Foto: Acervo UH/Folhapress
Por: Wagner França
Não se trata de susto. Não se trata de alarmismo. Trata-se de observar o que se passa diante dos nossos olhos, nas ruas de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Belém, e reconhecer o cheiro conhecido.
A extrema-direita brasileira já não se contenta com as vaias, com os xingamentos nas redes, com os projetos de lei para enrijecer a repressão popular. Agora seus representantes eleitos como vereadores, assessores, figuras com mandato e gabinete, deslocam-se pelas cidades acompanhados de seguranças particulares, homens fortes, ex-policiais ou seguranças de eventos, com a missão explícita de intimidar e agredir. O alvo? Estudantes em assembleia. Professores em greve. Sindicalistas em passeata. Manifestantes em ato público. O método é velho. Tão velho quanto o fascismo.
No início do século passado, Benito Mussolini organizou os Camisas Negras, milícias paramilitares que invadiam sedes de sindicatos, espancavam camponeses e socialistas, e incendiavam jornais operários. Não eram soldados do Estado, mas capangas do partido. Atuavam com a conivência das forças oficiais, quando não com seu apoio explícito. Sua função era política: desmoralizar a luta popular pela via da violência direta, criar um clima de medo e, assim, pavimentar o caminho para a ditadura.
Adolf Hitler fez o mesmo com as SA – os Camisas Pardas. Comunistas e judeus eram atacados em comícios, espancados em bares, arrastados para as ruas. A violência não era acidente de percurso. Era estratégia. A lógica: desorganizar a esquerda na base, quebrar sua capacidade de mobilização, mostrar que “apenas um regime forte” poderia conter o caos.
Agora vamos observar o que acontece no Brasil de 2025 e 2026. Em março de 2026, o vereador Lucas Pavanato (PL-SP) compareceu à Universidade de São Paulo com sua equipe de seguranças particulares. O pretexto era um debate. O resultado foi spray de pimenta, socos e chutes em estudantes que protestavam. Dois alunos feridos. Um dos seguranças, registre-se, já havia sido denunciado por sacar arma de fogo contra estudantes em episódio anterior.
Menos de dois meses depois, em maio de 2026, cinco mil estudantes da USP, Unesp e Unicamp ocuparam a Praça da República, em São Paulo. Dois vereadores da mesma costura política, Rubinho Nunes e Adrilles Jorge (União Brasil) adentraram a manifestação de forma provocativa. O confronto que eles mesmos geraram serviu de pretexto para a Polícia Militar reprimir todo o ato com gás lacrimogêneo. Estratégia antiga: provocar o incidente e depois invocar a “necessidade de ordem”.
O caso mais explícito de violência física direta talvez tenha ocorrido em 2025, em Belém. O vereador Zezinho Lima (PL-PA) viu seu filho e três seguranças particulares, um deles encapuzado, agredirem manifestantes pró-Palestina dentro da Câmara Municipal. Mulheres e vereadoras do PSOL foram empurradas. Nada aconteceu com os agressores.
No mesmo ano, em Natal, Matheus Faustino (União Brasil), ligado ao MBL, tentou intimidar manifestantes que protestavam contra uma homenagem a Jair Bolsonaro. Partiu para cima com ameaças, empurrões. E em maio de 2026, o mesmo Rubinho Nunes foi filmado cuspindo no rosto de um homem negro na Avenida Paulista. Cuspiu. Como se fosse um gesto menor. Como se a humanidade do outro não existisse.
Esses não são casos isolados. A Polícia Federal investiga um grupo chamado “A Turma” uma rede de intimidação e vigilância ligada ao bolsonarismo, composta por policiais federais da ativa que ameaçavam e monitoravam opositores. É o retorno do Comando de Caça aos Comunistas, da ditadura, agora requentado e travestido de “segurança privada”.
Diante disso, o erro mais grave que a esquerda revolucionária pode cometer é o mesmo que já cometeu no passado: esperar que a solução venha das instituições.
Não virá. A polícia, quando não é conivente, é reativa e burocrática. A Justiça, quando funciona, é lenta. A imprensa hegemônica, quando registra o fato, o faz sob a ótica da “violência de ambos os lados”. O inimigo, ao contrário, age rápido, age em grupo, age com capangas pagos e com a certeza da impunidade.
A resposta, portanto, não pode ser a passividade. Também não pode ser o voluntarismo desorganizado. A resposta precisa ser a autodefesa coletiva, disciplinada, técnica, clandestina quando necessário, sempre solidária.
Carlos Marighella, o guerrilheiro baiano assassinado em 1969 pela ditadura, escreveu à mão, em condições precárias, o Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano. O livro é frequentemente mal lido. Alguns o tomam como uma apologia do terrorismo. Não é.
O que Marighella ensina, e que interessa a nós neste momento, é uma lição simples e radical: a luta contra um inimigo mais forte exige organização, preparação técnica e ação coletiva. Ele defendia o ataque e a retirada, a surpresa, o conhecimento do território. Mas, acima de tudo, defendia que todo revolucionário tem a obrigação de fazer a revolução, por menor que seja sua contribuição.
Traduzindo para o nosso tempo: não se trata de pegar em armas. Trata-se de compreender que a defesa física dos companheiros e companheiras não é tarefa para heróis solitários, mas para núcleos organizados. É tarefa para comitês de autodefesa que se reúnem, que treinam, que planejam.
Primeiro: preparo físico e técnico. Treinamentos regulares em defesa pessoal, não para buscar briga, mas para neutralizar um agressor e permitir a fuga de um companheiro em risco. Treinamentos em contenção de grupo, em primeiros socorros, em uso de equipamentos básicos de proteção (máscaras contra gás lacrimogêneo, spray de pimenta para defesa, vestimentas apropriadas).
Segundo: atuação em bloco e vigilância compartilhada. Ninguém se desloca sozinho em um ato hostil. Estabelecem-se rotas, pontos de encontro, sistemas de comunicação de emergência (apitos, rádios, grupos criptografados). Divide-se o trabalho: uns observam, outros registram, outros dão apoio jurídico imediato.
Terceiro: apoio jurídico e de imprensa. Cada núcleo precisa estar articulado a advogados populares e a veículos de comunicação alternativa. A violência do inimigo deve ser documentada, filmada, denunciada. Não para apelar às instituições, mas para construir memória e contrapor a narrativa oficial.
Quarto: logística de ato. Calça jeans, tênis, casaco. Nada de sandálias ou roupas que dificultem a corrida. Máscaras, óculos de proteção, garrafas de água com vinagre para amenizar o efeito do gás. Pequenos itens que fazem a diferença entre voltar para casa e acabar no hospital – ou no xilindró.
O inimigo já largou o jogo democrático, se é que algum dia jogou. Ele opera com a violência particular e com a intimidação como ferramentas políticas. Os vereadores que descem de seus carros blindados cercados por capangas não estão ali para dialogar. Estão para coagir. Estão para quebrar a disposição de luta do movimento popular.
A esquerda que se recusar a organizar sua defesa física estará, na prática, entregando o campo de batalha. Não por covardia, pois há muita coragem entre os nossos, mas por inércia, por acreditar que “a violência não é o nosso caminho”.
O caminho não é a violência como fim. Mas a autodefesa é um direito. É uma necessidade. É uma obrigação política.
Marighella dizia que a técnica da guerrilha deve ser difundida e conhecida por todos. Nós dizemos: a técnica da autodefesa popular, dos comitês de resistência física, do treinamento coletivo, isso precisa deixar de ser privilégio de poucos grupos preparados e se tornar conhecimento comum da esquerda revolucionária.
Porque os Camisas Negras de 2026 já estão nas ruas. E não vão recuar por conta própria. Organizemo-nos. Treinemo-nos. Resistamos. Não há revolução sem organização. Não há organização sem defesa.



