Delcy Rodríguez entre o seu irmão, Jorge Rodríguez, pela direita, e Diosdado Cabello, à esquerda Foto: Leonardo Fernandez Viloria – Reuters
Por J Carlos Vinasco
Noite de 9 de abril de 2026
(A nova casta capituladora elimina os slogans, as missões e a memória do povo venezuelano)
Não se trata apenas de uma mudança de governo. Não se trata apenas de uma mudança de nomes nos ministérios. O que está acontecendo na Venezuela é um desmantelamento sistemático da Revolução Bolivariana.
Uma nova classe dominante, instalada pelo imperialismo estadunidense, tomou o poder. E seu objetivo é eliminar todo e qualquer vestígio da cultura revolucionária construída por Hugo Chávez e Nicolás Maduro ao longo de mais de duas décadas.
Eles estão fazendo isso de cima para baixo, com decretos e ordens de liquidação. Mas também estão fazendo isso de dentro para fora: apagando símbolos, eliminando slogans e desmantelando instituições que envolviam o povo.
OS SLOGANS QUE FORAM APAGADOS: A REBELIÃO SILENCIADA
Nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, o novo Ministro da Defesa, General Gustavo Enrique González López — nomeado por Delcy Rodríguez no final de março de 2026 para substituir Vladimir Padrino López — ordenou a eliminação de todos os slogans ideológicos das comunicações e atos oficiais.
A nova administração chama isso de “modernização”. Mas o que eles realmente querem é a despolitização da nação bolivariana. Eles buscam manter o controle sobre o povo sem perceber que estão criando uma grande cisão dentro do movimento nacional popular.
As frases que durante anos definiram o espírito combativo da FANB foram removidas:
Significado do slogan excluído
“Sempre leais, jamais traidores” O juramento de lealdade absoluta à Revolução e aos seus líderes
“Chavista, anti-imperialista”: A definição política da FANB como uma instituição a serviço do povo e contra o opressor ianque.
“Pátria, socialismo e vida.” A saudação militar que lembrava a todos, todos os dias, a razão da existência da Revolução.
“Chávez vive” A memória viva do Comandante, agora banido do quartel
Isso não é um gesto técnico. É um ato de guerra cultural contra o legado de Chávez e Maduro. A nova classe dominante quer varrer toda a cultura criada durante a revolução. Ao remover as referências ao socialismo, negam sua possibilidade histórica dentro da nova estrutura.
O lema “Sempre leais, nunca traidores” pode ser adaptado, neste caso, para “Sempre traidores, nunca leais”.
AS MISSÕES DESAPARECIDAS: AS PESSOAS FICAM SEM SUAS BASES
Mas não são apenas palavras que são apagadas. Instituições inteiras são apagadas. Por meio do Decreto nº 5.248, publicado no Diário Oficial em 9 de fevereiro de 2026, Delcy Rodríguez ordenou a liquidação de sete entidades chavistas.
Esses não eram meros escritórios burocráticos. Eram missões sociais que envolviam o povo, davam-lhe voz, organizavam a juventude e protegiam as fronteiras. Eram espaços onde a Revolução se tornou parte tangível do cotidiano dos venezuelanos.
Os organismos eliminados incluem:
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Centro Estratégico para a Segurança e Proteção da Pátria (CESPPA) — agência de inteligência criada por Maduro
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Fundação Robert Serra Youth Mission — programa de treinamento e empreendedorismo para jovens
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Fundação Missão Socialista Nova Fronteira da Paz — oferecendo apoio a comunidades fronteiriças
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Gabinete Presidencial de Planos e Projetos Especiais (OPPPE) — coordenação de projetos estratégicos
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Fundação Propatria 2000 — atividades cívico-militares
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Fundação José Félix Ribas (Fundaribas) — prevenção ao uso de drogas
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Movimento Revolucionário Bolivariano da Reserva Ativa — organização de militares da reserva
O decreto estabelece um processo de liquidação de noventa dias. Mas a intenção é clara: apagar do mapa qualquer instituição que tenha sido um símbolo do chavismo.
A oposição venezuelana, por meio do partido Primero Justiça, definiu isso como o “desmantelamento do chavismo pelo próprio chavismo”. E eles têm razão, embora não da perspectiva que compartilhamos. Porque o que está acontecendo não é um expurgo: é uma capitulação.
A NOVA CASTA: UMA TRAGÉDIA DE MAGNITUDES INCALCULÁVEIS
Uma nova burguesia, agora classe dominante, tomou o poder na Venezuela. Ela não chegou ao poder por vontade popular. Foi instalada pelos Estados Unidos, após o sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2016.
O objetivo deles não é governar para o povo. O objetivo deles é eliminar e abolir todos os vestígios da Revolução.
O que está acontecendo é uma tragédia de proporções incalculáveis. Uma tragédia que, se concretizada, levará mais de uma ou duas décadas para os venezuelanos se recuperarem.
O objetivo não é apenas esquecer Chávez. É fundamentalmente apagar Maduro do mapa. Porque Maduro foi o presidente da classe trabalhadora, aquele que tinha influência real sobre a classe trabalhadora, aquele que a ensinou a resistir. A nova classe dominante não quer o retorno do presidente da classe trabalhadora. É por isso que seu retorno ao país sequer está na agenda.

Mikhail Gorbachev e Yeltsin – The Guardian
UM PARALELO HISTÓRICO: A FAMÍLIA RODRÍGUEZ COMO BORIS YELTSIN E MIKHAIL GORBACHEV
Os irmãos Rodríguez são como Boris Yeltsin e Mikhail Gorbachev. Eles enterraram a União Soviética e destruíram o Estado socialista. Esse era o objetivo deles. Os Rodríguez e seus comparsas estão fazendo exatamente a mesma coisa na Venezuela.
O comandante Chávez disse que não entendia como era possível que a classe trabalhadora não tivesse saído às ruas para defender a União Soviética, para defender o socialismo. O povo soviético havia expressado sua vontade em um referendo — realizado em 17 de março de 1991 — no qual a grande maioria, mais de 76%, votou pela continuidade da União Soviética. Mas, apesar disso, eles a desmantelaram e saquearam. Não foi um colapso: foi um ataque interno, facilitado por aqueles que estavam dentro do sistema.
Eis aqui um ataque que veio de fora, facilitado por aqueles que estão dentro. Eles seguem a mesma linha, com características diferentes, mas é a mesma linha. Eles vão desmantelar a Revolução Bolivariana enquanto afirmam mantê-la.





