Por Zeus Naya
Correspondente-chefe na Guatemala
Muitos líderes dos povos indígenas esclareceram que, em 2023, não se manifestaram para defender o vencedor das eleições daquele ano (Bernardo Arévalo), mas sim o voto e a democracia coletiva, afirmou o ativista e analista político.
Mas o pior é que eles apoiavam o sistema dos crioulos, dos ricos – representantes de importantes elites econômicas – que são, em grande parte, os que mantêm a nação de joelhos, enfatizou em declarações exclusivas à Prensa Latina.
Ele citou como exemplo organizações como os 48 cantões do departamento de Totonicapán, ou municípios ancestrais, que saíram às ruas para protestar devido à pressão de um certo setor de empresários.
Eles foram pressionados principalmente pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que também financiou essas ações, descreveu López.
Portanto, posteriormente rejeitaram o Codeca, uma vez que este apresentava uma narrativa diferente, comentou a pessoa que enfrentou criminalização e campanhas de difamação contra o movimento camponês e indígena.
Entretanto, acrescentou, os espaços de diálogo que o Executivo tem promovido constituem um método e uma estratégia que servem apenas para enganar as organizações.
A maioria acreditava nas promessas de Arévalo e confiava que obteria alguns dividendos ou benefícios da atual administração, explicou o promotor da luta contra a “pilhagem do sistema neoliberal”.
No entanto, ele observou, ao avaliar a gestão do país, que “deve-se dizer que o presidente tem sido um aliado natural das elites econômicas”.
Sua agenda prioriza os interesses desses grupos e, mesmo antes de sua candidatura ao poder, Arévalo já era parceiro da classe empresarial oligárquica, do sionismo e dos gringos (Estados Unidos), destacou ele.
Ele seguiu fielmente a agenda imperialista e apoia a estratégia contra a China, a Venezuela e o Irã, acrescentou o ex-candidato a vice-presidente pelo Movimento de Libertação dos Povos em 2019, braço político do Codeca.
Nesse contexto, afirmou o entrevistado, o Governo não tinha capacidade para destituir a ex-Procuradora-Geral Consuelo Porras, que recentemente (em 17 de março) completou oito anos no cargo.
López lembrou que a chefe do Ministério Público (MP) durante esse período dedicou-se a perseguir, criminalizar e estigmatizar líderes comunitários que defendiam o meio ambiente e a Mãe Terra.
Então, ele ponderou, os setores sociais são os que mais sofrem com as políticas do Executivo guatemalteco e dos três poderes do governo.
O Congresso é um foco de crime organizado, e os tribunais e a administração nacional operam a seu serviço, apoiando empresários e redes de grupos criminosos de uma forma ou de outra, enfatizou ele.
SOBRE AS ELEIÇÕES DO SEGUNDO ANO
Segundo o coordenador dos movimentos sociais e camponeses, as eleições de segundo grau deste ano demonstraram as lutas entre os poderes pelo controle das instituições-chave.
Ele salientou que o Tribunal Supremo Eleitoral permanecia sob o controle da Cacif (Comissão Coordenadora das Associações Agrícolas, Comerciais, Industriais e Financeiras), bem como de partidos políticos e advogados corruptos.
Esses indivíduos formam o que é conhecido aqui como o Pacto dos Corruptos e consolidaram seu controle sobre este órgão, o que é significativo para o processo eleitoral do próximo ano, destacou López.
Da mesma forma, especificou ele, o Tribunal Constitucional tem três dos cinco magistrados que, sem qualquer pretensão, emitem decisões relacionadas à impunidade e em favor do crime organizado.
É o caso, alertou o especialista, da crise política que a Universidade de San Carlos (pública, a única do gênero no país) está vivenciando, na qual o advogado Roberto Molina, imposto pela embaixada dos EUA, desempenha um papel importante.
Ele mencionou que o ex-candidato a vice-presidente pelo partido Valor em 2019, um dos partidos mais fascistas da Guatemala, fez lobby para que Arévalo assumisse o cargo há mais de dois anos, e que, segundo ele, existem provas disso.
Ele também enfatizou, em suas declarações a esta agência, que os movimentos sociais, e especialmente os movimentos indígenas, acabam sendo explorados por partidos políticos de direita, que chegam ao poder por meio de estratégias clientelistas.
Em contrapartida, enfatizou ele, existe um instrumento que foi construído de forma autônoma, com a proposta de um projeto relacionado ao Estado Plurinacional.
Chama-se Dignidade – explicou López – e é construída a partir de comunidades de base, as mais pobres, mas, de forma importante, organizadas.
VISÃO GERAL DAS ELEIÇÕES DE 2027
Com relação à corrida eleitoral que está prestes a começar, em direção às eleições de 2027, o líder anunciou que estão sendo preparadas assembleias comunitárias nos territórios.
Levamos em consideração que devemos cumprir os requisitos da lei eleitoral e dos partidos políticos, razão pela qual existe uma articulação entre as organizações, assegurou ele.
O analista destacou a luta persistente contra a pressão judicial do Ministério Público, dos tribunais, dos juízes e dos magistrados em favor das estruturas da classe empresarial oligárquica corrupta.
Ele insistiu que esses grupos despojaram e saquearam os recursos naturais, que representam a principal riqueza da terra do quetzal.
Esperamos apoio para a liderança indígena, para nossa colega Thelma Cabrera, e que desta vez a registrem, porque em 2023 ela foi excluída do cenário eleitoral devido a uma manobra dos magistrados, afirmou López.