Por Moisés Mendes, em seu blog :
A entrevista de Lula ao Jornal Nacional teve os 40 minutos concedidos a todos os candidatos. Com um detalhe que não é irrelevante: mais da metade do tempo, nos exatos 21 minutos iniciais, foi dedicado a um interrogatório num ritmo acelerado, para que o presidente não tivesse tempo para pensar.
Não foi assim como os que antecederam o presidente no JN, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos. Lula não foi entrevistado. Foi interrogado por Cesar Tralli e Renata Vasconcellos.
Depois de insistir nas suspeitas em torno de Fábio Luís e do lobista do empréstimo ao ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, de Jaques Wagner e do caso Master e de Carlos Lupi nas fraudes do INSS, Renata Vasconcellos disse que passaria a perguntar sobre a questão fiscal.
Fecharam o cerco sobre ‘escândalos’ e passaram à pauta de interesse de Faria Lima, onde mais de 40 fintechs foram flagradas como máfias a serviço da lavagem de dinheiro do PCC. Mas Lula transformou o interrogatório num show de agilidade mental, números, comparações com governos anteriores e vitalidade física.
Bem-humorado, Lula disse, quando a pauta mudou para as questões que importam para o mercado financeiro, que até ali se sentiu como se estivessem no Ministério Público. Foi uma tentativa fracassada de massacre, para que o presidente fosse visto como réu, como já aconteceu outras vezes. Mas não funcionou.
Lula se referiu à imprensa como cúmplice da Lava-Jato e lembrou que as corporações de mídia nunca pediram desculpas pelos erros que cometeram. Lamentou que os entrevistadores não conheceram ou não admitiram a melhoria das contas públicas. Lembrou que pegou o Brasil quebrado e em dívida com o FMI e que hoje o país tem mais de US$ 370 bilhões em reservas em moeda forte.
Se dependesse apenas das diretrizes do Jornal Nacional, o brasileiro ficaria sabendo muito de contas públicas e nada dos compromissos de Lula com o povo: em manter e ampliar os programas sociais, em preservar o ganho real do salário mínimo, em continuar mantendo a inflação e aumentando o nível de emprego.
A dupla de entrevistadores do JN não queria saber nada das grandes questões de economia que importam para as pessoas, porque os números que Lula iria exibir são desfavoráveis à sabotagem do mercado, da direita, do bolsonarismo e dos jornais.
Tralli e Renata não tocaram na redução dos preços dos alimentos e na queda recorde do desemprego, porque são pautas que interessam ao povo, e não à Globo e à Faria Lima.
Se dependessem apenas da conversa com a bancada do JN, os brasileiros também não ficariam sabendo por que Lula tomou a decisão de enfrentar a fúria fascista de Trump, com a imposição de sua política de defesa da soberania nacional.
Os entrevistadores nada perguntaram a Lula sobre questões fundamentais para a melhoria da vida do brasileiro e fugiram da pauta do tarifaço de Trump, armados em conluio com os filhos de Bolsonaro.
Lula disse ao final que vive o seu melhor momento da “passagem pela Terra”, fechando a que talvez tenha sido a sua grande entrevista à Globo desde o primeiro mandato. Aos 80 anos, foi uma atuação histórica.
Mesmo que pouco ou nada tenha conseguido falar sobre o que é importante para a maioria, desmontou a armadilha dos interrogadores e mostrou que parece hoje mais disposto e forte até do que em 2002. Lula passou a certeza de que vai ganhar de novo.
(Será esse o tom que Tralli e Renata manterão na entrevista com o candidato da extrema direita nessa sexta-feira?)


