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sexta-feira, 18 setembro 2026

Quando Fidel Castro discursou pela primeira vez nas Nações Unidas

Havana (Prensa Latina) Para participar da XV Sessão da Assembleia Geral da ONU, sediada em Nova York, o líder máximo do Governo Revolucionário Cubano, Fidel Castro Ruz, chegou aos Estados Unidos em 18 de setembro de 1960, em uma visita na qual a arrogância americana marcaria a história de ambas as nações.

Por Pedro Rioseco López-Trigo*

Colaboradora da Prensa Latina

Há 66 anos, líderes de diversas grandes potências concordaram em participar da 15ª sessão da Assembleia Geral, que também contou com figuras importantes do Terceiro Mundo, como Jawaharlal Nehru, Gamal Abdel Nasser, Kwame Nkrumah e Sékou Touré, entre outros.

Mas, com particular expectativa, o líder máximo da triunfante Revolução Cubana, o então primeiro-ministro Fidel Castro Ruz, era aguardado em Nova York para a reunião no palácio de aço e vidro da ONU, às margens do East River.

Num gesto de arrogância e descortesia, desde sua chegada ao Aeroporto Idlewild (atual Aeroporto John F. Kennedy), onde foi recebido com alegria por um grupo de apoiadores com bandeiras cubanas, o governo dos EUA anunciou o confinamento de Fidel à Ilha de Manhattan, onde fica a sede da ONU, sem permitir que ele deixasse a área.

A delegação cubana hospedou-se no Hotel Shelbourne, perto das Nações Unidas, onde milhares de pessoas se reuniram rapidamente querendo ver Fidel. O gerente do hotel tentou extorquir dinheiro dos cubanos, exigindo um depósito de US$ 20.000 para possíveis danos, ao que, segundo o Ministro das Relações Exteriores, Raúl Roa, a resposta foi imediata.

“São bandidos! A ONU não deveria estar numa cidade onde as delegações que vêm para as suas reuniões não são respeitadas, onde não se pode ficar sem ser extorquido!”, exclamou Fidel indignado, ordenando ao Capitão Antonio Núñez Jiménez que saísse para comprar tendas para acampar no jardim das Nações Unidas, já que não era possível ficar no hotel.

“Na sala, Fidel andava de um lado para o outro. Ele pediu ao Dr. Manuel Bisbé (embaixador de Cuba) que ligasse para o Secretário-Geral da ONU, Dag Hammarskjöld, e solicitasse uma reunião urgente”, acrescentou Roa, para registrar o protesto contra o tratamento ofensivo e a necessidade de transferir a sede da ONU para um país civilizado, onde chefes de Estado ou de governo receberiam a devida cortesia.

Fidel, com a mochila às costas, chegou então aos jardins da ONU para visitar o Secretário-Geral e protestar contra os insultos e a grosseria a que estava sendo submetido. O líder afro-americano Malcolm X já havia sugerido que ele se hospedasse no Hotel Theresa, no Harlem, bairro predominantemente negro. Fidel aceitou, instalou-se às 23h30 do dia 20 e, de uma janela, acenou para os amigos de Cuba, o povo do Harlem.

Ao redor do Hotel Theresa, onde foi recebido como um hóspede ilustre, uma grande multidão se reuniu e o aclamava com carinho e respeito. O frenesi da mídia se intensificou quando ele recebeu a visita do então primeiro-ministro da União Soviética, Nikita Khrushchev.

“De repente, aquela instalação bastante precária virou notícia de primeira página”, disse Roa, e relatou como serviu de intérprete durante o encontro de Fidel com o chefe do governo indiano, Pandit Nehru, e seu ministro da Defesa, Krishna Menon.

“O discípulo de Gandhi, em seu traje característico, foi recebido aos pés do elevador. Fidel agradeceu a visita e, sentindo-se constrangido, disse-lhe que não deveria ter se dado ao trabalho de vir até o hotel. Nehru respondeu, em voz baixa e grave: ‘Eu queria ter a honra de apertar a mão de um herói’”, acrescentou.

O presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, juntamente com seu ministro das Relações Exteriores, Dr. Mahmoud Fawzi, também visitou o Theresa. “Tivemos muitos pontos de contato com a luta anti-imperialista que o Egito travava após a nacionalização do Canal de Suez; defendemos princípios idênticos: ambos apoiamos resolutamente a luta anticolonial dos povos africanos”, lembrou Roa.

“Semelhantes, em seu caráter fraterno, foram os encontros com Kwame Nkrumah (Presidente da República do Gana, político pan-africanista e filósofo) e Ahmed Sékou Touré (Presidente da República da Guiné desde a sua independência em 1958 até sua morte). Este último visitaria Havana em 13 de outubro, imediatamente após discursar na Assembleia Geral”, acrescentou.

Naquele quarto do Hotel Theresa, ela observou: “cerca de 400 cartões constituíam a única referência escrita usada por Fidel em sua magistral intervenção perante a ONU, que manteve centenas de delegados, convidados e membros do Secretariado (da organização mundial) em suspense, de pé nos corredores, por mais de quatro horas”.

Exatamente às 14h40 da segunda-feira, 26 de setembro de 1960, um jovem com o lendário uniforme de guerrilheiro chegou à entrada principal do edifício das Nações Unidas. Era o primeiro-ministro de um país que, pela primeira vez na Assembleia Geral da ONU, levantaria a voz em defesa dos pobres e da paz para todos, e cujo discurso seria interrompido cerca de 30 vezes por aplausos dos delegados.

A imprensa da época noticiou que, quando chegou a sua vez, Fidel Castro se levantou e, com passos largos e firmes, caminhou em direção ao pódio. Tomou dois goles de água e começou um discurso que entrou para a história. “Sim, vamos falar com clareza”, foram suas primeiras palavras.

“As guerras, desde o início da humanidade, surgiram, fundamentalmente, por uma razão: o desejo de alguns de saquear as riquezas de outros. Que a filosofia da pilhagem desapareça, e a filosofia da guerra desaparecerá! Que as colônias desapareçam, que a exploração dos países por monopólios desapareça, e então a humanidade terá alcançado um verdadeiro estágio de progresso!”, disse Fidel naquela época, e essa verdade permanece totalmente válida hoje.

*Jornalista cubano.

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