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sábado, 16 maio 2026

América Latina: quintal? Até quando isso vai continuar?

Por Marcelo Colussi*

Em 2005, quando os Estados Unidos queriam lançar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), o então Secretário de Estado do governo Bush (filho), General Colin Powell, afirmou categoricamente: “Nosso objetivo com a ALCA é garantir às empresas americanas o controle de um território que se estende do Ártico à Antártica e o livre acesso, sem qualquer obstáculo ou dificuldade, aos nossos produtos, serviços, tecnologia e capital em todo o hemisfério.”

Embora esse documento nunca tenha sido formalmente assinado, Washington pressionou os países da região a assinarem tratados bilaterais, alcançando, em última análise, o mesmo objetivo da ALCA. Duas décadas depois, a geopolítica hemisférica dos Estados Unidos permanece inalterada: o controle de um território que se estende do Ártico à Antártida. “Este é o nosso hemisfério”, declarou o presidente Trump sem o menor pudor após invadir a Venezuela no início deste ano.

Os Estados Unidos, a principal potência capitalista mundial, continuam sendo o centro hegemônico do planeta. Mas os tempos estão mudando. E mudando muito rapidamente. Após a queda do Muro de Berlim e a desintegração da União Soviética, sua outrora grande rival, Washington parecia se encontrar em um mundo unipolar, onde ditava as regras do jogo a seu bel-prazer. A ONU era seu escritório virtual para administrar o mundo, enquanto o FMI e o Banco Mundial surgiam como suas agências de gestão financeira global, garantindo que os únicos a lucrar com os empréstimos concedidos fossem os investidores americanos. Contudo, essa unipolaridade absoluta teve vida curta.

A China, por meio de suas reformas e políticas de abertura, iniciou um boom econômico sem precedentes, desafiando — e superando — a economia americana e deixando-a para trás em avanços científicos e tecnológicos. Hoje, a diferença criada pelo gigante asiático é intransponível. Portanto, para o governo dos Estados Unidos, a guerra comercial — alimentada pelo desenvolvimento tecnológico — uma guerra já definitivamente perdida, transformou-se em um conflito militar perpétuo. Isso gera maiores benefícios econômicos e políticos para os EUA.

Por sua vez, a Rússia, emergindo do colapso que se seguiu à desintegração do bloco socialista (uma queda líquida de 40% no seu PIB após a explosão), demonstrou mais uma vez o seu estatuto de grande superpotência militar, superando tecnicamente os Estados Unidos em muitos aspetos. Tudo isto começou a moldar um novo panorama geopolítico. O mundo começou a passar de unipolar para multipolar. Mas a classe dominante americana recusa-se a abdicar do controlo global. Parece acreditar genuinamente que possui um suposto “destino manifesto”, levando a democracia e a liberdade ao mundo, ainda que… através de bombas. Na realidade, a única verdadeira liberdade nesse país é uma estátua (de origem francesa) à entrada do porto de Nova Iorque.

Devido a uma combinação de fatores — consumo excessivo e desenfreado, complacência e especulação financeira levada ao extremo, agravada por uma acentuada desestruturação social, cujo sintoma mais evidente é o uso desenfreado de drogas, com milhões de pessoas sem-teto vagando pelas ruas em desespero — os Estados Unidos, como todos os impérios, atingiram o auge de seu desenvolvimento (nas décadas de 1950 e 60) e então iniciaram seu declínio. Sua moeda, o dólar, imposta à força como moeda universal nas últimas décadas (e protegida por 800 bases militares em todo o mundo), está agora sendo desafiada por novos atores (Rússia, China e BRICS+), que buscam uma economia global desdolarizada.

Diante disso, para evitar ou ao menos desacelerar esse declínio, aprofundando ao extremo a chamada Doutrina Monroe (“América para os americanos”), os Estados Unidos tratam todos os países da América Latina como seu quintal “natural”, como um refúgio seguro para continuar a fundamentar sua hegemonia. O que disse o General Powell permanece absolutamente válido vinte anos depois, como o foi ao longo do século XX, e aspira a sê-lo no século atual. Assim, a região continua seu roubo descarado de matérias-primas (petróleo, diversos minerais, biodiversidade das florestas tropicais, água doce), vincula descaradamente os supostos Estados “soberanos” a dívidas externas impagáveis ​​e, embora tenha agora endurecido a situação dos migrantes, continua a se aproveitar da mão de obra superexplorada representada pela enorme massa de trabalhadores latino-americanos e caribenhos que chegam ao seu território, tratados com desprezo, quase como lixo (vindos de “países de merda”, segundo as palavras incisivas e ponderadas de seu excelentíssimo Senhor Presidente).

Assim como fez no início do século XX, ao gerar a noção abominavelmente supremacista de “repúblicas das bananas” (sendo a Guatemala o exemplo icônico, com a United Fruit Company liderando o sangrento golpe de 1954 para derrubar o governo progressista de Jacobo Arbenz), agora, com a presidência do neonazista Donald Trump, está retomando essa iniciativa, tentando transformar todos os países da região em uma única “república das bananas”, que se estenderia do sul do Rio Grande até o sul da Patagônia.

Com a insolência irreverente de um vaqueiro truculento, o atual presidente — representante da classe dominante do império, que se considera dono do mundo por esse suposto direito natural — interfere nos assuntos internos de toda a região, movendo as peças como bem entende, como se fosse uma extensão de seu país.

Assim, ele observa com preocupação, e expressa isso em voz alta, a condenação de Jair Bolsonaro no Brasil por tentativa de golpe de Estado — impondo sanções contra o juiz que presidiu o caso — ou a de Álvaro Uribe na Colômbia por suborno e fraude processual — ameaçando o presidente Gustavo Petro de que ele “poderia ser o próximo” a ser atacado. Ele toma partido do candidato de direita em Honduras, incitando as pessoas a não votarem em candidatos “narco-comunistas”, perdoando um criminoso como Juan Orlando Hernández e promovendo fraude eleitoral flagrante para garantir a vitória de “seu” escolhido (Nasry Asfura). Ele apoia integralmente figuras da extrema-direita como Daniel Noboa no Equador — acusado de ter roubado as últimas eleições — ou Nayib Bukele em El Salvador — acusado de violações dos direitos humanos. Ele chantageou abertamente a população argentina nas últimas eleições legislativas, prometendo recompensas pela vitória de Javier Milei ou punição — nenhum desembolso de ajuda — em caso de derrota. Da mesma forma, ele trabalha contra as candidaturas progressistas de Lula no Brasil e de Iván Cepeda na Colômbia para as próximas eleições em seus respectivos países, buscando colocar governos que sejam complacentes com a Casa Branca.

Em flagrante violação da autonomia nacional, e com arrogância e orgulho, os Estados Unidos declaram o presidente Nicolás Maduro da Venezuela um “narcoterrorista” — oferecendo uma recompensa de 50 milhões de dólares por sua captura, como em um filme de faroeste de Hollywood — e o retratando como chefe de um cartel de drogas inexistente. Essa força mobiliza uma enorme operação militar para o Mar do Caribe, que — em uma situação ainda bastante confusa (teria havido uma traição interna?) — consegue sequestrar o presidente e estabelecer um governo dócil, um virtual protetorado controlado por Washington, garantindo assim o controle discricionário das vastas reservas de petróleo ali localizadas.

A ilha socialista de Cuba, implacavelmente bloqueada por mais de seis décadas, está ameaçada por uma possível invasão militar; não porque haja vastos recursos a serem saqueados ali — como, por exemplo, na Venezuela — mas como uma demonstração de força e para afirmar sua dominância, especialmente após a retumbante derrota no Irã. A mensagem subjacente é que os Estados Unidos governam seu próprio quintal e ninguém deve interferir. “Posso fazer o que quiser com Cuba, seja libertá-la ou tomá-la”, declarou enfaticamente o presidente americano.

Com esse avanço da extrema-direita e a busca pelo controle total da região — bases militares na Argentina, a tentativa de transferi-las para o Equador, a expansão das de Honduras, o apoio inabalável aos novos líderes ultraconservadores da Bolívia e do Chile, a Quarta Frota Naval “guardando” as águas do Caribe e do Atlântico que circundam a América Latina — tudo indica que o império está atacando impiedosamente propostas inconvenientes à sua hegemonia, como a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), e demarcando claramente o que considera seu próprio território. Na verdade, o objetivo final é impedir a presença de seu principal concorrente, a República Popular da China, nessas latitudes, assim como a da Rússia.

O que fazer a respeito? Os governos subservientes, que são a maioria na região, simplesmente baixam a cabeça e sorriem complacentemente (presumindo sem questionar que o idioma falado na região, o espanhol, é “amaldiçoado”, segundo a avaliação do presidente dos EUA). Mas o povo pode fazer mais: resistir (“O presente é para a luta, o futuro é nosso”, disse Che Guevara).

Hoje, dada a forma como o mundo evoluiu, não há muito espaço para avançar na construção de alternativas não capitalistas. Mas é preciso resistir a esses avanços imperialistas. Nestes momentos históricos, resistir a esses ataques cruéis de um Estados Unidos em declínio é a coisa mais revolucionária a que podemos aspirar.
Sem dúvida, tempos melhores virão. Depende de nós que isso aconteça.

*Marcelo Colussi é cientista político, professor universitário e pesquisador social. Nascido na Argentina, estudou psicologia e filosofia em seu país natal e atualmente reside na Guatemala. Escreve regularmente para veículos de mídia alternativa online. É autor de diversos textos nas áreas de ciências sociais e literatura.

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