“Subjugar o inimigo sem lutar é o ápice da habilidade.” Sun Tzu, em A Arte da Guerra
Tomo a visita de 10 dias que fiz a Xangai como ponto de partida para este artigo. Acabei de chegar e ainda luto com o fuso horário (a viagem de volta foi de 39 horas porta a porta). Assim, o artigo será talvez ainda mais incoerente do que de costume. Mas, enfim, vamos lá.
A China está em pleno processo de redefinição das suas relações com o resto do mundo, com o Ocidente em particular. Nas primeiras três ou quatro décadas do período de reforma e abertura econômica iniciada por Deng Xiaoping em 1979, a China buscou uma “ascensão importadora” no interior do quadro internacional estabelecido sob a égide dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. E foi inicialmente muito bem sucedido nesse propósito. Evitava confrontos sistemáticos com os Estados Unidos e outras nações, posicionando-se com prudência e paciência estratégica. Deng adotou como lema uma máxima chinesa clássica – “esconda a força, espere a hora”.
Como representante do Brasil nas reuniões dos BRICS, na fase de formação do grupo de 2008 em diante, posso dar o meu testemunho de que os delegados chineses, sem exceção, obedecendo a um comando superior, evitavam a todo custo qualquer linguagem ou que fosse uma iniciativa mais agressiva em relação ao Ocidente ou que pudesse ser interpretada como tal. A China se posicionava como uma potência reformista – cautelosamente reformista, tanto na retórica quanto nas propostas. Às vezes, passamos-nos a impressão de que dava precedência a um entendimento estratégico com os Estados Unidos – à formação de um G-2, como se dizia na época – mesmo que isso sacrificasse a articulação entre os BRICS.
O G-2 nunca viria a se constituir. Os Estados Unidos preferiram partir para uma política de contenção e confronto, começando no primeiro mandato de Donald Trump, de 2017 a 2020, continuando com Joe Biden, de 2021 a 2024, e se intensificando de forma dramática no segundo mandato de Trump desde o ano passado. Formou-se um consenso bipartidário sólido de que a China precisa ser livre. Os Estados Unidos passaram a ver o país como rival e principal ameaça, adotando de caso pensado uma série de medidas desenhadas para solapar a China nas áreas comercial, tecnológica, militar e diplomática,
Desde o primeiro governo Trump pelo menos, e provavelmente antes disso, a China descobriu que uma estratégia de “esconder a força e esperar a hora” não era mais viável. A China se tornará grande demais, chegando a ultrapassar os Estados Unidos em termos econômicos (quando se comparam os PIBs calculados por paridade de poder de compra) e comerciais (a China virou o principal parceiro comercial para a maioria dos países do mundo). O rápido desenvolvimento despertou invejas e suspeitas. O país passou a ser alvo de intrigas, manobras diplomáticas e agressões.
Mas a China não abandonou sua cautela estratégica. Continue evitando conflitos sempre que possível. Prevaleça o cuidado com as palavras e ações, mesmo quando o país está sob ataque ou enfrenta hostilidade sistemática. Em meio às turbulências, os chineses mantêm o estilo tradicional de lidar com desafios estratégicos que Henry Kissinger, em seu célebre livro Sobre a China, descreve como uma combinação de análise minuciosa, preparação detalhada e atenção a fatores psicológicos e políticos.
Uma parte da preparação chinesa, que se revelaria decisiva em 2026, foi a formação de reservas estratégicas de petróleo. Graças a isso, a China sofre relativamente pouco com o choque de preços do petróleo desencadeado pela guerra do Irã. Continuaram imensas também as reservas monetárias do país, hoje menos expostas a confiscos e avaliações. Boa parte dessas reservas internacionais está oculta, tendo sido limitada pelo Banco Central para bancos comerciais e outros bancos públicos. Esses bancos públicos também compram moeda estrangeira no mercado cambial, em cooperação com o Banco Central, para evitar apreciação indesejada da moeda nacional. Além disso, a China iniciou a construção de sistemas de pagamentos transfronteiriços como alternativa aos sistemas controlados pelo Ocidente, que têm sido usados para punir e sancionar países considerados hostis. Cresceu também o uso do renminbi em transações internacionais da China. Quase 100% do comércio Rússia/China, por exemplo, faz atualmente em taxas e renminbi.
Assim, como logo ficou evidente, a China estava bem posicionada para enfrentar a tempestade desencadeada pelo governo Trump no seu segundo mandato. Trump veio com tudo, usando de maneira mais radical os instrumentos já usados contra a China no seu primeiro mandato. Encontrou, no entanto, um adversário mais disposto a brigar e mais capaz de enfrentar debates internacionais. Sob Xi Jinping, a China aparece como um adversário que sabe se defender com grande eficácia e, mais do que isso, conhece as vulnerabilidades da superpotência e dos aliados seus e satélites. Não só conheço, como estou disposto a explorar toda vez que sofrer alguma investida dos Estados Unidos ou de outros países.
A ninguém escapa que a China vem levando a melhor nesse confronto com os Estados Unidos. E isso não apenas pelas suas qualidades e pontos fortes, mas também por causa dos erros do adversário. Os EUA, superestimando a própria força, abriram ao mesmo tempo frentes de conflito com a Rússia, a China e o Irã. Promoveram assim o estreitamento da aliança entre os três países. E pior: estão perdendo nas três frentes. A guerra contra o Irã, em especial, parece ser um marco. Em retrospecto, como muitos têm notado, poderá ser visto como o prenúncio do fim do Império Americano.
A China não só segue estratégias consistentes, como também sabe manobrar taticamente. Joga parada, quando conveniente, aproveitando os erros dos adversários. Os chineses seguem a máxima atribuída a Napoleão Bonaparte: “Nunca interrompa um adversário quando ele estiver cometendo um erro.” Não existe, ao que parece, evidência confiável de que Napoleão realmente disse ou escreveu isso, mas esta máxima ocidental apócrifa é consistente com o pensamento militar clássico chinês, tal como expresso notadamente por Sun Tzu em A Arte da Guerra, inclusive por exemplo na frase que aparece na epígrafe.
A China muda, evolui, se adapta aos desafios que vão aparecendo, mas preserva ao mesmo tempo suas tradições filosóficas e sua cultura milenar. Não descarte Confúcio, nem Mao Tsé-Tung. Não se apega irrefletidamente ao passado, mas também não abandona suas raízes.
A sua ascensão, não mais importação, mas crescentemente conflituosa, deve continuar sem interrupção.
* Versão ampliada do artigo foi publicada na revista Carta Capital.
* Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo do FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicado pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.
Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies.
This website uses cookies to improve your experience while you navigate through the website. Out of these, the cookies that are categorized as necessary are stored on your browser as they are essential for the working of basic functionalities of the website. We also use third-party cookies that help us analyze and understand how you use this website. These cookies will be stored in your browser only with your consent. You also have the option to opt-out of these cookies. But opting out of some of these cookies may affect your browsing experience.
Necessary cookies are absolutely essential for the website to function properly. These cookies ensure basic functionalities and security features of the website, anonymously.
Cookie
Duração
Descrição
cookielawinfo-checkbox-analytics
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Analytics".
cookielawinfo-checkbox-functional
11 months
The cookie is set by GDPR cookie consent to record the user consent for the cookies in the category "Functional".
cookielawinfo-checkbox-necessary
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookies is used to store the user consent for the cookies in the category "Necessary".
cookielawinfo-checkbox-others
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Other.
cookielawinfo-checkbox-performance
11 months
This cookie is set by GDPR Cookie Consent plugin. The cookie is used to store the user consent for the cookies in the category "Performance".
viewed_cookie_policy
11 months
The cookie is set by the GDPR Cookie Consent plugin and is used to store whether or not user has consented to the use of cookies. It does not store any personal data.
Functional cookies help to perform certain functionalities like sharing the content of the website on social media platforms, collect feedbacks, and other third-party features.
Performance cookies are used to understand and analyze the key performance indexes of the website which helps in delivering a better user experience for the visitors.
Analytical cookies are used to understand how visitors interact with the website. These cookies help provide information on metrics the number of visitors, bounce rate, traffic source, etc.
Advertisement cookies are used to provide visitors with relevant ads and marketing campaigns. These cookies track visitors across websites and collect information to provide customized ads.