Wagner França
A vitória de Lula no segundo turno de 2026 não foi um milagre eleitoral, nem obra de um marketing salvador. Foi o resultado direto de uma explosão de organização popular que rompeu a bolha da apatia e colocou milhares de trabalhadores, jovens, sindicalistas e militantes de base nas ruas e nas redes. O que aconteceu entre o primeiro e o segundo turno foi uma demonstração de que, quando a classe trabalhadora se move, ela deixa de ser plateia e se torna sujeito da disputa política.
Lula venceu com 51,79% dos votos válidos, cerca de 64,2 milhões de votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Mas o dado mais importante não está nas urnas: está no processo. Após uma derrota no primeiro turno, a esquerda não se encolheu. Pelo contrário: movimentos sociais, estudantes, centrais sindicais e coletivos populares se lançaram numa ofensiva de base que tomou capitais e cidades médias. A juventude, que muitos analistas davam como dispersa, voltou a marchar. O MST organizou brigadas de mobilização, formação política e comunicação popular em estados decisivos como Minas Gerais. Não foi uma vitória de um partido: foi uma vitória da capacidade de articulação das massas.
A extrema direita foi derrotada porque setores organizados da sociedade disputaram a política em cada território. A campanha de Lula só ganhou tração quando deixou de lado a pasmaceira institucional e passou a falar a língua dos trabalhadores, combinando a defesa de pautas concretas — salário mínimo, SUS, educação pública, Bolsa Família — com uma presença agressiva nas redes e nas ruas. O “Exército de Lula” no WhatsApp, com mais de 10 milhões de pessoas, e as manifestações espontâneas em Copacabana, na Paulista e na Esplanada dos Ministérios mostraram que a direita não tem o monopólio da mobilização digital nem das ruas. A derrota de Flávio Bolsonaro é, antes de tudo, a derrota de um projeto que apostou no antipetismo e no medo, e que não soube responder à energia popular que se levantou contra ele.
No entanto, seria um erro grave transformar essa vitória em festa triunfalista. A eleição não elimina a luta de classes. O parlamento mais conservador, as pressões do capital internacional, a ofensiva da extrema direita nas redes e o poder econômico que segue intacto não desapareceram porque uma urna registrou 51,79%. A vitória nas urnas é uma trincheira conquistada, não o fim da guerra. O governo que se inicia herdará as mesmas contradições estruturais e terá que enfrentar a fúria de um sistema que não aceita perder privilégios. A organização popular que garantiu a virada precisa continuar viva para cobrar, pressionar e radicalizar as transformações.
A lição que fica é clara: nenhuma mudança real acontece sem a participação ativa das massas. A esquerda só vence quando confia no povo e se mistura com ele. A vitória de Lula é a prova de que a mobilização popular é a arma mais poderosa contra o avanço da extrema direita. Mas a mesma energia que derrotou o bolsonarismo nas urnas precisa se converter em organização permanente nos locais de trabalho, nas comunidades, nas escolas e nas periferias. Quando o povo se une e luta, ele muda a história. E a história de 2026 mostrou que, mesmo diante de todas as adversidades, a classe trabalhadora brasileira ainda sabe como fazer isso.



