Por Jorge Petinaud Martínez
Correspondente-chefe na Bolívia
Os críticos dessa regulamentação consideram que ela beneficia apenas a oligarquia do agronegócio e alertam que ela abre caminho para a expansão de grandes propriedades rurais.
O ângulo mais combativo desse triângulo ganhou destaque nesta quarta-feira no epicentro político do país, a Plaza Murillo, onde os indígenas e camponeses que, em quase 30 dias, percorreram 100 quilômetros em busca da revogação da regulamentação, repudiaram a facção da Csutcb liderada por Víctor Hugo Roca, após o anúncio de um acordo com o Governo pelas suas costas.
Em declarações enfurecidas ao canal Abya Yala, os líderes e líderes femininos dos manifestantes reiteraram que desconheciam a assinatura do acordo na Casa Grande del Pueblo (sede do Executivo), sem a presença deles.
Eles advertiram que, dali em diante, não reconheceriam a autoridade de Roca devido à sua traição aos povos indígenas, camponeses, idosos, mulheres e crianças que, durante quase 30 dias, viajaram das chamadas terras baixas (os departamentos de Pando e Beni) até as terras altas de La Paz.
Eles reiteraram que não deixariam La Paz até que a Assembleia Legislativa Plurinacional (ALP) revogasse a legislação e ameaçaram intensificar seus protestos, incluindo uma greve de fome. Uma segunda perspectiva sobre o assunto foi apresentada por Roca e seus companheiros (identificados como “líderes da CSUTCB”), que afirmaram que um acordo havia sido alcançado com o governo e as autoridades legislativas para revogar a lei de redistribuição de terras.
Segundo informações, após uma reunião com o presidente Rodrigo Paz, ministros e os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, o acordo foi considerado fechado com base em um “acordo de coordenação”.
Embora o Governo não tenha emitido um comunicado oficial, o porta-voz presidencial José Luis Gálvez afirmou em conferência de imprensa que a questão “está nas mãos do poder legislativo”.
O texto divulgado pelos líderes da Csutcb, repudiado pelos manifestantes contra a Lei 1720, afirma que “o irmão Presidente Rodrigo Paz, na presença dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, compromete-se a realizar os procedimentos necessários perante a ALP para a revogação da Lei 1720 (…)”.
Ele também reconhece a promessa de “(…) trabalhar em um novo projeto de lei, que será elaborado com a participação de todas as partes envolvidas.”
Segundo a rede RTP, “o Governo e os legisladores comprometeram-se a desenvolver novas regulamentações com a participação dos setores camponeses, e que estas não afetem as terras comunitárias de origem”.
OS OLIGARCAS DO ORIENTE
À direita do triângulo, um novo foco de tensão se apresenta para o Governo, após a Câmara Agrícola Oriental (CAO) ter declarado estado de emergência para defender a Lei 1720 e exigir a revogação do decreto 5613.
Em coletiva de imprensa, o presidente da CAO, Klaus Frerking, alertou nesta terça-feira que os latifundiários de Santa Cruz não permitirão a revogação da Lei 1720 e pediu às autoridades nacionais e subnacionais que apoiem essa posição.
“O setor agrícola de Santa Cruz está declarando estado de emergência. Não podemos permitir a revogação da Lei 1720. Precisamos da revogação do Decreto 5613”, afirmou enfaticamente.
Entretanto, o decreto 5613 foi aprovado pelo Executivo com a intenção de atenuar o descontentamento de centenas de manifestantes indígenas e camponeses que, após 28 dias de marcha, chegaram a La Paz exigindo a revogação do decreto 1720.
Conforme explicou o próprio presidente, Rodrigo Paz, o Decreto Supremo 5613 reconhece o direito à pequena propriedade agrícola e prevê a rápida distribuição de terras em Beni e Pando.
A Lei 1720 também é conhecida como Lei (Branko) Marinkovic, em referência ao proprietário de terras e agora senador de mesmo nome, que foi seu principal promotor e conseguiu sua aprovação em tempo recorde por ambas as casas do Partido Trabalhista Australiano (ALP), bem como sua promulgação pelo presidente perante os grandes proprietários de terras de Santa Cruz.
Em 20 de setembro de 2023, o Tribunal Agroambiental (TA) anulou diversas resoluções que concediam 33.000 hectares à família Marinkovic, fazendo com que essas propriedades passassem a ser de propriedade do Estado.
Este caso surgiu em 2020, quando a Fundação Tierra denunciou que o governo de Jeanine Añez (2019-2020) emitiu irregularmente resoluções de titulação de terras para duas propriedades em favor da família Marinkovic, o que implicaria um uso indevido de influência, considerando que a então senadora era ministra.
As propriedades em questão eram as chamadas Terras Baixas do Norte, com 21.000 hectares, e a Laguna Corazón, com 12.000 hectares, localizadas no departamento de Santa Cruz.
Segundo o que a TA noticiou na altura em que anulou as resoluções que beneficiavam a família Marinkovic, o Vice-Ministério das Terras apresentou duas ações judiciais relativas a essas propriedades.
Com essas medidas, esses 33.000 hectares passariam a ser considerados propriedade fiscal, ou seja, propriedade do Estado.
Marinkovic foi líder do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz (2007-2009) e Ministro da Economia (2019-2020) no governo de Jeanine Añez.