É o que está acontecendo, agora, com o petróleo, depois da privatização da distribuidora BR Combustíveis e das refinarias da Petrobrás, durante do golpe neoliberal(2016-2018): exporta óleo cru e compra óleo refinado, empurrando inflação em dólar no colo do povo, achatando salários em real.
Acumula-se deterioração nas relações de troca, gerando déficit em contas correntes do balanço de pagamentos, materializando as chamadas perdas internacionais, denunciadas pelo brizolismo, ou as coerções externas, mencionadas por Getúlio Vargas, contra as quais lutou com as armas do nacionalismo industrial e das conquistas sociais trabalhistas.
Desse maniqueísmo imperialista colonialista sofrem todos os governos da Nova República, mesmos os petistas, que já acumulam quatro mandatos, podendo alcançar o quinto com provável vitória da reeleição de Lula.
O interregno ultra neoliberal tupiniquim de 2016 a 2022, com os antinacionalistas entreguistas Michel Temer(2016-2018) e Jair Bolsonaro(2018-2022), aprofundou o neoliberalismo colonial, com a emergência do segundo mandato de Donald Trump, iniciado em 2023.
O novo imperador americano continua, como os anteriores, impondo restrições orçamentárias, via Banco Central Independente(BCI) que impediram cumprimentos de promessas eleitorais lulistas, a partir da vitória sobre bolsonarismo fascista em 2022.
IMPERIALISMO TRUMPISTA EM CENA
O garrote imperialista continua, agora, diante da pressão trumpista neocolonial de transformar a América Latina em terreno de exploração americana, para evitar sua aproximação com a China, que, no comando do Brics, transforma-se na vanguarda internacional.
Especialmente, sob Trump, Estados Unidos cuidam de impedir Brasil de aliar-se aos chineses e, junto com os Brics, para cumprir seu destino industrial que persegue desde a Revolução de 1930, sendo, inclusive, incapaz de cumpri-lo na Era Petista(2002-2016/2022-2026), com Lula-Dilma-Lula, devido à pressão neoliberal norte-americana.
Por meio do Consenso de Washington e sua estratégia macroeconômica conduzida pelo BCI, expressa no tripé metas inflacionárias, câmbio flutuante e superavit primário antidesenvolvimentista, antiindustrial, colonialista, Trump, agora, quer abocanhar as terras raras, por meio das quais o sonho industrial brasileiro se concretizaria.
Em eventual quarto mandato, possível, graças à orientação governamental lulista, voltada ao desenvolvimento social compensatório, nova base desenvolvimentista industrial seria alcançada se fosse retomada, para valer, as Reformas de Base de Jango-Getúlio-Brizola.
Reconstruir o trabalhismo, do qual o PT é, historicamente, herdeiro, para lançar a arquitetura do Projeto Brasil Nação Soberana, eis a argamassa política que Lula precisa construir.
Com ela, como prega o nacionalista Roberto Requião, ex-governador e ex-senador do Paraná, do PDT, aliado de Lula, amadureceria o projeto de industrialização, alavancando a reforma agrária, que serviu de âncora à China para se transformar, a partir dela, em 1949, com Mao Tse Tung, na atual potência mundial, ultrapassando os Estados Unidos.