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sexta-feira, 6 novembro 2026

Financeirização neoliberal dá calote popular e derruba presidente do Paraguai

César Fonseca

O colapso financeiro escandaloso do Ueno Bank, do Paraguai, é o fato, politicamente explosivo, mais importante que abala o continente sul-americano sob o impacto da nova Doutrina Monroe americana, afetada, agora, pela derrota eleitoral do presidente Donald Trump, nos Estados Unidos.

O estrondo financeiro paraguaio, segundo a imprensa paraguaia, teve origem na pura especulação financeira: o próprio banco organizou empréstimos de 74 milhões de dólares para empresas ligadas a ele, mesmo, integrantes de um consórcio empresarial, em transações que envolveram agentes laranjas variados para tentar enganar as autoridades monetárias.

A movimentação do dinheiro nos diversos vasos comunicantes das transações financeiras ligadas a um mesmo processo endógeno acabou gerando insuficiências de fundos capazes de cobrir os saques dos correntistas, quando estes foram retirar seu dinheiro depositado no Ueno Bank, em face da desconfiança popular generalizada na instituição financeira nas últimas semanas.

Diante da verificação da inexistência de fundos, a crise de inadimplência produziu a explosão social junto a mais de 3 milhões de correntistas – a metade da população paraguaia –, que levaram o calote espetacular mais estridente da história bancária da América do Sul.

O resultado escandaloso gerou imediata queda do presidente da República, Santiago Peña, acionista do próprio banco, configurando gestão presidencial-empresarial em causa própria, ou melhor, em favor do Grupo Vasquez, do qual faz parte, responsável pela gestão de patrimônio de 850 milhões de dólares.

Literalmente, a população está sem dinheiro para bancar suas despesas diárias, capazes de garantir sua sobrevivência.

Com o afastamento do presidente corrupto, em mais alto grau, o Congresso paraguaio está reunido extraordinariamente, nesta quinta-feira, para decidir pelo impeachment dele, com consequente, subida do vice, Pedro Alliana, que, também, encontra-se sob suspeita, mas protegido pelo seu partido, o Colorado, que, há 70 anos, domina o poder no Paraguai.

Configura-se, portanto, quadro político institucional bichado de alto a baixo pela corrupção financeira especulativa neoliberal, que caracteriza a governabilidade do financismo nas economias sul-americanas, satélites da macroeconomia ditada por Wall Street, desde os anos de 1980, quando emergiu o Consenso de Washington.

PARAÍSO FISCAL SUL-AMERICANO

O Paraguai, nos últimos quinze anos, transformou-se no porto seguro das elites empresariais e financeiras sob o atrativo irresistível segundo o qual trabalha com política econômica pautada em  carga tributária baixa como fator de sedução de investidores, fugitivos do pagamento de impostos.

Por isso, a economia paraguaia virou paraíso fiscal, especialmente, para os capitalistas latino-americanos, brasileiros em particular, fugitivos do que acusam existir, no Brasil, elevada carga tributária, embora, tal carga seja suavizada por generosas isenções de impostos – calculadas em mais de R$ 800 bilhões/ano –, fatores principais do desajuste fiscal, que impulsiona juros altos especulativos fixados pelo Banco Central, tensionando geral a economia nacional.

Na prática, trata-se de compensar, para os capitalistas, queda da taxa de lucro, gerada pela existência de baixo poder de compra decorrente do salário mínimo insuficiente, o mais baixo na América do Sul, segundo a Cepal.

DERROCADA TRUMPISTA ATROPELA PARAGUAI

O estouro financeiro no Paraguai, com repercussões em toda a América do Sul, pode produzir desestabilizações perigosas na região, exceto se o governo paraguaio, fiel aliado de Donald Trump, for salvo por emergencial injeção de dólares, algo, agora, improvável, depois da fragorosa derrota do trumpismo nas eleições parlamentares, nos Estados Unidos.

Talvez, seja difícil, para o presidente americano, promover socorro emergencial ao aliado paraguaio, diante de um Congresso no qual ele perdeu maioria, tanto na Câmara como no Senado.

As circunstâncias emergentes podem produzir incógnitas políticas, se o colapso financeiro paraguaio induzir, como é previsível, fuga de capitais do país, no novo contexto econômico decorrente do colapso da financeirização econômica paraguaia.

Trata-se de mais uma dor de cabeça para o governo americano, que estava projetando, sob o guarda-chuva da Doutrina Monroe, instalar bases militares no Paraguai, para ampliar sua influência geopolítica continental, para barrar a China, no continente, projeto que pode sofrer revezes, se a população revoltada com o calote neoliberal, fragilizar o Partido Colorado, fiel aliado de Washington.

O colapso neoliberal paraguaio é uma pancada a mais na cabeça da ultradireita continental, na sequência da sua derrota no Brasil.

No geral, sobram preocupações para a economia brasileira, que, também, está sob o impacto da financeirização econômica neoliberal, contra a qual o presidente Lula se articula, nesse momento, para impedir que o prejuízo generalizado causado pelo rentismo especulativo, impulsionador maior do desajuste fiscal no Brasil.

Afinal, ele é o responsável principal pelas taxas elevadas de juros, bancadas pelo BC Independente, sob pressão da Faria Lima, cujas consequências são precarização geral dos salários, do consumo, da renda, da produção e da arrecadação, deteriorando o silogismo capitalista brasileiro.

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