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sexta-feira, 6 novembro 2026

Ditadura e atentados da extrema-direita militar

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Emiliano José

Tento caminhar para o encerramento dessa digressão, não sei se uma intromissão descabida numa série a girar em torno da morte e da vida, e não tenho certeza de que o farei hoje. Nessa reta final, quero discutir rapidamente, e sem quaisquer pretensões de encerrar o assunto, a movimentação de milhões de pessoas a garantir a eleição do presidente Lula. Decididamente, um acontecimento novo na conjuntura, um sopro inovador.

A extrema-direita não necessitou movimentações de massa para fazer valer as reinvindicações dela no decorrer dos 21 anos de ditadura. Ela era o poder. Durante os primeiros anos do regime militar, chegou a se assanhar devido ao avanço da luta de massas, culminando com os intensos movimentos de 1968. Cabe duas ou três palavras sobre o ano de 1968, primeiramente.

Naquele ano, houve ataques ao mundo da arte e da cultura, especialmente de esquadras fascistas, abrigadas na sigla Comando de Caça aos Comunistas (CCC), como a agressão violentíssima às atrizes e atores da peça Roda Viva, em São Paulo e Porto Alegre.

Tal entidade terrorista atacou também a Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antônia, centro de São Paulo, causando a morte do secundarista José Carlos Guimarães, atingido na cabeça por um tiro oriundo da Universidade Mackenzie, de onde provinham os ataques do CCC.

Houve muitas e muitos estudantes feridos, trato disso em livros meus sobre o período. Falo destacadamente da secundarista cearense Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira, cujas pernas foram queimadas com ácido jogado pelos anticomunistas do Mackenzie.

O regime militar reprimiu também com todo vigor  movimentações operárias, notadamente as de Osasco, em São Paulo, e de Contagem, em Minas Gerais.

Havia ainda, no entanto, até aquele ano, uma tentativa de manter alguma legalidade, não deixar escancarada a ditadura. A Constituição de 1967, inteiramente tutelada pelos militares, representava esse esforço – era o gato escondido com o rabo de fora.

Podia piorar? Podia.

Com o AI-5, cessa tudo que a antiga musa canta. A repressão se agiganta e ganha cores de terror. A extrema-direita no poder, com a característica singular de ser encarnada pelos próprios generais, comandantes da violência, responsáveis principais pelo banho de sangue em que mergulharam o Brasil.

Dessa maneira, não há como fugir de tal conclusão: a ditadura detinha o poder exclusivo de valer-se do arbítrio, navegar sequestrando, prendendo pessoas, à margem de qualquer legalidade, torturando-as, matando-as, fazendo-as sumir num rabo de foguete, desaparecer, certa da impunidade.

No Brasil marcado por “transições por cima”, pelas quais são preservados os integrantes do velho regime, os generais tinham razão para se acreditarem impunes.

Depois de 1968, com o AI-5, há a radicalização da ditadura, especialmente nos governos Médici e Geisel, não obstante este fosse o patrocinador da chamada distensão lenta e gradual, como chamada pelo próprio Geisel o ensaio de abertura pretendido por ele. Pretendido até certo ponto: ele próprio irá dizer, está documentado, ser necessário continuar a matar, e ele continuou.

Quando João Baptista Figueiredo assume, em 1979, a ditadura, como decorrência de muita luta, já dava sinais de enfraquecimento. Curiosamente, é com Figueiredo a aceleração da distensão lenta e gradual, e é sobretudo no governo dele a irrupção da extrema-direita do regime militar, se isso é possível, e demonstrou ser.

A extrema-direita extremada, desculpem esse tipo de ênfase, se incomodou com a abertura, queria ditadura ad aeternum, e tentou torpedeá-la com ataques a bancas de revista, atentado à OAB, no Rio de Janeiro, ocasionando a morte da secretária da entidade, Lyda Monteiro, atentado do Rio-Centro, a provocar a morte dos dois militares encarregados do ato terrorista, só para lembrar alguns episódios. O movimento de tais terroristas havia começado no governo Geisel, mas ganhou intensidade com Figueiredo, às portas do fim do regime.

A Campanha das Diretas, nos anos 1983/1984, uma das maiores movimentações de massa da história do Brasil, senão a maior, foi uma espécie de canto do cisne do regime militar. Não obstante derrotada no Parlamento, tal campanha deu sinal inequívoco do profundo desgaste, do evidente declínio da ditadura.

Em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves, terminava a ditadura, sem, no entanto, a anistia de 1979 ter deixado a porta aberta para a punição dos torturadores. Preservava-se a extrema-direita militar, amplo senso. Deixada intacta para futuras tentativas golpistas.

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