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Postado em 30/10/2015 10:14

Maior surto de dengue da história leva hospitais e serviços de saúde de Nova Déli ao colapso

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Luís A. Gomez | Calcutá – Opera Mundi
Com mais de 14 mil doentes somente em 2015, epidemia tem sido ampla em seu alcance social e revela as carências do sistema de saúde da capital indiana

Nova Déli é uma cidade turbulenta e de clima temperado, subtropical. Em 2014, houve 995 casos de dengue hemorrágica na capital da Índia, com pessoas sofrendo febres altas e dores de cabeça. Mas, apesar da centena de mortes que a enfermidade deixou, o risco não parecia grande. Até que, no último mês de setembro, os hospitais começaram a encher com doentes de todas as idades e classes sociais. Em menos de quinze dias, passaram de algumas centenas para mais de 6 mil os casos registrados de dengue.

Os doentes não foram a notícia, no entanto, mas os hospitais. Os serviços de saúde públicos começaram a colapsar, obrigados, inclusive, a reprogramar cirurgias para poder atender a epidemia com todos os médicos disponíveis. E nas instituições privadas, que também receberam mais pacientes com dengue do que o normal, a notícia foi a recusa em receber doentes pobres ou a exigência de pagamentos adiantados, o que é punível pela lei indiana.

Curtis Palmer / Flickr CC

Cartaz alerta para o perigo da dengue em Agra, na Índia: epidemia tem atingido pessoas de todas as idades e classes sociais

No fim de setembro, um detalhe particular demonstrou a emergência: mais de 15 médicos tinham sido afetados pela doença em um único hospital. O vírus da dengue é contraído por picadas de mosquitos e não pelo contato com doentes. Uma inspeção técnica mostrou que, em mais de um hospital, havia larvas de mosquitos e alta exposição à picada do Aedes aegypti, a espécie que transmite o vírus. O uso de inseticidas e de pulverizações aumentou.

Ciência e construção

Sendo uma doença endêmica em climas quentes, a dengue é estudada amplamente em países tropicais como o Brasil e a Índia, onde estão menos de 10% dos casos anuais da dengue (foram 2,4 milhões em 2010, de acordo com a Organização Mundial da Saúde). Como muitas doenças, o vírus da dengue (em suas quatro variedades) se transformou em um mal principalmente urbano e os cientistas começaram a estudar a resistência dos mosquitos aos inseticidas e às pulverizações mais comuns.

Dessa forma, um grupo de pesquisadores brasileiros demonstrou, em março do ano passado, que o Aedes aegypti começou a desenvolver uma resistência eficaz contra os diversos tipos de inseticidas. Na pesquisa, realizada em Boa Vista (Roraima) durante um surto de dengue e coordenada pelo biólogo Rafael Maciel de Freitas, do Instituto Oswaldo Cruz, ficou demonstrado que, apesar do uso constante de químicos para eliminar ovos, larvas e a população adulta, “os níveis de infestação de mosquitos caíram pouco”.

Nessa linha, uma equipe de cientistas indianos, coordenada pelo pesquisador B. N. Nagpal, tem trabalhado há alguns meses com um conhecido atraticida (um químico que inibe o crescimento do mosquito). Aplicando o C21 em três cidades distintas da Índia, conseguiram resultados positivos em duas delas. Na terceira, Déli, não houve alteração notável na população de mosquitos. Os cientistas do Instituto Nacional de Pesquisa da Malária determinaram que, de toda forma, o uso de C21 era eficaz para conter a população de Aedes aegypti.

Talvez os pesquisadores não contassem com a possibilidade de a capital indiana prover o ambiente ideal para que os mosquitos proliferassem por todo lado: o chamado boom das construções. Para o inseto, que se reproduz somente em água limpa e ataca de dia, os tanques e reservas de água potável instalados em todas as construções em Déli foram chave.

Carlos Bassan/ Prefeitura de Campinas

Agentes avaliam presença de larvas do mosquito em Campinas: estado de São Paulo tem quase metade dos casos no Brasil esse ano

Assim, no complexo habitacional de Paras Tierea, ao sul da capital, a vida começou a deixar de ser um paraíso de classe média há menos de um mês. Dezenas de residentes desses “lares de sonho”, como anuncia a publicidade da construtora, contraíram dengue e pelo menos dois faleceram. Como em muitas outras metrópoles da Índia, esse desenvolvimento urbano não está totalmente terminado, faltam edifícios por completar, nos quais as autoridades sanitárias encontraram mosquitos.

Epidemia juvenil e urbana

A epidemia tem sido ampla em seu alcance social e revela as carências do sistema de saúde na Índia. Assim, morreu um jovem estudante de 20 anos, filho de um médico que trabalha em um dos institutos mais prestigiosos em Déli. Ou Aman Sharma, que tinha seis anos: o médico que o atendeu em uma clínica privada negou que tivesse dengue e o menino morreu por não receber tratamento contra a desidratação a tempo.

A morte de Avinash Raut, de sete anos, continua sendo o caso que mais repercutiu dessa epidemia. No último mês de setembro, a criança se queixou de febre e dores de cabeça. Seus pais, trabalhadores migrantes pobres, o levaram a uma clínica privada que lhes negou o tratamento adequado. Durante alguns dias, a saúde de Avinash pareceu estável, mas uma manhã piorou e quando por fim um hospital público lhe acolheu era tarde demais. Seus pais se suicidaram alguns dias depois, pulando do teto da sua escola. “Não é culpa de ninguém. Foi nossa decisão”, deixaram escrito.

Cartilha distribuída em Délhi informa sobre a dengue

Cartilha distribuída em Délhi informa sobre a dengue

O que é certo é que em Déli, onde os regulamentos para a construção não têm medidas para prevenir a infestação de mosquitos, o número de doentes e de mortos continua aumentando. A propósito, em uma das várias disputas entre o governo local e o governo central da Índia, o orçamento para atacar a dengue e prevenir desastres foi congelado por um conflito legal sobre quem pode dispor do dinheiro e como isso deve ser feito.Em meio à explosão de casos, a corte suprema do distrito determinou, há duas semanas, que a prefeitura, comandada por Arvind Kejriwal (primeiro prefeito de um partido popular) poderia usar pelo menos parte desse dinheiro para diminuir o problema. De fato, Kekriwal estabeleceu 55 “clínicas de febre”, pontos de atenção básica, mas não conseguiu ajudar a deter a epidemia e decidiu analisar uma oferta chinesa para utilizar machos estéreis e assim provocar uma queda na população de mosquitos.

Enquanto isso, a epidemia continua. Entre os dias 23 e 24 de outubro foram registrados 639 novos casos, levando o total de 2015 para 14.246 pessoas registradas com dengue, a cifra mais alta da história. A segunda cidade mais populosa do mundo, com pouco mais de 25 milhões de habitantes, parece ser o novo epicentro de uma praga, ainda que continue longe de ter o enorme número de casos que são registrados no Brasil.

Até o momento, em 2015, o Brasil registrou mais de 1,4 milhões de casos, quase a metade deles no estado de São Paulo. Já há um número recorde de mortes, 693, e quase 60% delas aconteceu nas cidades paulistas, um eixo de crescimento urbano e desenvolvimento habitacional. Diferentemente da Índia, segundo um comunicado do Ministério da Saúde, a maioria das vítimas brasileiras tinha mais de 60 anos.

Na Índia, mais de 222 mil lares estão sendo desinfetados. Inclusive, há uma ordem na capital que permite que os funcionários forcem sua entrada nas casas para fumegar o lugar. Mas ninguém declarou estado de emergência ou epidemia. Oficialmente, há mais doentes do que o normal, mas nada além disso. Os projetos de urbanização seguem sua marcha.

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