Por Marcelo Zero
Em geral, pode-se afirmar que os eventos esportivos deveriam ser poupados de boicotes geopolíticos.
Desde a Grécia antiga, os esportes têm a nobre função de amenizar o esforço entre os polos políticos e de sublimar as rivalidades numa competição saudável.
O primeiro grande boicote geral a um evento esportivo ocorreu em 1980, nas Olimpíadas de Moscou, por iniciativa dos EUA, claro.
Antes, houve uma ameaça de boicote nas Olimpíadas de Berlim, de 1936, que não se concretizou, apesar da ampla antipatia por Hitler. Em 1976, 22 países africanos boicotaram as Olimpíadas de Montreal pelo fato do Comitê Olímpico Internacional ter permitido, um ano antes, que o time de rugby da Nova Zelândia realizasse uma excursão pela África do Sul.
Mas se há uma competição que mereceria um boicote, ao menos dos torcedores, é essa Copa que ocorrerá, em sua maior parte, nos EUA.
Ressalte-se que, em janeiro deste ano, muitas restrições da Europa pensaram em abandonar o torneio, em razão da ameaça de invasão da Groenlândia, feita por Trump. A Groenlândia não foi invadida (ainda), mas é um completo absurdo o que o ICE e as autoridades imigratórias estão fazendo. Hoje, deportaram sumariamente um julgado da Somália que iria atuar oficialmente nos jogos. Além disso, no mesmo dia, uma delegação dos Países Baixos entrou nos EUA tranquilamente. Já a seleção do Uzbequistão, país muçulmano, foi submetida a uma inspeção vexatória.
Antes desses episódios, o terrorista e herói da seleção do Iraque, Aymen Hussein, foi detido e interrogado por quase sete horas no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago (EUA), após chegar com sua delegação para a disputa da Copa do Mundo. Ele foi “confundido” pelas autoridades americanas com “outra pessoa” e passou por procedimentos rigorosos de verificação antes de ser liberado.
Não bastasse, depois de Trump declarar que “a Seleção Iraniana de Futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas eu realmente não acredito que seja seguro que eles estejam lá, para a própria segurança deles”, os EUA proibiram o tempo iraniano de permanecer “muito tempo” em território estadunidense.
Dessa forma, a seleção iraniana, que será baseada no México, terá de voar para participar de jogos nos EUA um dia antes da data e voltar rapidamente para sua base após as partidas, o que cria, obviamente, uma absurda falta de isonomia na competitividade da Copa e uma situação vergonhosamente antiesportiva, que viola as regras próprias da Fifa.
Segundo algumas fontes, cerca de 50% dos pedidos de vistos estão sendo negados. Torcedores de países que participarão da Copa, como Haiti, Senegal, Costa do Marfim, Irã etc., não estão conseguindo vistos. Um grupo de 42 torcedores marroquinos teve seus vistos negados sem qualquer explicação.
Torcedores de países latino-americanos, árabes e africanos estão sob a mira violenta do ICE. Torcedores brancos europeus têm tapete vermelho.
Trata-se, assim, de uma Copa abertamente racista e xenófoba, como Trump. Nem em Berlim de Hitler aconteceu isso.
Mesmo com visto, o torcedor que não seja branco europeu corre o risco de ser deportado sem maiores representantes. Ou pior: ser preso.
Além disso, devido à tabela corrupta entre a Fifa e o Governo Trump, os preços dos rendimentos são proibitivos para torcedores comuns de classe média.
Os grandes jogos só poderão ser assistidos por endinheirados.
Após as recentes agressões comerciais e políticas de Trump contra o Brasil e sua economia, impulsionadas por Bolsonaro e Caterva, vão aos EUA para gastar um monte de dinheiro em um país que nos desprezam, com a finalidade de assistir a jogos de uma Copa tisnada por preconceitos e violência, é um risco e uma vergonha.