Por Jorge Petinaud Martínez
Correspondente-chefe na Bolívia
A declaração de Claure veio após a divulgação de detalhes de uma reunião secreta realizada em 9 de julho em Las Palmas, departamento de Santa Cruz. Marcos Bulgueroni, Doria Medina e ex-ministros discutiram os setores de evaporito, gás e agronegócio, além de um sócio argentino da multinacional especializada em lítio Ausenco.
“Há meses venho clamando por unidade. Agora não há tempo a perder. Apoio @SDoriaMedina como o próximo presidente da Bolívia porque ele sabe como criar empregos, liderar a economia e servir o país”, escreveu Claure em sua conta no Twitter.
Anteriormente, o programa “Detrás de la Verdad”, do canal privado DTV, abordou a alegação de que o candidato presidencial Doria Medina teria oferecido lítio e gás do país em troca do apoio de Claure.
A fonte afirmou que uma reunião secreta teria sido realizada em 9 de julho no bairro de Las Palmas, na casa de Jorge Arias Lazcano. A denúncia foi feita pela Deputada Nacional Deisy Choque, que antecipou que Claure apoiaria a candidatura de Doria Medina, antes mesmo de o empresário oficializá-la.
Em entrevista ao programa Detrás de la Verdad (Por Trás da Verdade), Choque disse que o apoio à candidatura de Samuel Doria Medina nas eleições de 17 de agosto inclui a entrega do lítio boliviano, que houve outras negociações em relação ao gás e também em relação à questão do agronegócio.
“Estamos preocupados com esse tipo de reunião, que, claro, demonstra um senso de subserviência, mas também de intervencionismo por parte deste empresário argentino (Bulgueroni)”, afirmou o parlamentar. Choque exigiu que Doria Medina esclarecesse quais acordos ele tem com Marcelo Claure e seu sócio, Bulgueroni.
REUNIÃO SECRETA
Segundo Junior Arias, apresentador do “Detrás de la Verdad”, estavam presentes no encontro o candidato à presidência, seu candidato a vice, José Luis Lupo, dono da casa, e o representante e sócio de Marcelo Claure, Bulgueroni, que, segundo a fonte, viajou da Argentina para a Bolívia exclusivamente para o encontro.
Os meios de comunicação identificaram Bulgueroni como um executivo da Panamerican Energy Corporation, uma empresa de investimento em lítio no Chile, Argentina e outros países da região.
Nesse contexto, Doria Medina, José Luis Lupo e seus assessores prometeram a Bulgueroni que entregariam o lítio, o gás e a agroindústria a Claure e seus parceiros, com a condição de que ele apoiasse publicamente o candidato presidencial.
Segundo Arias, o encontro foi confirmado pela candidata a vice-presidente Lupo, que não deu mais detalhes.
Behind the Truth mostrou a publicação de um veículo de comunicação chileno, na qual são mencionados Claure e Bulgueroni, que percorreram o Salar del Hombre Muerto em janeiro do ano passado.
A fonte considerou esse detalhe como uma confirmação de que Claure e Bulgueroni são parceiros em projetos de lítio.
Ao mesmo tempo, enfatizou Arias, o proprietário da casa de reuniões participou do fórum organizado por Claure no final de maio na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com a presença dos candidatos presidenciais Eva Copa, Doria Medina e Manfred Reyes Villa.
Também estavam presentes os candidatos à vice-presidência Lupo e Juan Pablo Velazco, do partido Aliança Livre, liderado pelo ex-presidente Jorge Tuto Quiroga.
Em 2023, a Claure adquiriu uma participação de 35% na Ausenco, a maior empresa de engenharia e projetos de mineração do mundo, com o objetivo de expandir para os setores de lítio e cobre. Assim, investiu na transição energética com uma participação majoritária na empresa australiana.
A Bolívia tem as maiores reservas certificadas de lítio do mundo, com 23 milhões de toneladas.
PRECAUÇÃO DE UM SAQUE
O analista econômico boliviano Martín Moreira afirmou que o apoio do empresário Marcelo Claure ao candidato Doria Medina é um prelúdio para um novo ciclo de pilhagem de recursos naturais como o lítio.
“O apoio de Claude a Doria Medina pode esconder algo muito mais sombrio: o prelúdio de um novo ciclo de pilhagem, disfarçado com retórica sobre modernidade, eficiência e livre iniciativa (…)”, opinou Moreira.
O editor do jornal digital Encuentro Económico também afirmou que “(…) já sabemos como essa história termina. O povo boliviano presenciou e sofreu privatizações, a entrega do gás, da água, do estanho e do petróleo. Hoje, querem fazer o mesmo com o lítio.”
Ele alertou que o povo de Potosí, e todos os bolivianos que um dia sonharam com o lítio como alavanca para o desenvolvimento, precisam abrir os olhos. “Não podemos permitir que alguns se enriqueçam enquanto condenamos o país ao extrativismo servil (…)”, disse.
Ele disse que o apoio de Claure a Doria Medina não é apenas um movimento político, mas sim uma expressão clara de um plano maior: tomar o poder na Bolívia (…).”
Ele enfatizou que, por trás do suposto “sonho empresarial” de Claure de construir um país “mais eficiente”, cresce a suspeita de um projeto político-econômico que responde mais a interesses privados do que ao bem-estar nacional.
“Esse apoio poderia ser explicado pelo fato de Samuel Doria Medina já ter negociado discretamente a entrega do lítio boliviano como matéria-prima aos mesmos grupos econômicos que atualmente disputam o país do exterior?”, concluiu o analista econômico.