Por Jorge Petinaud Martínez
Correspondente-chefe na Bolívia
Em meio à reforma do prédio da sede, o cineasta e promotor do melhor do cinema boliviano explicou a esta agência de notícias que o objetivo não é apenas preservar o passado, mas também viabilizar o futuro.
Márquez explicou que “é por isso que hoje esta casa está sendo transformada novamente, não para parecer nova, mas para continuar sendo necessária (…), porque a memória não pertence a quem a guarda, mas a quem a receberá”.
Ele observou que o prédio data de 2006 e já precisa de manutenção adequada, o que é uma prioridade para o Conselho de Administração, presidido pelo cineasta e escritor Alfonso Gumucio.
Márquez informou que, no contexto do 50º aniversário, foram asseguradas diversas formas de apoio para a realização de uma série de homenagens. “A data de fundação da Cinemateca é 12 de julho, mas esse dia foi afetado primeiro pelos 53 dias de greves e bloqueios e, depois, pela Copa do Mundo, com seu impacto paralisante em todo o planeta”, enfatizou.
50 EM 50
Márquez indicou que um evento importante é o programa que ele chamou de 50 em 50, que inclui uma sucessão de longas e curtas-metragens relacionados a cada ano da Cinemateca até que ela complete meio século.
“Começamos com a obra de 1976, Generais e Coronéis”, descreveu Márquez, “que é o ano de fundação da Cinemateca e que também coincide com o fato de o atual presidente do Conselho, Gumucio, ser seu diretor.”
Ele mencionou que, posteriormente, virão outras obras emblemáticas, elaboradas para cada ano, até atingir 50 filmes.
Ele destacou a homenagem ao ícone do cinema boliviano e latino-americano Jorge Sanjinés, que completou 90 anos em 31 de julho, como um evento significativo. “Depois virão homenagens a outras figuras essenciais como Antonio Eguino, Paolo Agazzi, Gory Patiño e outros das novas gerações; será um ano intenso e também teremos convidados internacionais”, anunciou.
Ele previu que o chamado Ciclo do Tesouro também acontecerá, o qual incluirá filmes únicos e restaurados, como Wara Wara, El Bolillo fatal, La Guerra del Chaco, El Centenario de Bolivia; todos são joias resgatadas, disse ele.
Ele informou que, em parceria com a Câmara do Livro, durante a 30ª edição da Feira Internacional no recinto de exposições de Chuquiago Marka, a Cinemateca terá um estande e apresentará uma ampla programação de exposições, entre as quais se destacam os livros do padre Luis Espinal, que promoveu o cinema na Bolívia e foi assassinado durante a ditadura por seu compromisso com os pobres.
Entre esses volumes constarão textos de Gumucio, Carlos Mesa, Pedro Susz e da própria Márquez, com contribuições sobre a importância dos 50 anos de existência da Cinemateca na preservação, conservação e divulgação de materiais cinematográficos bolivianos e internacionais.
Ele lembrou que a Fundação Cinemateca é uma instituição sem fins lucrativos da sociedade civil, que salvaguarda o patrimônio de um país sem esperar nada em troca.
No programa que abrangerá todo o ano, Márquez destacou a contribuição de personalidades como o próprio Gumucio, Claudia Cárdenas, Florencia Ballivián, Dante Chumacero, Laura Dérpiqui, Canela Ugalde, membros do conselho, bem como toda a equipe que os apoia na atividade executiva da Cinemateca.
“Neste aniversário, não podemos esquecer personalidades como Susz, Antonio Eguino, Carlos Mesa e outros que criaram e promoveram este projeto que hoje é a Cinemateca”, comentou o diretor executivo.
MEMÓRIA AUDIOVISUAL
A Fundação Cinemateca possui em seu acervo cerca de nove mil rolos de filmes preservados e, nos últimos 10 anos, a recepção de vídeos foi ampliada, incluindo cinejornais que datam da década de 1980 até 2005.
Ele também trabalha na preservação de cinejornais do Instituto Boliviano de Cinema (ICB), criado pelo Movimento Nacionalista Revolucionário após a Revolução de 1952.
Isso significou que desse projeto nasceu uma obra tão importante quanto a do grupo Ukamau, liderado por Jorge Sanjinés, além de outro projeto importante como as novas produções de Antonio Eguino, da década de 1980-1990, que somam cerca de 2.800 cassetes, já catalogadas.
Nesse contexto, a Cinemateca recebeu diversas doações e materiais sob custódia de diretores, cinegrafistas e cineastas que entregam suas memórias para serem preservadas, protegidas, salvaguardadas ou digitalizadas.
“Tudo isso envolve uma quantidade enorme de trabalho, porque somos poucos e não temos financiamento estatal, como muitas pessoas pensam”, comentou ele.
No que diz respeito ao cinema internacional, a instituição preserva entre 33.000 e 34.000 rolos de filmes com obras de relevância global.
“Acreditamos que a missão da Cinemateca ao longo destes 50 anos foi cumprida. Agora, olhamos para o futuro através do passado, e esse é o melhor legado que podemos deixar para as novas gerações. Mesmo quando nenhum de nós estiver aqui, esse legado continuará”, refletiu ele.
Márquez afirmou que, ao iniciar seus próximos 50 anos, um objetivo fundamental da instituição é digitalizar todo esse material com memórias ópticas, a fim de aumentar seu valor.
“Ao mesmo tempo, pretendemos continuar oferecendo novas alternativas às salas de cinema em todo o país com o projeto Cinemateca Rural, com presença permanente da Cinemateca”, concluiu seu diretor executivo.