Adilson Roberto Gonçalves*
O professor e membro da Academia Campinense de Letras (ACL) Sérgio Castanho comentou uma postagem no Facebook feita na véspera do segundo turno da eleição presidencial que terminava com uma citação de Stanislaw Ponte Preta: “Passarinho que come pedra sabe o c* que tem”. O termo ainda considerado chulo para ‘ânus’ e derivado do latim “culum” foi resgatado pelo eminente educador com exemplos de várias palavras derivadas daquelas duas letras, confirmando que a natureza pouco delicada dada à palavra é obra da cultura recente.
Tal observação foi inspiradora para uma frase minha: há os que têm dificuldade de sair dos cueiros e se borram na cueca quando o tiro sai pela culatra. Qualquer semelhança com fatos políticos recentes é, obviamente, proposital. O filho 01 de Bolsonaro e irrelevante senador, mas ainda sujeito a processos, acusações e, quiçá, condenação, continua, portanto, objeto de chacota, ainda mais com a fuga para os Estados Unidos e a entrevista concedida ao prestigiado jornal The New York Times em que é retratado como mentiroso, fujão, delirante e, provavelmente, criminoso.
A situação do candidato derrotado pode ficar delicada se a derrocada dos Republicanos nas eleições norte-americanas para o Congresso desta semana resultar em questionamentos sobre sua permanência naquele país, cuja entrada não seguiu protocolos regulares de imigração. Ou seja, a onda azul que varreu os EUA do Pacífico ao Atlântico, esperada há vários anos, é mais uma revés para a manutenção de sua pretensão política de fustigar o Brasil e se manter longe de nossa justiça.
O bolsonarismo é versão tropicalizada do neofascismo que está enfrentando uma onda de resistência mundo afora. Benjamin Netanyahu não conseguiu formar maioria em Israel e está fadado a perder o poder. Ventos democráticos passaram a soprar na Europa, mas ainda são muitos os governos eleitos com viés autocráticos e com forte fulcro no fascismo, especialmente na América Latina. Javier Milei poderá ser o próximo a ser escorraçado da Casa Rosada para interromper a mescla nefasta de destruição do estado social com derrocada econômica no país vizinho.
O controle da narrativa é uma das técnicas usadas por esses grupos. Mesmo em ambientes propensos à divulgação da cultura, como a citada ACL, é forte a presença de agentes da extrema direita que buscam manter o status quo dos tradicionalistas e não permitir qualquer espaço para novas vozes. Falei com um desses “representantes culturais” que apenas comentaria alguma de suas postagens fartamente enviadas às redes sociais se ela fosse verdadeira. Até agora, não houve comentários meus. Como podem propagar tanta mentira? É arte e artimanha para conquistar o espaço político artificialmente, descobrimos isso quando (re)aprendemos a usar as redes e as ruas para fortalecer a democracia (https://patrialatina.com.br/a-democracia-digital-vai-as-ruas/).
O despertar das nações e dos povos deve se dar contra esse retrocesso político representado por grupos que se disfarçam por meio de um conjunto grande de denominações (autocrata, fascista, neofascista, extremista, extrema direitista, ditador), mas que se resumem à manifestação do poder da mentira sobre a realidade a fim de defender uma miríade de interesses aparentemente díspares, mas que passam a ser congregados. Os interesses deletérios à ordem social vão do poder econômico – obviamente o mais intenso e atuante de todos –; o poder religioso que se disfarça de bem aventurança e defesa da família, da vida e dos bons costumes; a liberdade de trabalho, que passou a ser vendida com a ilusão de prosperidade – por isso as bets convivem de perto com esse grupo –; e a tal da liberdade de expressão, quando são defendidos exatamente a extinção das liberdades dos outros e o clamor por uma falsa simetria de direito à propagação dos ditames fascistas e correlatos.
No entreguerras do início do século passado, a Europa viu a ascensão do nazi-fascismo que nos levou a grupos que preconizam a extinção do outro como fundamento para o próprio domínio territorial, econômico e social. Se refluído no pós-guerra, o nazi-fascismo voltou à tona com o uso de outra ferramenta de comunicação em massa que são as redes sociais e a tecnologia a elas associada. Mesmo com alívios locais e regionais, continuemos em combate.
*Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp e membro de instituições culturais do interior paulista