25.6 C
Brasília
domingo, 12 julho 2026

Flávio Bolsonaro apoia tarifaço de Trump e dá outro vexame nos Estados Unidos

Crédito: Andressa Anholete/Agência Senado

João Filho | Intercept Brasil

Em vez de defender a indústria nacional contra sobretaxas, senador se limitou a pedir um adiamento das sanções para não atrapalhar sua campanha eleitoral

A primeira reportagem da Vaza Flávio marcou o início de um longo inferno astral para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Já se passaram dois meses e tudo indica que estamos apenas no começo. O fio puxado pelo Intercept desencadeou novos desdobramentos que complicaram a vida do candidato do golpismo. Diversos aliados começaram a demonstrar insatisfação, ameaçando largá-lo ferido na estrada. Até Michelle já soltou a mão do enteado. União Brasil e Partido Progressistas, o PP, já dão sinais de que vão pular fora do barco.

Para completar, no seu curral político a coisa vai de mal a pior. Está ficando cada vez mais difícil encontrar um grande aliado de Flávio no Rio de Janeiro que não esteja preso ou na mira de buscas e apreensões. Nesta semana, mais uma leva de políticos bolsonaristas caiu nas garras da Polícia Federal na Operação Unha e Carne, que investiga uma rede de corrupção entre a classe política e o crime organizado no estado. Os elos entre o grupo de Flávio e a bandidagem ficaram ainda mais expostos.

Tudo isso acontece a apenas três meses das eleições com pesquisas apontando o aumento da vantagem de Lula no primeiro turno da corrida presidencial. Operando no modo de desespero, Flávio tem tomado as piores decisões possíveis. Influenciado pela dupla dinâmica do golpismo, Paulinho Figueiredo e Eduardo Bananinha, o candidato decidiu fazer uma nova turnê pelos Estados Unidos. Mas, desta vez, o objetivo seria conter os danos causados por sua última visita à Casa Branca, que lhe rendeu o apelido de Tariflávio.

Vai ser uma eleição feia e suja. Você está preparado?

Os golpistas estão preparando sofisticadas operações de propaganda, agora turbinadas por inteligência artificial. Desmentir mentiras exige tempo, tecnologia e uma equipe experiente de jornalistas dedicados à apuração dos fatos.

Foi assim em outras eleições. E será assim novamente.

O Intercept Brasil está pronto para investigar, verificar informações e revelar o que tentarem esconder. Mas esse trabalho só acontece porque milhares de leitores escolhem financiá-lo.

Se você acredita que a democracia precisa de informação confiável

Flávio participou de uma audiência pública do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, para debater o novo tarifaço do governo estadunidense contra produtos brasileiros. A promessa é de que ele criticaria a medida e defenderia os interesses do Brasil. Na prática, a história foi outra. Não se ouviu uma queixa sequer às razões estapafúrdias fabricadas pelo governo de Donald Trump para justificar a sobretaxa. Sem fazer qualquer contestação de mérito, o Zero Um sequer abriu a boca sobre comércio, meio ambiente e outros temas levantados pelos EUA.

Como um bom vira-lata complexado, o senador se limitou a pedir que a decisão fosse adiada, sob o argumento de que esse seria o pior momento para aplicá-la. Na prática, Flávio endossou a sanção, pedindo apenas um tempo para não prejudicar a própria campanha. Trocando em miúdos: ele apoia um tarifaço contra o seu próprio país, a depender das conveniências políticas.

Como se não bastasse tanta gente soltando sua mão, Flávio agora também precisa lidar com a insatisfação de empresários afetados pelas tarifas. Pegou mal entre o empresariado a postura do senador no USTR. A imagem que ficou é a de um candidato incapaz de dialogar tecnicamente sobre comércio ou proteger as companhias brasileiras atingidas pelo tarifaço. Nenhum dos argumentos levados pelos executivos à audiência foi encampado pelo senador, que optou por um discursinho fuleiro e ideologizado – que, suspeito fortemente, tenha sido escrito pelo colérico Paulinho Figueiredo.

Segundo um dos empresários presentes ouvidos pela CNN, a audiência só voltou a prender a atenção da plateia após a saída de Flávio. A participação do senador foi descrita como um “lapso” em meio a um debate que exigia argumentos econômicos mais consistentes. Até a Faria Lima considerou a excursão como inócua e “decepcionante”. No fim das contas, o candidato jogou fora a chance de posar de presidenciável e apenas confirmou ser um político medíocre.

É realmente impressionante a capacidade de Flávio em tomar decisões erradas. Só mesmo o desespero explica tamanha estupidez, que conseguiu extrapolar  até os padrões de quem foi criado por Jair Bolsonaro. O candidato foi para os Estados Unidos com uma única missão: reverter as trapalhadas da visita anterior. E o que ele fez? Reforçou o seu endosso às tarifas, ainda que de forma indireta, apostando que o vexame seria escamoteado com pura retórica ideológica. Mas nem o empresariado, sempre tão cheio de boa vontade com o bolsonarismo, caiu na conversa fiada.

A situação da campanha eleitoral de Flávio é crítica. Ele é um pré-candidato desconectado da realidade e refém das estratégias traçadas pela dupla de maluquinhos dos Estados Unidos. Com parte dos aliados debandando e outra senda presa, o futuro do seu projeto político vai se mostrando cada vez mais incerto. Parece loucura cogitar que, a essa altura do campeonato, o senador decida jogar a toalha e desistir do Palácio do Planalto. A desistência ainda é uma possibilidade remota, mas, a depender dos próximos capítulos, pode se tornar o único caminho.

Casa-Grande & Senzala

Uma mulher de 62 anos foi resgatada em um condomínio de luxo na região metropolitana de Fortaleza. Ela trabalhava como empregada doméstica para a mesma família desde os 7 anos, sem nunca ter recebido salário. Aos auditores fiscais do trabalho, a  “empregadora” explicou que a vítima “foi dada pela mãe”.

A mentalidade escravocrata segue tão impregnada no imaginário brasileira que a “patroa” nem se deu conta do absurdo que falou. Por quase seis décadas, ela e seus parentes mantiveram uma cidadã submetida a uma dura rotina de escravidão doméstica.

A vítima acordava às 4h30 para preparar o café e arrumar as crianças para a escola. Desde a infância, ela não teve direito a uma vida pessoal. Recebia apenas roupa, comida e teto. Não tinha conta bancária, não aprendeu a ler, perdeu contato com a família, não saía sozinha e nunca namorou. Foi-lhe negada a própria existência como sujeito de direitos.

Não se trata de um caso isolado. Essa gravíssima violação de direitos humanos é uma prática corriqueira no país. No mês passado, uma senhora de 62 anos foi resgatada no interior de São Paulo depois de servir uma família desde os 12. Há 4 anos, no Rio de Janeiro, outra mulher foi resgatada após passar 72 anos trabalhando para três gerações dos mesmos patrões.

O trabalho escravo doméstico é tão normalizado que foram necessárias décadas até que alguém fizesse a denúncia. Muitas mulheres brasileiras, quase sempre pretas, foram e continuam sendo violentadas sob o cruel eufemismo do “faz parte da família”.

Enquanto as vidas dessas vítimas são inteiramente destruídas, os senhores e sinhás contemporâneos não precisam se preocupar. Basta assinar um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público do Trabalho, pagar algumas indenizações e continuar desfrutando da liberdade. No Brasil, o crime de escravidão doméstica compensa.

Bonde do Flávio

O bonde do Flávio Bolsonaro está todo encrencado. Entre a turma que rodou na Operação Unha e Carne desta semana está o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual da Polícia Civil. A Polícia Federal suspeita que ele faça parte de uma quadrilha que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos por meio de uma rede de postos de combustíveis na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Antes de mergulhar no submundo da política bolsonarista fluminense, Amin era um policial influencer famoso nas redes sociais. Seus comentários alimentavam o fetiche reacionário do “bandido bom é bandido morto”. A fama o levou direto para a TV: ele comandou um quadro sobre segurança pública no jornal SBT Rio.

Em 2018, Amin recebeu a Medalha Tiradentes, a principal honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj, por indicação do então deputado Márcio Canella. O detalhe? Canella também foi alvo da mesma operação policial desta semana, e acabou preso em flagrante por portar um fuzil de calibre restrito.

Mais tarde, Amin entrou para a política pelas mãos do então deputado estadual Rodrigo Bacellar – atualmente preso – e Cláudio Castro, inelegível por abuso de poder político e econômico. Esse é o grupo político do homem que, até pouco tempo atrás, estava na TV falando duro contra a bandidagem. Todo aquele moralismo televisivo não resistiu a três anos na vida pública. Pois é, a turminha de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro não brinca em serviço.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS