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domingo, 5 julho 2026

Quarenta anos após o caso das crianças queimadas vivas, a perspectiva de uma mãe chilena

Santiago, Chile (Prensa Latina) Com um evento na Estação Central, os chilenos lembrarão neste dia 2 de julho o 40º aniversário do Caso Quemados, crime cometido por uma patrulha policial que espancou, jogou combustível e ateou fogo em dois jovens durante um protesto contra a ditadura.

Por Carmen Esquivel

Correspondente-chefe no Chile

Rodrigo Rojas, que trabalhava como fotógrafo para uma agência internacional, morreu quatro dias depois no hospital de emergência Posta Central; enquanto Carmen Gloria Quintana sobreviveu apesar de ter sofrido queimaduras de segundo e terceiro graus em 62% do corpo.

Quatro décadas após esses eventos dolorosos, a mãe de Rodrigo, Verónica de Negri, conversou com a Prensa Latina sobre os últimos momentos da vida de seu filho, sua infância e juventude, e o longo processo em busca de justiça.

“Levaram-no para o sexto andar do hospital e, quando o vi, quase morri de susto. Ele estava nu, coberto de seringas, transfusões de sangue, soro intravenoso, e aquilo foi muito doloroso para mim. Foi aí que percebi a gravidade das queimaduras que ele havia sofrido”, descreve ela.

Verónica conta que seu filho não conseguia ouvir do ouvido esquerdo, então ele precisava se movimentar bastante e ela conversava constantemente com ele para transmitir todas as mensagens das pessoas que o amavam, pois ele era muito ativo em assuntos culturais e de fotografia.

Ela contatou o Dr. John Constable, especialista em queimaduras do Hospital Geral de Massachusetts, renomado por tratar vítimas de napalm no Vietnã, mas não havia mais tempo.

DA INFÂNCIA À JUVENTUDE

No verão de 1976, quando tinha nove anos, Rodrigo foi visitar a avó, os tios, as tias e os primos no Canadá. Quando estava para voltar, Verónica foi presa e o menino ficou impossibilitado de retornar, sendo desenraizado. Foi um exílio forçado.

“Saí dos centros de detenção de Tres Alamos e Cuatro Alamos, e depois fui preso mais cinco vezes por curtos períodos como forma de intimidação. Foi assim que conseguiram um visto para os Estados Unidos. Quando cheguei lá, me colocaram na lista L e eu não pude voltar”, ele relembra.

Já haviam se passado três anos desde o sangrento golpe contra o governo da Unidade Popular do presidente Salvador Allende, um golpe que mergulhou o país em um dos capítulos mais sombrios de sua história.

Rodrigo era uma criança maravilhosa, muito inteligente, amante da música e da cultura em geral. Ele passava três horas por dia em um quarto escuro trabalhando para aperfeiçoar sua fotografia, conta sua mãe.

Quando morava nos Estados Unidos, passava a maior parte das tardes na casa de outro chileno exilado, o fotógrafo Marcelo Montecino, que se tornou seu mentor.

Em março de 1986, ele retornou ao Chile com o objetivo de retratar a vida no país e, posteriormente, publicar um livro.

No entanto, em 2 de julho daquele ano, durante uma manifestação contra a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), Rodrigo e Carmen Gloria foram capturados por uma patrulha do exército, encharcados com um líquido inflamável e incendiados. Após serem espancados, sofrendo diversas fraturas, e terem seus corpos queimados, foram enrolados em um cobertor e abandonados em um terreno baldio nos arredores da cidade.

A LUTA POR JUSTIÇA

Em janeiro de 2024, 38 anos após esses tristes acontecimentos, a Segunda Câmara Criminal do Supremo Tribunal emitiu uma sentença definitiva contra vários militares da reserva.

Como autores dos crimes de homicídio qualificado no caso de Rojas de Negri e de tentativa de homicídio no caso de Quintana, Pedro Fernández Dittus, que havia sido absolvido em primeira instância, Iván Figueroa Canobra, Julio Castañer e Nelson Medina foram condenados a 20 anos de prisão.

A Corte também impôs penas de três anos e um dia de prisão como cúmplices ou cúmplices desses crimes a Luis Alberto Zúñiga, Jorge Osvaldo Astorga, Francisco Fernando, Leonardo Antonio Riquelme, Walter Ronny Lara, Juan Ramón González, Pedro Patricio Franco e Sergio Hernández.

O tribunal também ordenou que o governo pagasse uma indenização financeira às famílias das vítimas.

“Foi muito difícil para mim, porque levei mais de 20 anos para encontrar as informações para o caso de Rodrigo. Nenhum advogado quis aceitar meu caso”, diz sua mãe.

Questionada se, quase 53 anos após o golpe, ela acredita que a justiça foi feita, Verónica de Negri declarou:

Ainda existem questões pendentes e violações dos direitos humanos continuam a ser cometidas, como se viu durante a revolta social, quando mais de 400 jovens sofreram danos oculares em consequência da repressão das forças de segurança, refletiu ele.

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