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sexta-feira, 24 abril 2026

EUA: um país falido que esconde a própria queda

Foto: Deny Campos/Arte/ND

Wellington Calasan – Correspondente na Europa

A insolvência do governo dos Estados Unidos não é exagero retórico, mas realidade contábil confirmada pelos próprios relatórios do Tesouro para o exercício fiscal de 2025: ativos de US$ 6,06 trilhões contra passivos de US$ 47,78 trilhões.

Quando se incluem as obrigações não financiadas de programas sociais, como Previdência e Medicare, o rombo alcança US$ 136,2 trilhões — aproximadamente cinco vezes o Produto Interno Bruto anual do país.

Enquanto a grande imprensa ignora solenemente esses documentos, o Government Accountability Office emite, pelo vigésimo nono ano consecutivo, parecer de ressalva sobre a fidedignidade das contas federais, evidenciando falhas crônicas de gestão, sobretudo no Departamento de Defesa.

Traduzindo esses números para a linguagem do cotidiano, a situação assemelha-se a uma família que aufere US$ 52 mil anuais, gasta US$ 73 mil e acumula dívidas superiores a US$ 1,3 milhão.

Essa deterioração acelerada — quase US$ 2 trilhões apenas entre 2024 e 2025 — revela um modelo fiscal insustentável, no qual o crescimento da dívida e dos juros a pagar consome recursos que deveriam ser destinados a investimentos sociais e infraestrutura.

A ausência de debate público qualificado sobre esse colapso iminente sugere que as elites políticas e midiáticas preferem adiar o inevitável, transferindo o ônus para as futuras gerações.

Nesse contexto de caos financeiro, conflitos armados assumem função de entretenimento estratégico, desviando a atenção coletiva. Antes de anúncios presidenciais sobre negociações com o Irã, investidores privilegiados movimentaram US$ 580 milhões em contratos de petróleo, lucrando com a volatilidade artificialmente provocada.

A guerra, assim, transforma-se em espetáculo midiático e instrumento de acumulação financeira, enquanto populações vulneráveis, como nas Filipinas, enfrentam emergência nacional devido à disparada dos combustíveis, com o diesel dobrando de preço e protestos massivos eclodindo nas capitais.

A pressão sobre nações do Golfo para integrarem o conflito ilustra como o imperialismo terceiriza riscos: enquanto Estados Unidos e Israel conduzem bombardeios, espera-se que aliados regionais arquem com os custos humanos e materiais, apesar de suas infraestruturas críticas — dessalinização, energia, portos — estarem ao alcance de retaliações assimétricas.

O envio de unidades expedicionárias e a cogitação de ocupação de ilhas estratégicas no Estreito de Ormuz parecem mais gestos simbólicos do que operações militarmente decisivas, reforçando a tese de que a beligerância serve, antes, para manter mercados aquecidos e narrativas de poder do que para alcançar objetivos geopolíticos claros.

Diante desse quadro, urge reconhecer que a crise fiscal estadunidense e a instrumentalização de conflitos não são fenômenos isolados, mas faces de um mesmo modelo em esgotamento.

Propostas como a criação de uma comissão fiscal bipartidária ou emenda constitucional que limite o crescimento dos gastos federais representam caminhos técnicos possíveis, mas dependem de vontade política hoje ausente.

Sob uma ótica descolonizada, cabe questionar por que nações do Sul Global devem continuar subordinando suas economias e soberanias a um centro imperial que, incapaz de ordenar suas próprias finanças, exporta instabilidade sob o véu de “segurança global”.

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