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terça-feira, 14 abril 2026

O desmantelamento da Revolução: A família Rodriguez está derrubando Chávez e Maduro

Delcy Rodríguez entre o seu irmão, Jorge Rodríguez, pela direita, e Diosdado Cabello, à esquerda Foto: Leonardo Fernandez Viloria – Reuters

Por J Carlos Vinasco

Noite de 9 de abril de 2026

(A nova casta capituladora elimina os slogans, as missões e a memória do povo venezuelano)

Não se trata apenas de uma mudança de governo. Não se trata apenas de uma mudança de nomes nos ministérios. O que está acontecendo na Venezuela é um desmantelamento sistemático da Revolução Bolivariana.

Uma nova classe dominante, instalada pelo imperialismo estadunidense, tomou o poder. E seu objetivo é eliminar todo e qualquer vestígio da cultura revolucionária construída por Hugo Chávez e Nicolás Maduro ao longo de mais de duas décadas.

Eles estão fazendo isso de cima para baixo, com decretos e ordens de liquidação. Mas também estão fazendo isso de dentro para fora: apagando símbolos, eliminando slogans e desmantelando instituições que envolviam o povo.

OS SLOGANS QUE FORAM APAGADOS: A REBELIÃO SILENCIADA

Nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, o novo Ministro da Defesa, General Gustavo Enrique González López — nomeado por Delcy Rodríguez no final de março de 2026 para substituir Vladimir Padrino López — ordenou a eliminação de todos os slogans ideológicos das comunicações e atos oficiais.

A nova administração chama isso de “modernização”. Mas o que eles realmente querem é a despolitização da nação bolivariana. Eles buscam manter o controle sobre o povo sem perceber que estão criando uma grande cisão dentro do movimento nacional popular.

As frases que durante anos definiram o espírito combativo da FANB foram removidas:

Significado do slogan excluído

“Sempre leais, jamais traidores” O juramento de lealdade absoluta à Revolução e aos seus líderes

“Chavista, anti-imperialista”: A definição política da FANB como uma instituição a serviço do povo e contra o opressor ianque.

“Pátria, socialismo e vida.” A saudação militar que lembrava a todos, todos os dias, a razão da existência da Revolução.

“Chávez vive” A memória viva do Comandante, agora banido do quartel

Isso não é um gesto técnico. É um ato de guerra cultural contra o legado de Chávez e Maduro. A nova classe dominante quer varrer toda a cultura criada durante a revolução. Ao remover as referências ao socialismo, negam sua possibilidade histórica dentro da nova estrutura.

O lema “Sempre leais, nunca traidores” pode ser adaptado, neste caso, para “Sempre traidores, nunca leais”.

AS MISSÕES DESAPARECIDAS: AS PESSOAS FICAM SEM SUAS BASES

Mas não são apenas palavras que são apagadas. Instituições inteiras são apagadas. Por meio do Decreto nº 5.248, publicado no Diário Oficial em 9 de fevereiro de 2026, Delcy Rodríguez ordenou a liquidação de sete entidades chavistas.

Esses não eram meros escritórios burocráticos. Eram missões sociais que envolviam o povo, davam-lhe voz, organizavam a juventude e protegiam as fronteiras. Eram espaços onde a Revolução se tornou parte tangível do cotidiano dos venezuelanos.

Os organismos eliminados incluem:

  • Centro Estratégico para a Segurança e Proteção da Pátria (CESPPA) — agência de inteligência criada por Maduro

  • Fundação Robert Serra Youth Mission — programa de treinamento e empreendedorismo para jovens

  • Fundação Missão Socialista Nova Fronteira da Paz — oferecendo apoio a comunidades fronteiriças

  • Gabinete Presidencial de Planos e Projetos Especiais (OPPPE) — coordenação de projetos estratégicos

  • Fundação Propatria 2000 — atividades cívico-militares

  • Fundação José Félix Ribas (Fundaribas) — prevenção ao uso de drogas

  • Movimento Revolucionário Bolivariano da Reserva Ativa — organização de militares da reserva

O decreto estabelece um processo de liquidação de noventa dias. Mas a intenção é clara: apagar do mapa qualquer instituição que tenha sido um símbolo do chavismo.

A oposição venezuelana, por meio do partido Primero Justiça, definiu isso como o “desmantelamento do chavismo pelo próprio chavismo”. E eles têm razão, embora não da perspectiva que compartilhamos. Porque o que está acontecendo não é um expurgo: é uma capitulação.

A NOVA CASTA: UMA TRAGÉDIA DE MAGNITUDES INCALCULÁVEIS

Uma nova burguesia, agora classe dominante, tomou o poder na Venezuela. Ela não chegou ao poder por vontade popular. Foi instalada pelos Estados Unidos, após o sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2016.

O objetivo deles não é governar para o povo. O objetivo deles é eliminar e abolir todos os vestígios da Revolução.

O que está acontecendo é uma tragédia de proporções incalculáveis. Uma tragédia que, se concretizada, levará mais de uma ou duas décadas para os venezuelanos se recuperarem.

O objetivo não é apenas esquecer Chávez. É fundamentalmente apagar Maduro do mapa. Porque Maduro foi o presidente da classe trabalhadora, aquele que tinha influência real sobre a classe trabalhadora, aquele que a ensinou a resistir. A nova classe dominante não quer o retorno do presidente da classe trabalhadora. É por isso que seu retorno ao país sequer está na agenda.

Mikhail Gorbachev: Fui muito leniente com Yeltsin | Mikhail Gorbachev | The Guardian

Mikhail Gorbachev e Yeltsin – The Guardian

UM PARALELO HISTÓRICO: A FAMÍLIA RODRÍGUEZ COMO BORIS YELTSIN E MIKHAIL GORBACHEV

Os irmãos Rodríguez são como Boris Yeltsin e Mikhail Gorbachev. Eles enterraram a União Soviética e destruíram o Estado socialista. Esse era o objetivo deles. Os Rodríguez e seus comparsas estão fazendo exatamente a mesma coisa na Venezuela.

O comandante Chávez disse que não entendia como era possível que a classe trabalhadora não tivesse saído às ruas para defender a União Soviética, para defender o socialismo. O povo soviético havia expressado sua vontade em um referendo — realizado em 17 de março de 1991 — no qual a grande maioria, mais de 76%, votou pela continuidade da União Soviética. Mas, apesar disso, eles a desmantelaram e saquearam. Não foi um colapso: foi um ataque interno, facilitado por aqueles que estavam dentro do sistema.

Eis aqui um ataque que veio de fora, facilitado por aqueles que estão dentro. Eles seguem a mesma linha, com características diferentes, mas é a mesma linha. Eles vão desmantelar a Revolução Bolivariana enquanto afirmam mantê-la.

Venezuela: A classe trabalhadora retornou à cena – derrota Onapre, queda do capitalismo! – Organização Comunista Internacionalista (Esquerda Marxista)

Foto: Esquerda Maxista

9 DE ABRIL: A CLASSE TRABALHADORA TOMA AS RUAS E É REPRIMIDA

Em 9 de abril, sindicatos e trabalhadores venezuelanos foram às ruas para exigir aumentos salariais e o retorno de Nicolás Maduro. A resposta do governo de Delcy Rodríguez foi a repressão.

Segundo relatos da imprensa internacional:

Mais de 2.000 trabalhadores se reuniram na Praça Venezuela para marchar em direção a Miraflores.

A Polícia Nacional Bolivariana utilizou gás lacrimogêneo, spray de pimenta e táticas de controle de distúrbios para dispersar a manifestação.

Pelo menos quatro manifestantes foram presos e jornalistas teriam sido agredidos.

A contra-marcha do PSUV, convocada por Diosdado Cabello, conseguiu chegar ao Palácio de Miraflores, enquanto a marcha dos trabalhadores foi sistematicamente bloqueada.

O líder sindical José Patines culpou diretamente o Ministro do Interior Diosdado Cabello pela repressão contra “aposentados, pensionistas e pessoas que vieram reivindicar direitos trabalhistas”.

Os trabalhadores ergueram um osso de boi nu como símbolo de seu protesto: para comprar esse osso, são necessários três salários mínimos. O salário mínimo atual é de 130 bolívares por mês, o equivalente a US$ 0,27, enquanto a cesta básica para uma família custa mais de US$ 600 por mês.

O slogan mais repetido foi: “Sem bônus, sem aplausos, um salário digno agora.” 

Como é o programa de Diosdado Cabello, o mais polêmico da TV da Venezuela - BBC News Brasil

BBC News Brasi

DIOSDADO CABELLO: LEALDADE OU FACHADA?

Quanto a distinguir Diosdado Cabello dessa casta, sejamos claros: pelo contrário, ele faz parte dela. Ele não foi tocado e permanece nela. Se ele usa o lema “Sempre leais, jamais traidores”, não confiem nele. Ele pode estar usando isso para tentar encobrir sua traição, e não para provar lealdade.

Cabello, enquanto Ministro do Interior, Justiça e Paz, foi diretamente responsável pela operação repressiva de 9 de abril. Enquanto a marcha dos trabalhadores era atacada com gás lacrimogêneo, ele liderou a contramarcha do PSUV que chegou ao Palácio de Miraflores.

Veja quem foi o libertador Simon Bolívar, e a Revolução Bolivariana

O QUE VEM A SEGUIR: O DESMANTELAMENTO SISTEMÁTICO CONTINUA

Estão removendo os slogans. Estão fechando as missões. Estão retirando o retrato de Chávez dos lugares onde ele estava: bancos criados durante a revolução, instituições públicas, espaços da vida cotidiana.

Em seguida, desmantelarão sistematicamente as milícias revolucionárias. Depois, atacarão os conselhos comunais. E, por fim, tudo o que organiza o povo de baixo para cima.

O objetivo é que a Venezuela deixe de ser um exemplo de resistência. Que se torne um país dócil, funcional aos interesses do império, onde o petróleo flui para o norte e a fome permanece nos lares.

A contradição já é explícita.

A luta de classes será o confronto entre uma nova casta no governo, imposta pelos imperialistas, e uma classe trabalhadora e comunitária que está repensando a situação.

Embora a marcha dos trabalhadores de 9 de abril tenha sido reprimida e não tenha chegado ao Palácio de Miraflores, a contradição já é evidente. A classe trabalhadora venezuelana sabe quem a defendeu durante anos de bloqueio e agressão. Sabe que Maduro resistiu o quanto pôde e que foi sequestrado justamente porque o imperialismo não conseguiu quebrá-lo.

NOSSA TAREFA

Nossa missão é fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para defender o povo da Venezuela. Pela liberdade de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Para que a classe trabalhadora possa retomar o poder e realizar plenamente o sonho socialista e bolivariano.

As forças revolucionárias bolivarianas permanecem. E permanecerão. Não nos palácios, não nas declarações oficiais, não nos decretos da nova elite. Elas estão nas ruas, nas fábricas, nos bairros, na consciência do povo.

Maduro disse: se a Revolução retroceder, o povo trabalhador terá que realizar uma Revolução mais profunda. Essas palavras ressoam hoje. E os Rodríguez, por mais que tentem apagar slogans e encerrar programas, não conseguirão apagar a memória de um povo que aprendeu a resistir.

A batalha apenas começou. E a classe trabalhadora venezuelana possui algo que nenhuma elite submissa pode comprar: consciência de classe.

A Revolução não está morta. Ela está esperando que o povo a reavive.

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