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sexta-feira, 28 agosto 2026

Lula 2026: Candidatura em um novo contexto

Por Frei Betto

Lula lançou sua quarta campanha para a presidência do Brasil no estádio Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, local das históricas assembleias dos metalúrgicos no final da década de 1970 e início da década de 1980. Prestes a completar 81 anos, ele busca seu quarto mandato, repetindo pela segunda vez a fórmula eleitoral com Geraldo Alckmin como seu vice-presidente.

Mais do que uma mera formalidade, o evento em São Paulo destacou a estratégia de uma campanha que busca equilibrar a defesa de seu legado com um olhar atento às novas demandas do país.

Lula baseia sua campanha nas conquistas de seu atual governo. Em seu discurso, afirmou que o Brasil voltou a crescer, com a economia ultrapassando os três por cento, algo inédito desde seu primeiro mandato. A esperança é que a memória da prosperidade e do bem-estar social da década de 2000, aliada às iniciativas recentes, faça a diferença.

Para o próximo governo, Lula apresenta prioridades que refletem uma mudança de rumo em comparação com as campanhas anteriores:

• Educação e cuidados com os idosos: questões de grande impacto social que revivem a tradição do Partido dos Trabalhadores (PT) de implementar políticas para proteger minorias e grupos vulneráveis.

• Indústria de defesa e soberania nacional: uma mudança significativa no tom. O discurso adquiriu nuances geopolíticas; Lula mencionou a necessidade de estar preparado para evitar uma possível invasão do país.

• Controle de elementos de terras raras: outro ponto estratégico sem precedentes. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais, essenciais para a tecnologia e a energia limpa. A promessa é garantir que esses recursos permaneçam sob controle nacional, refletindo uma abordagem de nacionalismo econômico.

• Soberania e política externa independente: Este é o foco central, uma resposta direta às tarifas e tensões com os Estados Unidos. O plano defende o fortalecimento da defesa nacional, a autonomia tecnológica e digital e a rejeição de “alinhamentos automáticos”.

• Revisão do sistema de emendas e modernização do Estado: O programa critica as emendas parlamentares (*)—que em 2026 totalizaram quase 56 bilhões de reais (mais de 10,8 bilhões de dólares)—e as considera uma “séria distorção” do orçamento. A proposta consiste em debater um novo modelo de orçamento participativo com a sociedade.

• Continuidade dos ajustes econômicos: A estrutura fiscal atual permanece em vigor, mas a equipe econômica está trabalhando nos bastidores em um pacote de ajustes para o primeiro ano. Isso inclui a revisão dos gastos obrigatórios, dos benefícios sociais (como o BPC**) e da fórmula de ajuste do salário mínimo — todos considerados temas sensíveis.

• Agenda trabalhista e social: O plano inclui a promessa de pressionar no Senado pelo fim da semana de trabalho de seis dias seguida de um dia de folga (escala 6×1) e pela redução da semana de trabalho para 40 horas, além da criação de um sistema de proteção para trabalhadores em aplicativos e plataformas digitais.

• Desenvolvimento e neoindustrialização: O foco está na inovação, na IA e nos minerais críticos para agregar valor e reduzir as vulnerabilidades externas. O foco no setor do agronegócio tornou-se mais estratégico, destacando sua importância econômica para a balança comercial.

Essa agenda, ao combinar questões sociais com uma abordagem de desenvolvimento de viés nacionalista, reflete uma tentativa de atrair eleitores além da base tradicional. Ela defende causas como a soberania — em resposta à pressão externa — e o protecionismo, exemplificado pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos.

A possibilidade de Lula ser eleito é um dos temas mais debatidos na política brasileira. Os números iniciais pintam um cenário favorável, ainda que desafiador. As pesquisas indicam que, tanto no primeiro quanto no segundo turno, Lula lidera a intenção de voto sobre seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (Partido Liberal – PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse resultado demonstra sua força eleitoral atual, especialmente considerando a turbulência política e o legado do governo anterior.

Além das pesquisas, sua popularidade atual é um barômetro crucial. Três fatores formam o núcleo da estratégia eleitoral de 2026:

1. Alívio financeiro: O programa de renegociação da dívida “Desenrola 2.0” e o aumento do limite de isenção do imposto de renda (para quem ganha até 5.000 reais, cerca de 970 dólares) elevaram o moral da classe média e dos setores mais pobres; 55% dos brasileiros aprovam essas medidas.

2. Alterações trabalhistas: a proposta de reduzir a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais (mantendo o mesmo salário) é popular e atraiu até mesmo eleitores mais conservadores, que veem a medida com bons olhos.

3. Estabilidade econômica: a percepção de uma economia em recuperação – impulsionada pelo crescimento do PIB e pela diminuição do pessimismo em relação ao futuro – reforça a narrativa de que o país está de volta aos trilhos.

Com o início oficial da campanha em 16 de agosto, a vantagem de Lula sobre a oposição — aliada a uma estratégia de governo focada em resultados práticos — será reforçada pela exposição de Flávio Bolsonaro. Os eleitores serão lembrados de episódios como as irregularidades na gestão dos salários de seus assessores (rachadinhas***) quando era deputado estadual no Rio; as homenagens prestadas a membros de milícias e aos assassinos da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes; sua subserviência às diretrizes do governo Trump; e seus laços com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro — investigado por lavagem de dinheiro e dono do então Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em 2025 devido a um rombo multimilionário causado pela emissão de carteiras de empréstimos fraudulentas e títulos irregulares.

(*) As emendas parlamentares são parcelas do orçamento público que os parlamentares e senadores destinam ao financiamento de obras, serviços e projetos nos estados e municípios. Os órgãos de fiscalização exigem maior rastreabilidade e critérios técnicos na aplicação e auditoria dos recursos transferidos.

(**) O BPC (Benefício Contínuo) é a garantia de um salário mínimo mensal pago pelo governo a pessoas com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência de qualquer idade que comprovem baixa renda.

(***) “Rachadinha” é o nome popular dado à apropriação ilegal, por políticos, de parte ou da totalidade do salário de seus assessores, pago com verbas públicas. Um político ou funcionário público contrata um empregado para seu gabinete, e o empregado é obrigado a devolver uma fração do valor recebido (ou mesmo o salário integral) ao político ou a uma pessoa por ele designada.

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