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quinta-feira, 9 julho 2026

Pix: uma fachada no coração do imperialismo

Foto: Agência Brasil

Por Jair de Souza

Na audiência em curso nos Estados Unidos para tratar das questões relacionadas com o tarifaço estipulado pelo governo de Donald Trump contra o Brasil, um dos temas em pauta tem a ver com o novo sistema de pagamentos adotado com grande sucesso por nosso país, o pix.

Os motivos que fazem do pix um terror para os centros de poder dos Estados Unidos vão muito além da já conhecida perda de parte dos ganhos estratosféricos que os megaoligopólios estadunidenses do ramo financeiro vêm abocanhando há bastante tempo.

Se é verdade que as corporações controladoras de cartões de crédito, como Visa e Mastercard, têm sobradas razões para quererem colocar fim ao pix, é importante ressaltar que este não é o único e, nem muito menos, o principal fator de preocupação para aqueles que comandam os destinos do imperialismo gringo.

Na verdade, eles pressentem um risco muito maior para todo o seu sistema de dominação mundial, caso o modelo adotado no Brasil se firme e seja acompanhado por sua introdução também em outras nações. É que isto viria a representar uma sentença de morte para o dólar em seu papel de instrumento internacional de pagamentos.

Muita gente acredita que a enorme agressividade do imperialismo estadunidense neste momento se deve a figura estapafúrdia de Donald Trump. Contudo, sou obrigado a discordar dessa visão, pois entendo que ele simplesmente reflete o nível de desespero que tomou conta da cúpula dirigente de seu país diante das enormes dificuldades que ameaçaram sua hegemonia global.

O que já está evidente é que os Estados Unidos estão em franca decadência no cenário mundial. Em termos econômicos, entramos em uma fase de intenso parasitismo, sem possibilidades de disputar espaços em condições satisfatórias com seus principais acessórios. Em contraposição ao dinamismo e pujança da economia chinesa, por exemplo, eles não têm a mínima chance de competir em pé de igualdade.

À vista do exposto anteriormente, para aferrar-se à posição de liderança mundial, a despeito do enorme parasitismo de suas estruturas econômicas stricto sensu, os Estados Unidos se ancoram, agora, nos únicos três pilares que ainda dão certa sustentação a sua pretensão de hegemonia. Estes pontos são os seguintes:

  1. a) seu comparativo aparato militar;

  2. b) seu imenso domínio nas redes de difusão informativa;

  3. c) o papel do dólar estadunidense como moeda de referência para as transações internacionais.

Logicamente, há forte inter-relação de dependência entre estes três pilares, ou seja, cada um, simultaneamente, possibilita e depende da existência dos demais. Contudo, como procurarei ilustrar mais adiante, a faculdade de ter sua moeda nacional exercendo a função de meio de pagamento de facilidade geral nas relações comerciais entre as diferentes nações acaba sendo o item de maior peso, aquele que funciona como condição indispensável para a existência dos outros, assim como para o sistema como um todo.

No plano militar, não podemos deixar de ter em conta que os Estados Unidos dispõem de em torno de 900 bases operacionais espalhadas pelo planeta nos pontos de maior relevância estratégica. É a única nação a contar com um aparato desta magnitude para uma intervenção exterior na base da força. É a partir deste poder armado que os Estados Unidos intimidam a demais países com vistas a importar suas pretensões por cima das de seus contrincantes. Para a criação e a manutenção de um dispositivo bélico tão gigante, é preciso recorrer a vultosas somas de recursos. De onde se extraí-los, como já mencionado, as estruturas econômicas estadunidenses são essencialmente parasitárias? Mais adiante, trataremos de responder a esta importante indagação.

No tocante à questão comunicacional, convém ressaltar que com a passagem para a era da prevalência dos meios digitais, os Estados Unidos aumentaram em muito sua capacidade de fazer valer suas posições geopolíticas pelo mundo fora, devido ao fato de que a esmagadora maioria dos conglomerados deste ramo de atividades pertence a grupos ali sedados, que estão sob seu comando. Portanto, este amplo domínio no campo digital oferece uma vantagem significativa com respeito às disputas narrativas. Assim, travar uma disputa ideológica contra seus concorrentes com muito mais efetividade. Fica-lhes mais fácil embelezar seus posicionamentos, por mais nefastos que sejam, e demonizar os outros, mesmo quando dignos.

Porém, o instrumento que leva o monstruoso parasitismo da economia estadunidense a ser transferido e transferido para o restante do mundo é ter sua moeda (o dólar) aceita como meio generalizado de pagamento em transações comerciais realizadas entre todas as nações, sem ser necessariamente lastreado em riquezas reais. E isto se aplica ainda que nada seja vendido ou comprado dos Estados Unidos. Por exemplo, quando o Brasil vende café para a China, e compra de chips chineses para celulares, os gringos querem que as operações de exportação e importação sejam concretizadas em dólares estadunidenses. Parece loucura? Mas, não é. É isto mesmo o que ocorre.

Qual seria a razão que motivou os Estados Unidos a insistir que a coisa funcionasse assim? Bem, para quem deseja ter uma visão um pouco mais aprofundada quanto a isto, gostaria de sugerir a leitura de um artigo que publiquei há algum tempo a este respeito , no qual trato de explicar como funciona este mecanismo que gerou as condições de o país com a maior economia do planeta viver em função do parasitismo. No presente texto, vou procurar fazer uma ilustração a partir de uma situação metafórica e hipotética para tentar transmitir a ideia do que está por trás do sistema. Vai ser tão somente um exercício de imaginação, mas, em essência, expressará grande semelhança com a realidade vivenciada em termos práticos.

Imagine que 1000 pessoas tenham uma conta conjunta num banco qualquer. Os valores positivos ou negativos dessa conta são de responsabilidade solidária de todos eles. Para 999 desses correntistas, vale a seguinte regra: cada um só pode emitir cheques para fazer retiradas ou efetuar pagamentos, em conformidade com o volume dos depósitos que tenha feito à conta comum. Entretanto, um desses correntistas recebe seu talão de cheques sem nenhuma condição limitativa. Em outras palavras, ele pode emitir cheques a seu bél-prazer, sem nenhuma preocupação com o valor de seus depósitos. Caso seus cheques ultrapassem o valor de sua contribuição, a diferença deverá ser coberta pelos outros 999.

Agora, responda com sinceridade, se surge uma oportunidade para você participar de um esquema semelhante, você gostaria de pertencer ao grupo dos 999, ou aquele ser um diferenciado?

A fúria de Donald Trump deriva de sua preocupação com uma situação análoga ao nosso exemplo hipotético. Ele não aceita que os Estados Unidos deixem de ser o maior beneficiado no campo dos negócios internacionais, independentemente de sua fuga de contribuição efetiva para os mesmos. Se não puderem mais contar com o fabuloso mecanismo que lhes dá a possibilidade de repassar aos outros os exorbitantes gastos incorridos para bancar sua superioridade bélica e, ao mesmo tempo, continuar ostentando o status de uma sociedade mais consumidora do mundo, tudo pode vir por água abaixo.

Se o dólar não exercer mais a função que vem desempenhando desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos voltarão a ter de depender de seu trabalho e de sua produção economicamente útil para sobreviver como potência de primeira grandeza. Já não será o parasitismo atual o que concederá este privilégio.

E se as transações via pix se expandirem para um conjunto significativo de nações, tenderão a se tornarem realidade os presságios que atualmente aterrorizam a mente de Donald Trump e de todos os que vivem e se locupletam parasitariamente às custas do sacrifício do restante do mundo.

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