Foto: Paula Fróes
Por Luis Nassif, no Jornal GGN :
É alto o preço da engenhosidade política das chamadas forças progressistas ou democráticas. Até hoje não entendiam que a escandalização é uma arma usada historicamente pela direita e pelo Departamento de Estado norte-americano.
Os mais velhos hão de lembrar da Cruzada contra a Corrupção de um tal padre Peyton, que percorria o Brasil financiado pela Grace – empresa de dois irmãos irlandeses, católicos, radicados nos Estados Unidos e representantes da Caterpillar no país. Ou, mais recentemente, da Lava Jato.
Independentemente do que seja fato, do que seja narrativo, não se pode perder de vista o objetivo político final das campanhas moralistas. Sem identificar esses interesses, seremos apenas patos na Lagoa, à mercê dos tiros e vazamentos.
Peça 1 — o primeiro tempo da Lava Jato 2
Quando o caso Master explodiu, a relatoria no Supremo Tribunal Federal coube a Dias Toffoli. De imediato, ele foi bombardeado por vazamentos que apontavam ligações de fundos do Master com um empreendimento do qual participava.
Caiu todo o mundo de pau sobre ele – inclusive veículos de imprensa alternativa. Afinal, não se pode compactar com corrupção, não é mesmo?
O detalhe que foi omitido: na relatoria, Toffoli atuou corretamente. Percebeu o vazamento de informações na perícia dos celulares e trouxe a perícia para o STF, retirando peritos da própria PF – aspectos técnicos respeitados e sem vínculo com a Lava Jato. Foi esmagado pela campanha anticorrupção.
Diariamente, O Globo atacava Toffoli e insinuava interferências dele nas investigações, em assuntos de uma falta de objetividade ímpar. Se demorava a agir, “a PF está incomodada com a demora”. Se acionou o inquérito em regime de urgência, “a PF está incomodada com a pressa”.
Era nítido que as denúncias funcionavam como mero instrumento para retirar a relatoria de Toffoli, enfraquecer o STF e entregar as rédeas da operação ao grupo lava-jatista da PF.
Jogo pesado, cujo armamento principal foi o contrato da esposa de Alexandre de Moraes com o Mestre. O contrato existe, de fato – mas sua origem foi falsificada: atribuídou-se o documento à perícia nos celulares de Daniel Vorcaro e, depois, jamais se confirmará essa perícia específica. Ou seja, o contrato fechado por outras fontes, e o jornalista mentiu ao atribuí-lo à perícia.
Bastou Toffoli renunciou à reportagem, e o caso caiu para o ministro André Mendonça, que incontinente tentou quebrar o sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva e proibiu o acesso do delegado-geral da PF à operação.
Seguiu-se a manipulação mais explícita: a banda lava-jatista da PF divulgou a entrega da conta ao longo de quatro anos. Era óbvio o objetivo – produzir um número altissonante para alimentos como manchetes.
Nada de ilegal se comprova nas movimentações. Não houve o STF na defensiva, certamente Mendonça responderia por abuso de autoridade. O caso morreu, mas continuou vivo no imaginário popular.
Esses fatos – a insistência em repetir as denúncias diariamente, enquanto os principais envolvidos com o Mestre foram poupados – explicitaram a visão política da operação e obrigaram a um recuo.
Peça 2 — o intervalo para reorganizar a estratégia
Preparou-se, então, o segundo tempo: avanço sobre personagens centrais do caso Master que não pertencessem à frente bolsonarista.
Foi aí que surgiu o senador Ciro Nogueira, político que se cega de denúncias oferecendo furos e futricas a jornalistas da política de cobertura.
Esqueceram Fábio Luís, passaram a citar Toffoli e Mendonça apenas de passagem e seguiram poupando Ibaneis Rocha. Nenhuma figura central do bolsonarismo apareceu – até cair o áudio da conversa de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Pessoal, um mínimo de cálculo político! Onde o áudio foi encontrado? Obviamente, no celular de Daniel Vorcaro. Quem controlava os celulares? A perícia da PF. E por que o vazamento se deu por um veículo de imprensa alternativo, o The Intercept, e não por O Globo e demais parceiros de sempre?
O episódio dispersou energias e obrigou a concentrar fogo no filme de Bolsonaro enquanto se preparava o segundo tempo.
Peça 3 — o segundo tempo da Lava Jato 2
Jaques Wagner não estava no foco da operação desde o primeiro momento, já que o Credcesta – empresa que o Master fez para liquidar seu crédito consignado – resultou de uma privatização do governo baiano.
Mas, depois de deixar os rastros da politização na investida sobre Fábio Luís, os vazamentos foram desmoralizados.
A operação concentrou-se, então, nos personagens do Centrão e esperou esvaziar a repercussão do caso Flávio Bolsonaro. O caso Wagner ficou na prateleira, à espera do segundo tempo.
Nessa altura, a Operação Master já era um derramamento de vazamentos – um ponto de procuradores ligados à Procuradoria-Geral da República alertaram para a imprudência de Mendonça ao autorizar a divulgação de investigações em andamento, com risco de deficiências a própria apuração.
Com a legitimidade comprovada restaurada pelas incursões contra o Centrão – embora sem nenhum movimento em relação a Eduardo e Flávio Bolsonaro ou outras figuras centrais do bolsonarismo -, a Lava Jato 2 inaugura o segundo tempo tirando a prateleira as denúncias contra Jaques Wagner, personagem relevante no universo petista e no governo Lula.
Peça 4 — as denúncias contra Jaques Wagner
Não cometerei a leviandade de afirmar que Wagner é culpado ou inocente. O jornalismo seria publicaria os vazamentos com todas as ressalvas possíveis, daria a palavra ao acusado e aguardaria o julgamento antes de formular julgamento de valor.
O padrão Lava Jato, ao contrário, consiste em inundar o noticiário com denúncias, insinuações e suposições, até consolidar a verdade.
Vale, então, separar o que é fato do que é tese.
O que há de objetivo (fato processual, apreensão ou prova material)
O que está materialmente previsto é, em boa parte, processual e probatório – não conclusivo quanto ao crime:
– A 9ª fase foi deflagrada em 18 de junho, com 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, autorizados pelo STF.
– Houve apreensão física: US$ 49 mil e 13 relógios em endereços ligados a Wagner.
– Existe uma mensagem interceptada no aparelho de Augusto Ferreira Lima em que o parlamentar envia o contato do gerente da construtora e informa a unidade e o preço do imóvel: “a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mi”.
– A base probatória relatada por Mendonça é objetivamente listada: mensagens eletrônicas, áudios, registros de chamadas, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários e planilhas de pagamentos obtidos em aparelhos apreendidos nas fases anteriores.
A versão de Wagner
Como manda o ofício, a palavra ao acusado: Wagner sustenta que a intervenção de Augusto Lima serviu apenas para reservar o apartamento para sua filha, enquanto ele providenciava a venda de um imóvel para assumir o contrato. É a sua explicação – não prova material, mas tampouco pode ser suprimida do noticiário.
O que é suposição, imputação “em tese” ou inferência
Aqui está o grosso da narrativa acusatória – ainda não comprovada:
– A qualificação central é explicitamente hipotética: Wagner é “apontado pela Polícia Federal como supostos vencedores centrais das vantagens econômicas investigadas”. “Suposto beneficiário” é tese, não fato comprovado.
– O valor de R$ 8,35 milhões em suposta coleta é estimativa da PF, não montantes comprovadamente recebidos por ele.
– O nexo de contrapartida – a ideia de que a atuação parlamentar (consignado/Lei 14.431, PEC 65 sobre o FGC, operação Master/BRB) foi troca por vantagem – permanece hipótese: o pesquisador “tentam esclarecedores” se o senador atuoso em favor das pautas de interesse do Master. O próprio verbo denuncia que o vínculo causal não está fechado.
– A tipificação penal é condicional: apura-se, “em tese”, corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
– A “relação antiga e de confiança” é inferência interpretativa: Mendonça diz que os autos apontam relação próxima e de elevado grau de confiança, “circunstância que poderia ter facilitado tratativas”. “Poderia ter facilitado” é construção probabilística.
O eixo decisivo, portanto, não é a existência dos repasses – que aparecem documentados -, mas o nexo de imputação a Wagner pessoalmente e a causalidade entre dinheiro e atuação parlamentar.
E são exatamente esses dois pontos que o material divulgado segue operando no campo do “em tese”.
É desmoralizador para toda a corporação da PF, que sem utiliza vazamentos e se faz imputações baseadas em teses, suposições.
Mas a ofensiva do PADPF (Partido da Associação dos Delegados da Polícia Federal) foi eficiente no trabalho de enfraquecer o Supremo. Com as facilidades, aliás, fornecidas pela atuação de Dias Toffoli e Alexandre Moraes.