– Uma proposta de aplicação de direitos aduaneiros de 500% pelos EUA aos países que mantêm relações comerciais com a Rússia obriga as potências do Sul Global a escolherem entre o acesso ao mercado e a autonomia estratégica, acelerando a transição para uma economia global fragmentada.
Think BRICS.
E se o acesso ao mercado dos EUA viesse acompanhado de uma condição simples: alinhar-se com Washington — ou perdê-lo por completo?
Essa é a lógica por trás de uma nova proposta bipartidária que surge no Senado dos EUA. A 11 de julho de 2026, os senadores Lindsey Graham, Roger Wicker, Richard Blumenthal e Jeanne Shaheen anunciaram um acordo com a administração Trump sobre a Lei de Sanções à Rússia (Sanctioning Russia Act) — um projeto de lei que poderá remodelar fundamentalmente a forma como o poder económico é exercido no sistema global.
Este não é um pacote de sanções convencional. Não visa principalmente a Rússia. Visa todos os outros.
No centro da legislação está um mecanismo de varredura: tarifas secundárias de até 500% sobre qualquer país que continue a comprar petróleo, gás ou urânio russo. Se esses países não cumprirem, as sanções agravam-se — mais 500% a cada 90 dias.
Trata-se de uma pressão económica numa escala raramente tentada. E levanta uma questão mais profunda: quanta soberania podem os países manter num sistema em que o acesso ao mercado está cada vez mais ligado ao alinhamento geopolítico?
O verdadeiro alvo: a autonomia estratégica
A pressão imediata recai sobre o Sul Global — em particular economias BRICS, como a Índia e a China, que, em conjunto, representam cerca de 70% das exportações de energia da Rússia.
Para a Índia, o momento é especialmente delicado. Nova Deli está a aproximar-se da fase final de um importante acordo comercial com Washington. No entanto, esta proposta introduz uma incerteza fundamental: será que as parcerias económicas de longo prazo com os EUA podem coexistir com políticas que podem penalizar abruptamente interesses nacionais essenciais?
Essa questão transcende em muito a Índia.
Porque o que este projeto de lei acaba por pôr à prova é se os países conseguem manter estratégias económicas independentes num sistema em que o acesso ao mercado dos EUA está cada vez mais condicionado ao alinhamento geopolítico.
O argumento de Washington é direto: estas medidas são necessárias para impor custos reais à Rússia e forçar uma mudança na situação na Ucrânia. Mas, na perspetiva de muitas economias emergentes, a mensagem pode soar diferente — menos sobre a resolução de conflitos e mais sobre o cumprimento forçado.
O problema da credibilidade
Existe também uma contradição estrutural inerente à política.
Os próprios Estados Unidos continuam dependentes de insumos nucleares russos. Apesar das restrições formais, as importações de urânio pouco enriquecido têm continuado ao abrigo de sistemas de isenção. Só em 2024, os EUA importaram da Rússia urânio enriquecido e plutónio no valor de 624 milhões de dólares.
Atualmente, mais de um quarto da procura de urânio enriquecido dos EUA continua a depender do abastecimento russo.
A produção interna está a expandir-se, mas levará anos até que esses projetos reduzam significativamente a dependência. Até lá, Washington está a pedir a outros países que cortem laços que ela própria ainda não conseguiu substituir totalmente.
Isso enfraquece a credibilidade da estratégia mais vasta.
Pressão e fragilidade
O momento em que esta iniciativa surge também é digno de nota.
Em maio de 2026, o défice comercial dos EUA aumentou 42,2%, atingindo 77,6 mil milhões de dólares. Grande parte desse aumento deveu-se às importações relacionadas com a inteligência artificial e a indústria transformadora avançada — setores que os EUA estão a tentar expandir ativamente.
A introdução de tarifas ao nível agora proposto corre o risco de alimentar diretamente essas pressões.
Os críticos, incluindo o senador Rand Paul, alertaram que tais medidas poderiam sair pela culatra — aumentando os preços internos, perturbando as cadeias de abastecimento e colocando pressão adicional sobre o dólar. Quer esses resultados se concretizem ou não, a percepção de instabilidade já está a moldar a forma como outras economias respondem.
O sistema adapta-se
A adaptação já está em curso.
A China aumentou as importações de urânio russo, ao mesmo tempo que expandiu as exportações relacionadas com o setor nuclear para os Estados Unidos. O resultado é um papel estratégico de amortecedor: absorver o risco geopolítico, por um lado, e manter a influência comercial, por outro.
A posição da Índia é mais limitada. No início deste ano, conseguiu isenção de uma tarifa de 25 % imposta pelos EUA ao aumentar as importações de energia e tecnologia americanas. Agora, enfrenta a possibilidade de sanções muito mais severas — apesar de ser considerada um parceiro estratégico fundamental.
O sinal é difícil de ignorar: o alinhamento não garante necessariamente estabilidade.
Para além das sanções
O que está a emergir é algo mais vasto do que uma disputa sobre a Rússia.
Trata-se do uso crescente do comércio como instrumento de coação — e dos limites dessa abordagem num mundo que já não é unipolar.
Porque quanto mais agressivamente o acesso aos mercados ocidentais for utilizado como arma, mais forte se torna o incentivo para criar alternativas: sistemas de pagamento paralelos, corredores comerciais regionais e novas arquiteturas financeiras concebidas para reduzir a exposição.
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