Uma característica importante do capitalismo neoliberal num país do Terceiro Mundo como a Índia é o abismo que cria entre os trabalhadores e a intelectualidade. Durante o período colonial na Índia, diferentes membros da intelectualidade assumiram a responsabilidade de denunciar a miséria a que o povo indiano fora submetido pelo colonialismo; e, naturalmente, muitos juntaram-se à resistência ativa contra o colonialismo, sofrendo prisão e privações nesse processo. Como resultado, conquistaram o respeito do povo, um respeito de que continuaram a usufruir mesmo após a independência, durante o período de desenvolvimento “dirigista”, ao tornarem-se observadores honestos e críticos do impacto da estratégia de desenvolvimento na vida das pessoas.
As sociedades pré-capitalistas, mesmo em tempos normais, têm-se caracterizado por um certo grau de deferência do povo comum para com a intelectualidade; isto foi reforçado pelo papel desempenhado pela intelectualidade durante a luta anticolonial e o período do dirigismo pós-independência em países como a Índia.
O neoliberalismo, no entanto, altera esta situação. Procura construir uma ordem capitalista sem restrições, em que o capital monopolista nacional se integra com o capital financeiro internacional, tendo como objetivo remodelar a sociedade segundo padrões capitalistas familiares e convencionais. Altera a posição da intelectualidade de várias formas: em primeiro lugar, uma vez que a essência do capitalismo consiste em destruir qualquer sentido residual de comunidade e reduzir os grupos sociais a um conjunto de indivíduos que só pensam em si próprios, também a intelectualidade é reduzida ao estatuto de um grupo de indivíduos que se valem por si próprios, em vez de atuarem como tribunos do povo. As preocupações com a carreira e o desejo de aproveitar as oportunidades de progressão pessoal, tanto no país como no estrangeiro, que agora se abrem, tornam-se as principais preocupações até mesmo da intelectualidade.
Em segundo lugar, o papel social da intelectualidade antes do período pré-neoliberal era sustentado por uma certa perspetiva teórica que esta havia adotado, nomeadamente, uma perspetiva anti-imperialista. É certo que, entre os diferentes membros da intelectualidade, existiam grandes diferenças nas posições teóricas, mas a maioria deles tinha em comum o reconhecimento da realidade existente do imperialismo; isto encontrou eco junto do povo e distinguiu a intelectualidade do Terceiro Mundo das tradições teóricas dominantes no Ocidente. Com o neoliberalismo, porém, verifica-se um esforço intenso para apagar estas diferenças teóricas e criar um consenso, tanto nas metrópoles como no Terceiro Mundo, em torno de uma única visão, nomeadamente a que é dominante no Ocidente, que conta geralmente com o apoio tanto do Banco Mundial como do FMI; esta visão defende que o desenvolvimento do Terceiro Mundo pode ser alcançado não através da resistência ao imperialismo, mas sim abraçando o imperialismo.
Com as vozes de oposição no domínio teórico abafadas por toda parte, e com a voz dominante no Ocidente a falar agora a mesma linguagem que as vozes recém-surgidas no Terceiro Mundo, não só se abrem oportunidades de emprego para um segmento mais vasto da intelectualidade do Terceiro Mundo nas metrópoles como a sua distância em relação ao povo do Terceiro Mundo se torna maior. Isto porque a experiência dos povos do Terceiro Mundo não se coaduna com as conclusões do consenso teórico que se está a desenvolver entre as respetivas intelectualidades nas metrópoles e no Terceiro Mundo.
O papel do colapso da União Soviética — que, apesar de todas as suas falhas, proporcionou durante décadas um modelo alternativo e inspirador — nunca deve ser subestimado em todo este processo de desenvolvimento de um consenso entre a intelectualidade metropolitana e a intelectualidade do Terceiro Mundo.
Em terceiro lugar, a privatização — e, consequentemente, a mercantilização, que é uma característica distintiva do neoliberalismo — de esferas importantes da economia, especialmente a educação, tende a destruir a busca da vida académica como atividade crítica. Uma vez que o objetivo das instituições de ensino privadas que proliferam na nova situação é produzir estudantes como mercadorias comercializáveis, o propósito básico da educação numa sociedade do Terceiro Mundo — que deve ser, nas palavras de Antonio Gramsci, a formação de um conjunto de “intelectuais orgânicos” dos povos descolonizados — perde-se completamente. De facto, os académicos envolvidos nessas instituições privadas são penalizados se incutirem nos seus estudantes um sentido de questionamento crítico; e, claro, as organizações estudantis e o ativismo estudantil são desencorajados nessas instituições. Tudo isto afasta ainda mais a intelectualidade da vida do povo, confinando-a a um mundo separado de produção especializada de mercadorias intelectuais. Em suma, o neoliberalismo separa a intelectualidade da vida do povo.
Há alguns dias, um ministro sénior do governo do [partido] BJP em Bengala Ocidental lamentou o facto de o Presidency College e a Universidade de Calcutá, que no passado tinham sido faróis intelectuais no país, se terem tornado instituições sem brilho. Passou então a sugerir que a glória académica perdida de Bengala Ocidental poderia ser recuperada com a ajuda do setor privado. A superficialidade da sua análise sobre as razões pelas quais Bengala Ocidental ficou para trás em termos de padrões académicos é evidente pelo facto de ele não ver qualquer ligação entre a redução drástica dos fundos públicos destinados à educação e a sua queda na mediocridade. Ele pretendia revitalizar o ensino superior em Bengala Ocidental (o que, por si só, era um objetivo irónico para um representante de um governo neofascista) sem gastar muito dinheiro do orçamento!
O fosso entre a intelectualidade e o povo que se desenvolve sob o neoliberalismo tem uma consequência importante: cria, nomeadamente, o terreno propício para a ascensão do neofascismo. É certo que existem vários fatores básicos por trás da ascensão do neofascismo, sobretudo a sua promoção pelo capital monopolista, que estabelece uma aliança com os neofascistas a fim de manter a sua hegemonia no meio da crise do neoliberalismo; mas a propaganda neofascista contra uma minoria desamparada, destinada a gerar ódio contra ela por parte da maioria — como forma de dividir o povo e proporcionar um discurso de distração —, não seria tão eficaz se as palavras da intelectualidade hoje tivessem o mesmo peso junto do povo que tiveram antes do período neoliberal.
Na verdade, as ideias neofascistas não gozam de grande aceitação genuína entre a intelectualidade; mas estas ideias conseguem ganhar alguma aceitação entre o povo porque as vozes antifascistas na intelectualidade, apesar de serem as dominantes, não só são silenciadas através da intimidação, como também se tornam relativamente ineficazes devido ao fosso que o capitalismo neoliberal introduz entre a intelectualidade e o povo. A perda de credibilidade da intelectualidade junto ao povo é um importante fator que possibilita a ascensão do neofascismo.
O neoliberalismo, portanto, prepara o terreno para o neofascismo de várias formas. A mais importante, evidentemente, é a crise que inevitavelmente produz. Como a dimensão relativa das reservas de mão-de-obra no total da força de trabalho não diminui sob o regime neoliberal — pelo contrário, aumenta mesmo quando o crescimento do PIB aparentemente acelera —, os salários reais não aumentam, mesmo com o aumento da produtividade do trabalho. (Este aumento da produtividade do trabalho, aliás, é a razão pela qual a dimensão relativa das reservas de mão-de-obra não diminui). Isto aumenta a percentagem de excedente económico na produção e dá origem a uma crise de sobreprodução, ao manter baixa a procura de consumo em relação à produção. É esta crise que proporciona o cenário para a aliança entre as grandes empresas e [a ideologia] Hindutva, e para a promoção do neofascismo pelo capital monopolista. Mas o neoliberalismo contribui para este processo também de outras formas, sendo uma delas, muito proeminente, a perda geral de confiança do povo na intelectualidade que ele provoca.
O marxismo é praticamente único a reconhecer o papel do neoliberalismo na ascensão do neofascismo. As análises liberais desta ascensão centram-se apenas em fatores sociais e históricos, mas quase nunca mencionam as raízes do fenómeno na economia política. No entanto, não o fazer enfraquece a luta antineofascista. Mesmo que, por acaso, as maquinações do neofascismo para perpetuar o seu domínio sobre o poder sejam superadas e este seja afastado do poder através do processo eleitoral, enquanto o caráter neoliberal da economia se mantiver e a crise que gerou persistir, o neofascismo voltará sempre ao poder, tal como aconteceu nos EUA com a reeleição de Donald Trump.
A luta contra o neofascismo requer, portanto, uma transcendência da conjuntura que lhe dá origem, o que exige, por sua vez, ir além do capitalismo neoliberal. A intelectualidade tem de tomar consciência deste facto; tem a responsabilidade histórica de reforjar os seus laços com o povo. Não basta apenas alertá-lo para os perigos do neofascismo; é necessário traçar uma agenda económica alternativa que o tire da crise de estagnação e desemprego a que o neoliberalismo o condenou. O neofascismo só pode ser superado avançando simultaneamente além do neoliberalismo.
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