27.5 C
Brasília
quarta-feira, 20 maio 2026

Bolívia: Povos Originários e Centrais Operárias paralisam o país contra pacote neoliberal de Rodrigo Paz

Foto: Reuters/Cladia Morales

Por: Wagner França

A Bolívia amanheceu novamente paralisada e em chamas. Pelo terceiro dia consecutivo, a greve geral decretada pela Central Obrera Boliviana (COB) transformou as principais cidades do altiplano em territórios de resistência popular. O epicentro da revolta está em El Alto e La Paz, mas os bloqueios de estradas já se espalharam por pelo menos seis dos nove departamentos do país. O estopim tem nome e sobrenome: a Lei 1.720, uma reforma agrária às avessas que ataca diretamente os povos indígenas, combinada com um violento pacote de ajuste econômico. O saldo até agora é de quatro mortos, mais de 90 detidos e um governo acuado que insiste em responder com repressão.

A crise que derruba a popularidade de Rodrigo Paz Pereira não começou ontem. Eleito sob promessas de moderação, o presidente governa desde o primeiro dia para as elites agroindustriais de Santa Cruz. A gota d’água foi a promulgação da chamada “Lei da Fome”, um eufemismo cínico para legalizar o desmembramento de terras comunitárias. A legislação permite que pequenas propriedades tituladas sejam convertidas em médias propriedades, abrindo caminho para que o agronegócio avance sobre territórios historicamente protegidos.

Para os povos originários, não se trata de uma simples canetada burocrática. Estão em jogo os Territórios Indígenas Originário Camponeses, que cobrem quase um quarto da extensão total da Bolívia. A lei fere de morte o princípio da indivisibilidade da terra, pilar da organização social andina. Não por acaso, a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia e os históricos Ponchos Rojos aimarás estão na linha de frente dos protestos, ombro a ombro com mineiros cooperativistas e federações de trabalhadores fabris.

A fúria nas ruas, porém, não se explica apenas pela questão fundiária. A população sente na carne e no bolso o “gasolinazo” que retirou de uma vez os subsídios aos combustíveis que vigoravam há quase duas décadas. Em meio a uma escassez crônica de dólares e à pior crise econômica em 40 anos, o governo optou por sangrar os mais pobres. O preço do gás de cozinha e do transporte disparou. O custo dos alimentos explodiu. Enquanto isso, Paz eliminou o imposto sobre grandes fortunas e sinalizou novas concessões ao capital estrangeiro.

A resposta do Palácio Quemado foi previsível: criminalizar a pobreza e o protesto. Policiais e militares ocupam as ruas de La Paz. As imagens que chegam do cerco a El Alto mostram nuvens de gás lacrimogêneo e barricadas em chamas. As perdas econômicas já ultrapassam 50 milhões de dólares por dia útil de paralisação, segundo cálculos da própria federação empresarial, que agora pressiona por uma saída negociada diante do colapso logístico.

O que está acontecendo na Bolívia neste 20 de maio não é uma crise de governo comum. É o levante de um Estado Plurinacional que se recusa a ser governado contra sua própria Constituição. As nações indígenas, os mineiros, as vendedoras dos mercados, os estudantes, os operários, todos convergem em uma mesma exigência: a revogação imediata da Lei 1.720, o restabelecimento dos subsídios e, de maneira cada vez mais audível nas assembleias populares, a renúncia de Rodrigo Paz.

A comunidade internacional assiste em silêncio enquanto o governo boliviano ataca a base da soberania popular. Mas nas ruas íngremes de La Paz e nas planícies bloqueadas do altiplano, a resposta já foi dada. O povo organizado não recuará. A história da Bolívia mostra que quando as nações originárias se levantam em unidade com a classe trabalhadora, não há força externa ou interna capaz de detê-las. O desfecho ainda é incerto, mas uma certeza já ecoa dos Andes: este governo já caiu.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS