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quinta-feira, 15 janeiro, 2026

Invasão da Venezuela: ameaça real ou operação de guerra psicológica?

La Plata, Argentina (Prensa Latina) Uma combinação de declarações de altos funcionários dos EUA, medidas tomadas pelo presidente Donald Trump e supostos movimentos de tropas no Caribe dispararam alarmes em toda a região: a Casa Branca estava planejando invadir a Venezuela e derrubar o governo bolivariano?

Por Héctor Bernardo*

Colaborador da Latin Press

Para entender por que tal hipótese não era irracional, vale a pena dar uma rápida olhada no relacionamento histórico dos Estados Unidos com a região, examinando seus laços com o processo bolivariano, os interesses dos EUA na Venezuela e as ações recentes de Washington.

O “QUINTINHO”

Em 2 de dezembro de 1823, o então presidente James Monroe fez um discurso ao Congresso delineando a nova política externa dos Estados Unidos. Essas diretrizes são conhecidas como a “Doutrina Monroe”. Uma doutrina resumida em uma frase: “América para os americanos”.

Os Estados Unidos haviam decidido que, daquele dia em diante, a América Latina e o Caribe seriam sua zona de influência direta. Por essa razão, fariam o que fosse necessário para controlar e administrar tudo o que passasse do sul do Rio Grande até a Terra do Fogo. Para atingir seus objetivos, não descartariam nenhum método.

INTERVENÇÕES MAIS IMPORTANTES DOS ESTADOS UNIDOS

– 1846: Os Estados Unidos entraram em guerra com o México. Como resultado, a guerra resultou na anexação da Califórnia, Texas, Arizona, Novo México, Nevada, Utah e parte do Colorado.

– 1898: Interveio na Guerra da Independência de Cuba e invadiu a ilha.

– Também em 1898 e durante esse mesmo processo, ele conseguiu a anexação de Porto Rico, Guam e Filipinas.

– 1903: Interveio militarmente no Panamá para garantir a separação da Colômbia e o controle do futuro Canal.

– 1912: Invadiu a Nicarágua e ocupou-a militarmente até 1933.

– 1915: Invadiu o Haiti e, sob o pretexto de estabilizar a situação no país, manteve a ocupação até 1934.

– 1916: Ocupação militar da República Dominicana e manutenção do controle militar até 1924.

– 1954: Invadiu a Guatemala e derrubou o presidente Jacobo Árbenz.

– 1961: Mercenários treinados e financiados pela CIA tentaram invadir Cuba com um desembarque (fracassado) em Playa Girón.

– 1965: Interveio militarmente na República Dominicana para apoiar o golpe contra o presidente Juan Bosch.

– 1983: Os Estados Unidos invadiram Granada sob o pretexto de estabilizar a situação política naquele país.

– 1989: Sob o pretexto de prender o general Manuel Noriega, que havia sido acusado por um tribunal dos EUA de tráfico de drogas, os Estados Unidos invadiram o Panamá.

A tudo isso, devemos somar o apoio ou a promoção da maioria — ou de todos — os golpes de Estado ocorridos no Cone Sul durante o século XX. Entre eles, o que demonstrou mais claramente o envolvimento dos EUA por meio de sua Agência Central de Inteligência (CIA) foi o golpe contra Salvador Allende no Chile em 1973.

A cumplicidade americana com todas as ditaduras estabelecidas pela Doutrina de Segurança Nacional imposta pelos EUA também foi claramente destacada durante a Operação Condor.

A OBSESSÃO PELA VENEZUELA

Desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1999, os Estados Unidos têm trabalhado constantemente para desestabilizar o processo bolivariano e forçar uma mudança de regime (para introduzir um regime mais alinhado com seus interesses).

Os principais momentos dessa política intervencionista contra a Venezuela foram o golpe de estado de abril de 2002 (que durou apenas 48 horas), o golpe do petróleo de 2002-2003 e os distúrbios de 2014 e 2017 (que deixaram mais de 200 mortos).

Também o decreto assinado pelo então presidente Barack Obama em 2015, no qual ele declarou a Venezuela “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança dos Estados Unidos”; e a tentativa de assassinato do presidente Nicolás Maduro em 2018.

Em 2019, durante seu primeiro governo, Donald Trump emitiu uma série de ordens executivas, incluindo algumas proibindo empresas americanas de comprar petróleo venezuelano.

Ele impôs sanções a empresas não americanas que negociavam com o estado venezuelano, o que — de acordo com autoridades do governo bolivariano — reduziu a renda do país de US$ 55 bilhões para apenas US$ 500 milhões, impactando todo o desenvolvimento econômico.

Em maio de 2020, o governo venezuelano frustrou a Operação Gideon, quando um grupo de mercenários liderados por ex-Boinas Verdes (membros das forças especiais dos Estados Unidos) tentou assassinar o presidente Nicolás Maduro e outras autoridades. Ataques e sabotagens contra usinas de energia, realizados por mercenários ou grupos ligados à extrema direita financiada pelos EUA, ocorreram em 2006, 2009, 2012, 2021 e 2022.

Alguns analistas afirmam que há evidências suficientes para adicionar a essa lista a morte do próprio líder bolivariano Hugo Chávez, que morreu em março de 2013 de câncer que eles alegam ter sido induzido.

Da mesma forma, o uso de fundações e organizações não governamentais (ONGs) financiadas pelo National Endowment for Democracy (NED) e pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) para canalizar dinheiro para ações de desestabilização e golpistas tem sido uma constante.

SEDE DE PETRÓLEO

O maior consumidor mundial de petróleo são os Estados Unidos, com 19 milhões de barris por dia (Fonte: OilPrice.com).

O país com as maiores reservas comprovadas de petróleo é a Venezuela, com 303,8 bilhões de barris, muito à frente da Arábia Saudita e do Irã (Fonte: Bloomberg Linea).

Um fato óbvio, devido à distância, é que transportar petróleo venezuelano para refinarias dos EUA por navio representa uma viagem muito mais curta — e, portanto, muito mais econômica — do que enviá-lo de países árabes.

Especialistas explicaram que uma parcela significativa das refinarias norte-americanas desenvolveu sua tecnologia para trabalhar com petróleo venezuelano, cujas características não são as mesmas do petróleo extraído de outras partes do mundo. Portanto, elas teriam que fazer um investimento significativo para modificar sua tecnologia caso decidissem trabalhar com outros tipos de petróleo.

Tudo isso — entre outros elementos não detalhados aqui — faz da Venezuela um ator fundamental nos interesses geopolíticos dos Estados Unidos.

DAS PALAVRAS ÀS AÇÕES

Neste contexto complexo do relacionamento histórico dos Estados Unidos com a América Latina e o Caribe, dos interesses específicos dos EUA na Venezuela e da atual situação geopolítica, ocorreu a cadeia de declarações que começou em 7 de agosto.

A procuradora-geral dos EUA, Pamela (“Pam”) Bondi, anunciou que “o Departamento de Justiça e o Departamento de Estado anunciaram uma recompensa histórica de US$ 50 milhões por informações que levem à prisão de Nicolás Maduro”, a quem ela acusou de ser o maior traficante de drogas do mundo, liderar o “Cartel dos Sóis” e ter ligações com “El Tren de Aragua” e “El Cártel de Sinaloa”.

No dia seguinte, 8 de agosto, de acordo com o The New York Times, o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma ordem executiva instruindo as Forças Armadas dos EUA a combater cartéis de drogas, inclusive em solo estrangeiro.

Após várias declarações altissonantes do Secretário de Estado Marco Rubio, da Secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, do Procurador-Geral Bondi e de alguns legisladores, em 14 de agosto a mídia começou a espalhar informações de que Washington estava enviando 4.000 fuzileiros navais, três navios de guerra e um submarino nuclear para o Mar do Caribe, coordenados pelo Comando Sul, para combater grupos de narcotraficantes.

A cadeia de eventos fez soar o alarme em toda a região. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum e o presidente colombiano Gustavo Petro rejeitaram rapidamente qualquer tipo de ação militar contra a Venezuela.

Os países membros da ALBA-TCP denunciaram as ações dos EUA e pediram o fortalecimento da declaração de 2014 da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), que declarou a América Latina e o Caribe uma zona de paz.

Em Caracas, o povo se manifestou em defesa de sua soberania, seu governo e da paz. As Forças Armadas Bolivarianas e membros da Assembleia Nacional também declararam seu apoio ao presidente. O presidente Maduro pediu a formação de milícias operárias e camponesas em defesa da soberania do país.

Em declarações à PIA-Global, Juan Eduardo Romero, deputado nacional pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), declarou: “Tudo parece ser uma operação de guerra cognitiva. Uma tentativa de fazer com que elementos das Forças Armadas ou da sociedade venezuelana tentem alguma ação que promova uma mudança de regime”, disse ele.

Romero afirmou que eles ativaram todos os mecanismos de defesa: fortalecimento da segurança, deslocamento territorial, mobilização popular e milícias populares. Ele citou o libertador Simón Bolívar e afirmou que “povos livres derrotam impérios poderosos”.

*Héctor Bernardo: Jornalista, escritor e professor de Introdução ao Pensamento Social e Político Contemporâneo na Faculdade de Jornalismo e Comunicação Social da UNLP. Membro da equipe da PIA Global.

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