27.5 C
Brasília
quarta-feira, 20 maio 2026

Associação Celac-UA, uma aliança de infinitas possibilidades

Bogotá (Prensa Latina) Apesar de compartilharem histórias e ambições, as relações comerciais, culturais e políticas entre a África e a América Latina e o Caribe estão longe de ser tão fortes quanto deveriam, de acordo com a vice-presidente colombiana, Francia Márquez.

Por: Ivette Fernández Sosa
Correspondente na Colômbia

Precisamente para encurtar essas distâncias injustificadas, e aproveitando a presidência pro tempore da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) exercida pela nação sul-americana entre 2025 e 2026, o vice-presidente promoveu uma reunião para estudar todas as potencialidades ainda insuficientemente exploradas.

O Fórum de Alto Nível entre o bloco regional e a África foi realizado de 18 a 21 de março no Centro de Convenções Ágora, em Bogotá, e marcou um ponto de virada nas relações entre as duas regiões.

O evento contou com a presença do presidente colombiano Gustavo Petro e dos presidentes do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva; do Uruguai, Yamandú Orsi; do Burundi, Évariste Ndayishimiye; e da Guiana, Mark Phillips, bem como do primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Godwin Friday, e de embaixadores, ministros de Relações Exteriores e autoridades dos 33 países membros da CELAC e de 15 estados africanos.

De acordo com Márquez, o organizador do evento, o objetivo era estabelecer uma nova era de construção de agendas comuns para enfrentar os principais desafios globais.

“Uma nova era em que as nossas regiões podem coordenar posições e fortalecer a sua voz nos espaços multilaterais”, declarou ele.

Ele pediu às delegações presentes que aproveitassem a reunião para fortalecer os laços comerciais e de investimento, incluindo os setores de financiamento público e privado; para estabelecer uma melhor coordenação institucional que facilite e estimule o intercâmbio birregional; e para conectar as regiões por meio de melhorias logísticas, com a criação de rotas que permitam a circulação de mercadorias.

“Este compromisso de política externa é o nosso legado para o fortalecimento da memória, da justiça e das reparações históricas. Com esta estratégia, procuramos transformar uma relação que tem sido fragmentada e intermitente durante décadas numa relação estruturada que possamos sustentar a longo prazo”, acrescentou.

POSSIBILIDADES INFINITAS

A União Africana é composta por 55 estados que, juntos, representam mais de 1,4 bilhão de pessoas.

Trata-se de um mercado amplo, com projeções que indicam expansão econômica sustentada, apesar dos grandes desafios políticos e sociais do continente, e cujo Produto Interno Bruto (PIB) representaria um montante superior a 3,4 trilhões de dólares.

Segundo dados do Banco Africano de Desenvolvimento, o crescimento do bloco deverá se aproximar ou ultrapassar quatro pontos percentuais a partir de 2025, com estimativas promissoras para uma dúzia de países, como Níger, Senegal, Líbia, Ruanda, Costa do Marfim, Etiópia, Benim, Djibuti, Tanzânia e Uganda.

Segundo cálculos do Banco Mundial, o crescimento seria impulsionado principalmente pelo aumento do consumo e do investimento privados.

Enquanto isso, com um mercado de 671 milhões de pessoas, a CELAC representa um PIB nominal combinado de mais de seis trilhões de dólares, impulsionado principalmente pelo Brasil e pelo México, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

A previsão é de que a economia cresça um pouco acima de dois por cento até 2026, de acordo com as projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

No entanto, as exportações da América Latina para a África representam apenas 0,3% do comércio mundial, e as vendas de território africano para os membros da CELAC são praticamente inexistentes, de acordo com dados da Organização Mundial do Comércio.

Analistas acreditam que o fortalecimento das relações comerciais entre os dois blocos ofereceria a possibilidade de reduzir a dependência de parceiros tradicionais e diversificar o comércio em períodos de alta volatilidade.

Da mesma forma, existem vastas áreas de complementaridade em setores como agricultura, mineração, turismo, intercâmbio acadêmico, construção, saúde e indústria.

Para além do potencial económico, não se pode ignorar o peso que uma aliança de 87 países ganharia nos espaços multilaterais de diálogo em defesa das prioridades do Sul Global, e a força que a reivindicação de compensação alcançaria após séculos de atraso causados ​​pelos vestígios do colonialismo e da escravatura.

PONTO DE PARTIDA

Não é preciso ser um acadêmico para entender que o fortalecimento dos laços pode ser muito benéfico para ambos os blocos, e o encontro realizado em Bogotá se tornou uma espécie de ponto de partida para explorar melhor essas possibilidades.

Segundo Mauricio Jaramillo, Subministro de Assuntos Multilaterais do Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, a reunião cumpriu seu objetivo de estabelecer um ponto de partida.

“O Fórum de Alto Nível entre a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e alguns Estados africanos atingiu plenamente seus objetivos. Em primeiro lugar, foi a primeira vez desde a criação da CELAC que uma reunião deste nível pôde ser realizada entre chefes de Estado e ministros das Relações Exteriores da América Latina e do Caribe e alguns dos líderes mais representativos do continente africano”, disse ele à Prensa Latina.

Em segundo lugar, explicou o diplomata, foi discutido um roteiro para a primeira cúpula entre a CELAC e a União Africana, a ser realizada em médio prazo, uma estratégia que propõe uma reaproximação sem precedentes entre dois blocos do Sul Global, da qual muito se espera, dada a tensa conjuntura internacional.

Ele também destacou a discussão em torno da cooperação e uma questão fundamental para ambas as regiões: as reparações. Observou como alguns países latino-americanos, incluindo a Colômbia, apoiaram e copatrocinaram a resolução inspirada pelo Gana, que condena o tráfico de escravos africanos como o pior crime contra a humanidade.

Jaramillo enfatizou que eles também discutiram a importância das rotas comerciais, uma via expressa para a mobilidade acadêmica, e a facilitação de conexões para alcançar níveis mais elevados de investimento e comércio.

A discussão centrou-se num novo conceito de cooperação Sul-Sul que prioriza a colaboração baseada no diálogo, na troca de experiências, conhecimentos e lições aprendidas, conforme afirmou o representante oficial.

“Este primeiro fórum de alto nível certamente não é o ponto final, mas o ponto de partida de uma relação de longo prazo entre a América Latina e o Caribe e a África, e muito provavelmente entre dois blocos do Sul Global que nunca deveriam ter sido isolados”, afirmou.

O CAMINHO PELA FRENTE

Durante seu discurso de posse como presidente pro tempore da CELAC, cerimônia que coincidiu com o encerramento do fórum, o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, afirmou que o fortalecimento das relações com a África será uma prioridade durante a gestão de seu país.

Ele insistiu que, durante seu governo, seriam feitos todos os esforços para uma agenda sólida e para a realização da primeira cúpula entre os dois blocos o mais breve possível, a qual descreveu como a reinterpretação de uma reunião histórica em benefício de ambos os povos, após um encontro com o presidente da União Africana, Evaristo Ndayashimiye.

Esse desejo ficou claro na Declaração emitida após a conclusão do evento realizado em Bogotá.

“Os copresidentes concordam que o Fórum oferece uma importante contribuição para o fortalecimento da Primeira Cúpula CELAC-União Africana, como um passo destinado a fortalecer o diálogo birregional e promover iniciativas de cooperação de interesse mútuo entre as duas regiões”, afirma o documento divulgado.

Reiteraram também a sua convicção de que o reforço do diálogo contribuirá para a expansão dos espaços de acordo político, a promoção de iniciativas de cooperação birregional e a geração de oportunidades para o desenvolvimento sustentável e o bem-estar dos povos de ambas as regiões.

Ao final da reunião em Bogotá, uma certeza ficou clara: existe potencial para colaboração e uma melhor coordenação entre as duas regiões seria benéfica.

A Colômbia abriu caminho, e se esse caminho não for abandonado, ele promete render resultados excelentes.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS