– Tantas pessoas perderam alguém ou algo. Mas o impacto das perdas materiais e humanas não será sentido igualmente por todos. A burguesia terá sempre mais facilidade em aceder ao atendimento médico de emergência particular, reunir famílias, pagar assistência psicológica, reconstruir casas, repor bens danificados e – sim – arcar com custos funerários exorbitantes, inacessíveis para a maioria dos trabalhadores venezuelanos.
A terra não tremeu apenas. Ela agitou-se. Ela revoltou-se. Ela rugiu.
Ainda não está claro quantas pessoas morreram, ficaram feridas ou perderam os seus bens materiais. 1 000, 2 000, 5 000, 10 000…
A partir de certo ponto, os números exatos desaparecem no horizonte, tornando-se indistintos e perdendo toda a forma depois de serem consumidos por uma densa névoa de luto e tristeza nacional.
A nossa profunda necessidade de agir, de fazer algo, impulsiona-nos a ultrapassar as barreiras da dor coletiva e a afugentar a tristeza dilacerante que atualmente paralisa todos os venezuelanos.
Eu estava em casa quando senti o terramoto – estava a descansar poucas horas depois de enviar a minha última coluna para o MLT, aliás – mas tive a sorte de não me tornar apenas mais uma estatística. No entanto, como a maioria das pessoas aqui, tenho amigos, familiares e camaradas na área afetada que ainda não informaram se estão vivos ou… não.
A perda humana é irreparável e, assim como outros desastres venezuelanos, como a tragédia de Vargas em 1999 ou o terramoto de 1967 , ficará marcada na história pela sua magnitude. Mas também será lembrada pelas histórias individuais de heroísmo e bravura dos homens e mulheres catapultados em milésimos de segundo, de uma fila de supermercado ou de um encontro com amigos para cenários apocalípticos de pura sobrevivência. A mãe que morreu a salvar o seu recém-nascido. O cão que acompanhou o seu dono sob os escombros durante três dias. E há inúmeros outros exemplos.
A classe trabalhadora venezuelana é resiliente, corajosa e possui corações enormes repletos de solidariedade. Sobrevivemos a muitos traumas: cheias, apagões, repressão, golpes de Estado, explosões, deslizamentos de terras, salários de um dólar por mês, campanhas de bombardeamento dos EUA e, agora, um terramoto devastador. Enfrentámos todos esses traumas, em parte, estendendo a mão aos nossos vizinhos, aos necessitados, e deixando de lado as diferenças para seguir em frente com a humanidade, e não com as divisões raciais ou de classe, em primeiro plano – sempre com o nosso humor característico e sorrisos largos, apesar da gravidade do momento.
Também sabemos organizar-nos. Embora as comunas e os conselhos comunitários praticamente já não existam, surgiram brigadas e comités, as doações chegam aonde precisam de chegar, as comunidades unem-se para superar as dificuldades que a vida nos impõe. Essa disciplina caótica aprendêmo-la com Hugo Chávez.
Mas este foi o nosso primeiro desastre natural na era das redes sociais, em que imagens chocantes viajam milhares de quilómetros em segundos, transportando até o observador mais distante para o epicentro do esforço de resgate, intensificando a nossa resposta emocional.
Esta é também a primeira tragédia em massa desde que 25% da população emigrou. De longe, a impossibilidade de ajudar ou localizar entes queridos só intensifica a frustração e a angústia. Os meus sentimentos estão com aqueles que sofrem a milhares de quilómetros de distância, isolados e procurando nas redes sociais a foto de um familiar.
Tantas pessoas perderam alguém ou algo. Mas o impacto das perdas materiais e humanas não será sentido igualmente por todos. A burguesia terá sempre mais facilidade em aceder ao atendimento médico de emergência particular, reunir famílias, pagar assistência psicológica, reconstruir casas, repor bens danificados e – sim – arcar com custos funerários exorbitantes, inacessíveis para a maioria dos trabalhadores venezuelanos. Quanto ao resto, teremos de nos contentar com os “ bónus ” de US$ 150 já anunciados por Delcy, que claramente não se comparam com o valor das perdas materiais.
Ainda é muito cedo para pensar em reconstruir os danos materiais monumentais ou questionar quem arcará com os custos, pois ainda há pessoas presas sob os escombros. Certamente, é muito cedo para avaliar a resposta do governo e da comunidade internacional. O que é certo é que nenhum governo, nenhum país, nenhum povo jamais estaria totalmente preparado para um desastre desta magnitude. Contudo, questões importantes serão – e devem ser – levantadas no devido tempo.
Apesar dos esforços nobres, o Estado venezuelano está em dificuldades – quem não estaria? Mas anos de subinvestimento no nosso sistema de saúde, emigração em massa e fuga de cérebros, particularmente do setor médico, colapso dos sistemas de eletricidade, água e telecomunicações, corrupção, sim, corrupção, e, claro, sanções, certamente não ajudam a nossa capacidade de resposta.
Já tivemos uma amostra de como este governo de protetorado pretende lidar com a tragédia: ajuda liderada pela NATO, fundos do FMI , o Comando Sul na coordenação (“Obrigado, Donald Trump”, disse Delcy), o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em campo, o Starlink (“Obrigado, Elon Musk”, disse Delcy) e o X a ser reintroduzido no país, o nosso “protetor” a “proteger-nos”. Entretanto, aqueles que antes eram nossos “aliados” no tempo de Chávez contentam-se em enviar mensagens inúteis de boa vontade, enquanto Trump alça a perna e marca território como o cão que é.
Com o tempo, também será preciso questionar as construções da Venezuela: os regulamentos de construção ineficazes que existem nalgum arquivo cheio de mofo nalgum escritório governamental escuro e empoeirado; os arranha-céus erguidos rapidamente na década de 1960, no auge do boom do petróleo; as barracas de lata improvisadas nas favelas, todas sem condições, manutenção ou preparação para um desastre desta magnitude.
Como é que a nossa economia, já fragilizada, recuperará disto? O estado de La Guaira abriga os principais aeroportos e portos marítimos da Venezuela, além de possuir uma enorme indústria turística. Por outro lado, a paralisação dos processos produtivos nos principais setores industriais dos estados de Caracas, Aragua e Carabobo, enquanto os trabalhadores, e bem, atuam em cozinhas comunitárias, na remoção de entulhos ou na assistência aos feridos, custará milhões por hora.
São essas as coisas que o capitalismo valoriza, não a perda de vidas humanas (força de trabalho) que são ‘facilmente’ substituídas pelo Exército de Reserva. Seríamos ingénuos se pensássemos que a ajuda de ‘boa vontade’ de Washington é movida por algo além da exploração macabra de uma oportunidade manchada de sangue na Venezuela atual. Vislumbra uma brecha. Vê penetração no mercado, investimento, reconstrução, afastamento dos concorrentes, exploração e, em última análise, uma enorme mais-valia.
À medida que começamos a superar este desastre, as medidas de emergência temporárias, necessárias e vitais, transformam-se em ocupação a longo prazo. As relações evoluem. As posições de mercado fortalecem-se. As dívidas acumulam-se.
Se não acreditam em mim, basta perguntar ao povo de Gaza ou do Haiti.
Eu poderia escrever 10 000 palavras sobre o terramoto e a política do período imediatamente posterior, sobre o olhar de Delcy para o norte ou sobre a declaração de Trump dizendo querer proteger as pessoas no “ nosso hemisfério“.
Por ora, os nossos pensamentos devem estar com as vítimas, as suas famílias, amigos e camaradas. Hoje, devemos manter a humanidade em primeiro lugar nas nossas mentes. Força Venezuela.
[1] Na cultura andina, Pachamama é a divindade máxima que representa a Mãe Terra. A “vingança de Pachamama” refere-se à reação destrutiva da natureza — como secas, terramotos, cheias e poluição — em resposta à exploração, destruição e falta de respeito dos seres humanos pela Terra.
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