Brasília, 13 de junho de 2021 às 05:08
Selecione o Idioma:

Brasil

Postado em 29/08/2017 12:10

Frente ampla na política e “mea culpa” na comunicação: A entrevista de Lula à mídia independente de Pernambuco

.

do Marco Zero Conteúdo

por Laércio Portela

Mesmo com as traições partidárias que tiraram Dilma Rousseff da Presidência da República, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva defende a formação de mais uma frente ampla para que o PT e a esquerda voltem a governar o Brasil a partir de 2019. Ele rebateu as críticas à sua aproximação com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-MA). “Quando um partido político como o PT procura fazer essas alianças é porque ele tem clareza de que sozinho não consegue ganhar as eleições e se ganhar não consegue governar sem maioria no Congresso Nacional”.

A declaração do ex-presidente, que teve repercussão nacional, foi dada em entrevista à mídia independente de Pernambuco numa edição especial do programa Fora da Curva, durante a passagem de sua Caravana pelo Estado. A conversa com jornalistas da Marco Zero Conteúdo, Fora da Curva, Terral Coletivo de Comunicação Popular e Associação Nacional de Radiodifusão Comunitária (Abraço) teve transmissão ao vivo pela Rádio Universitária 99,9 FM e AM 820 e streaming de áudio distribuído para mais de 2 mil rádios comunitárias de todo o país. Na Internet, alcançou mais de 400 mil visualizações.

Lula lembrou as três eleições consecutivas que perdeu para a presidência da República (89, 94 e 98) para justificar a necessidade de o PT buscar o máximo de apoio partidário para a disputa eleitoral. Em 2002, ele decidiu superar a barreira dos 30% de votos por meio da aliança com setores do empresariado, o que se consolidou com a escolha de José Alencar para o cargo de vice-presidente. “Eu é que não queria ter um partido como o Partido Comunista Italiano, que durante 30 anos era considerado o melhor partido comunista do ocidente, mas não passava de 30% dos votos. Aqui no Brasil para você ganhar tem que ter 50% mais um dos votos”.

Movimentos sociais e eleição parlamentar

Para Lula, a autonomia política da esquerda vai crescer na medida em que as forças populares conseguirem ampliar sua força eleitoral, aumentando a representação no Poder Legislativo. “O povo, as entidades, os movimentos sociais, a CUT, o MST, os sem-teto, os estudantes, os movimentos de mulheres, o movimento LGBT têm que pensar que, se todo mundo se organizar para conseguir que a gente eleja uma maioria de deputados comprometidos com algumas transformações, aí a gente não precisa fazer aliança”.

O ex-presidente fez uma distinção entre a necessidade de aliança para vencer uma eleição presidencial e a necessidade de aliança para garantir a governabilidade dentro do Congresso Nacional, lembrando que o PT elegeu 91 deputados em 2002 para um universo de 513 parlamentares. “Para ganhar uma eleição você nem precisa muito de aliança. A Dilma em 2010 precisava de aliança política porque ela precisava de tempo de televisão para se tornar conhecida e mostrar o que tinha feito. Em 2014, a Dilma já não precisava de aliança desse ponto de vista. Acontece que se você não faz aliança, todo mundo vai para o outro lado e aí fica difícil. Para ganhar você não precisa fazer tanta aliança. No meu caso, por exemplo, que sou mais conhecido do que nota velha de 1 real”.

O problema, segundo Lula, é a base de apoio que o partido vencedor vai garantir no Congresso. “Se você ganhar e tiver 300 deputados e 50 senadores, ótimo. Agora se eu ganhar e tiver 10 senadores e 70 deputados vou ficar refém do Congresso Nacional. Você tem que procurar buscar alianças mesmo que não sejam acordos definitivos, sejam acordos programáticos. Você precisa fazer alianças pontuais. Se eu mando uma medida provisória para regular os meios de comunicação, alguém no governo precisa conversar com os deputados, eu preciso construir uma maioria para votar. E eu não posso conversar com suplente, com quem não tem voto. Ou com um cara muito bom que não tem voto. Eu tenho que conversar com o cara de direita que tem voto”.

Na opinião de Lula, é preciso que setores de esquerda estabeleçam metas para eleger bancadas fortes. Ele disse que tem conversado com vários segmentos cobrando esse tipo de planejamento. O ex-presidente citou o exemplo do movimento sem-terra, que possui três representantes no Congresso contra 140 da bancada ruralista. “Quando eu criei o PT imaginei que trabalhador votava em trabalhador, mas não é assim. O voto não é uma equação matemática, é o despertar da consciência política da sociedade. Então eu estou convencido de que aliança política é necessária”.

Relação com Renan, Sarney e Renata Campos

Na entrevista, Lula foi questionado sobre a aproximação dele com o senador Renan Calheiros, que apoiou publicamente o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Renan e o seu filho Renan Filho, governador de Alagoas, foram os principais anfitriões da Caravana de Lula em sua passagem pelo estado nordestino. Na resposta, Lula foi claro sobre a gratidão que tem ao senador alagoano. “Vou te falar uma coisa. O Renan pode ter todos os defeitos, mas ele me ajudou a governar esse país. Se ele cometeu algum erro… eu sou da opinião que todo mundo é inocente até prova em contrário”, disse, referindo-se às investigações da Operação Lava-Jato.

A entrevista exclusiva à mídia independente de Pernambuco aconteceu no Hotel Atlante Plaza, em Boa Viagem, na manhã da sexta-feira (25), antes de a comitiva seguir para o município de Ipojuca onde realizou evento em defesa do setor naval. Na noite da quinta-feira (24), o ex-presidente teve um longo encontro com a cúpula do PSB de Pernambuco. Ele jantou na casa de Renata Campos, viúva do ex-governador Eduardo Campos. Entre os convidados estavam o governador Paulo Câmara e o prefeito Geraldo Julio. Os dois apoiaram o impeachment de Dilma e deram sustentação política ao governo Michel Temer. A bancada do PSB na Câmara depositou 29 dos seus 32 votos pelo afastamento de Dilma.

Lula pediu aos ouvintes que não confundissem a sua relação política com a relação pessoal. “Eu nunca rompi politicamente para romper no nível pessoal. Amizade é uma coisa, política é outra. Todo mundo aqui sabe da minha relação com Eduardo Campos, todo mundo aqui sabe da minha relação com a família desde o tempo de Arraes e dona Madalena. Eu quero manter essa relação independentemente do partido que eles forem, da posição política”.

Sobre as notícias nas redes sociais de que a sua ida ao Maranhão estava causando tremenda dor de cabeça aos organizadores para compatibilizar as agendas com o governador Flávio Dino (PCdoB) e com a família Sarney, arqui-inimigos locais, Lula foi taxativo: “Eu sou grato ao Sarney. É importante dizer que eu sou grato ao Sarney como presidente do Senado. Teve um tempo em que as pessoas queriam que eu rompesse com o Sarney e eu ia ganhar de presente (como presidente do Senado) o Marconi Perillo (atual governador de Goiás, do PSDB). Você vai deixar de ter um tubarãozinho manso para ter um tubarão novo te mordendo até o pé?”.

O crescimento da representação da esquerda no Congresso é a chave para mais autonomia, segundo Lula, mas a decisão final cabe sempre ao eleitor no momento solitário do voto. “Quando o assunto é aliança, você precisa medir essa decisão em cada momento. Você não precisa fazer acordos definitivos, pode fazer em cima de cada projeto. Eu gostaria que a esquerda tivesse mais força, que o PC do B elegesse 50 ou 60 deputados, que o PSOL elegesse mais 50 ou 60. O PSTU elegesse 50 ou 60. A esquerda do PMDB elegesse 80… Eu queria, mas quem vota é o eleitor. E quando o eleitor vota, nós temos que nos subordinar aos desejos das urnas”.

Mea culpa na comunicação

Demanda histórica de amplos segmentos da esquerda brasileira, a regulamentação da mídia também foi tema da entrevista. A cobertura parcial da mídia corporativa no processo de impeachment de Dilma e das investigações da Lava-Jato, se posicionando claramente como um ator político, tornaram a regulação um consenso no campo da esquerda para a garantia da pluralidade e diversidade de opiniões e na defesa dos valores da democracia.

Lula começou sua fala reconhecendo que os governos do PT poderiam ter realizado mais nesta área. “Eu começo fazendo um mea culpa porque eu acho que nós poderíamos ter feito mais e não fizemos no que diz respeito à regulação dos meios de comunicação. Era um pouco uma visão menor sobre a necessidade”.

Revelou que era frequente a atuação de setores políticos ligados ao governo para evitar a regulação. “É preciso dizer que tem sempre aqueles que vêm conversar conosco dizendo que precisamos sentar e tomar um café com o José Roberto Marinho (vice-presidente do Grupo Globo), que você precisa almoçar com a Folha ou almoçar com a Veja. Que o problema é a falta de diálogo. Ora, o problema não é nada disso. Não é de falta de diálogo. Eu hoje tenho muito convencimento disso”.

Lula lembrou da realização da primeira Conferência Nacional de Comunicação em 2009, com ampla participação dos movimentos sociais defensores do direito à comunicação, e de como, a partir da Confecom, foi produzido um projeto de lei com as principais propostas aprovadas pelos delegados. O projeto caiu não mãos do ministro das Comunicações de Dilma, Paulo Bernardo, em 2011, mas nunca foi enviado ao Congresso Nacional para apreciação e votação. “Certamente a companheira Dilma não mandou por alguma decisão, por alguma orientação”, disse Lula.

Compromisso de honra com a democratização dos meios

“O fato concreto é que nós não mandamos para o Congresso Nacional e o fato é que  eu tenho agora como um compromisso de honra de que nós vamos fazer a regulação”. Mas, para o ex-presidente, o desejo de um futuro governo de esquerda de encaminhar o projeto de democratização dos meios de comunicação precisa estar atrelado à construção e sensibilização de uma maioria no Parlamento. “Obviamente, isso vai estar vinculado à correlação de forças que nós vamos ter no Congresso Nacional. Precisamos nos dar conta de que as reformas que a gente quer fazer estarão intimamente ligadas à capacidade que a gente tenha de convencer a sociedade a dar ao presidente que for eleito uma força dentro do Congresso Nacional capaz de encaminhar as mudanças, senão vai ficar tudo só no discurso”.

Lula enfatizou a importância de que a esquerda valorize a disputa ao Legislativo e associe essa disputa à governabilidade do Executivo. “Não adianta ficar xingando o Congresso Nacional, dizendo que não presta. Os deputados e senadores que estão lá representam a cara do povo brasileiro no dia da eleição. O povo foi votar com aquela cara. Parimos aquilo. Depositou ódio na urna e colheu aquilo lá. Plantou vento, colheu tempestade…É preciso que durante o processo eleitoral a gente diga claramente o que a gente quer desse país para que o deputado que vai ser votado tenha um compromisso com a gente, porque senão ele não vai ter compromisso nenhum com o projeto quando chegar lá no Congresso”.

A entrevista de Lula à mídia independente, que durou mais de 1 hora, foi acompanhada durante todo o tempo pela presidenta nacional do PT, senadora Gleise Hoffmann (PR). Durante a transmissão, a ex-presidenta Dilma Rousseff chegou ao hotel para acompanhar a agenda de Lula em Pernambuco e foi convidada pelo líder petista a participar da conversa ao vivo.

O golpe para enquadrar o Brasil no neoliberalismo

Dilma chamou a atenção para o fato de que o golpe não tinha por objetivo o impeachment em si, mas a imposição de uma agenda de longo prazo de perda de direitos. “Esse golpe não se traduz num ato. Nós sabemos o retrocesso que eles estão impondo. Essa maluquice que é limitar por 20 anos os gastos com educação, a lei de terceirização, a reforma trabalhista que, na verdade, é a destruição das relações de trabalho reguladas no Brasil. O reino da selvageria. O objetivo é enquadrar o Brasil econômica, social e geopoliticamente no neoliberalismo”.

Segundo Dilma, a partir do “golpe sem crime de responsabilidade”, houve um imenso desequilíbrio entre os poderes, com conflitos entre o Ministério Público e o Judiciário,  a extrema politização do próprio Poder Judiciário, a antecipação de sentenças pelos juízes, a “compra aberta de votos no Parlamento”.

Essa divergência e esses conflitos nascem, na opinião da ex-presidenta, porque as forças políticas que impulsionaram o impeachment não têm segurança sobre sua capacidade de tomar o poder nas urnas em 2018. “Todo esse processo tem uma razão de ser: eles não têm um bom candidato para 2018. Eles hoje praticam algo que considero extremamente grave que é a justiça do inimigo para cima do ex-presidente Lula. O objetivo é destruir civilmente como cidadão, moralmente, uma pessoa. Quando um procurador diz que não tem provas, tem convicções, nós voltamos à idade média”, afirmou em referência à apresentação do já famoso power point do procurador da Operação Lava-Jato Dalton Dellgnol incriminando Lula.

“Estamos vivendo o segundo momento do golpe que é o de tirar a alternativa progressista, popular, do jogo. Mas não basta só isso”, alerta.

A reforma política em tramitação no Congresso Nacional é o meio pelo qual, na visão de Dilma, as forças políticas pró-impeachment estão se articulando para permanecer no poder. “Eles querem agora discutir o parlamentarismo por uma terceira vez e, além disso, querem o tal do distritão. O parlamentarismo é sempre uma saída conservadora em momentos de ruptura institucional. Foi assim com Jango, foi assim depois da Constituição de 1988. E obviamente é uma tentativa dos sem-voto de permanecer para além de 2018. E tem mais: a tentativa de nos varrer da face da terra que é o distritão. Porque quem ganha com o distritão é quem tem dinheiro, quem tem poder. É obvio que lá no final nós vamos derrotar o distritão porque o povo não vai aceitar uma representação montada completamente em cima do poder econômico e da mídia e das oligarquias tradicionais”.

O momento para Dilma é de unir forças no campo da esquerda e resistir. “Agora nós temos que fazer o que o ex-presidente Lula disse. Temos que resistir, mas não somos só nós aqui sentados nessa mesa.  Quem tem de entrar nesse processo de resistência são os jovens, são todos os segmentos populares que estão contrários a tudo isso que está acontecendo. Que percebem a que esse golpe veio, para que ele foi feito, a quem ele beneficia. Está tudo muito claro”, afirmou lembrando da exclusão de mais de 1 milhão de pessoas do Bolsa Família e do recém anunciado pacote de privatizações do governo Temer, incluindo a Eletrobrás.

A entrevista concedida aos jornalistas Paulo Reis (Fora da Curva), Laércio Portela (Marco Zero Conteúdo), Débora Britto (Terral Coletivo de Comunicação Popular) e ao radialista Wagner Souto (Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária) foi considerada histórica pelos comunicadores. Pela primeira vez, os ex-presidentes Lula e Dilma falaram ao vivo e de forma exclusiva para veículos independentes da mídia regional, rádios comunitárias e do sistema de comunicação pública.

Comentários: