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quarta-feira, 27 maio 2026

Dominado por Rússia e China, rota do Ártico está longe de tensões e pode ser alternativa a Ormuz

© Sputnik / Valery Melnikov

Sputnik – O extremo norte do globo vê novas rotas marítimas se abrindo com o derretimento da camada de gelo do Ártico, encurtado a distância entre a China e a Europa. Pequim tem aproveitado a oportunidade e expandido sua atuação na região.

Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik BrasilGabriele Hernandez, doutora em estudos estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que a rota “não é tão nova assim”, mas a descreve como uma oportunidade para “tirar toda a dependência das rotas comerciais do estreito de Ormuz”, sobretudo em momentos de conflito, como o que atravessa o Oriente Médio atualmente.

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Oito Estados estão presentes no Ártico: Islândia, Dinamarca, Rússia, Estados Unidos, Noruega, Suécia, Finlândia e Canadá. Eles compõem o Conselho Ártico. Entretanto, a China é quem tem feito uso intenso dessa rota marítima, denominando-se como um Estado “quase ártico”.

“A China, que é o maior produtor de manufaturados do mundo e precisa fazer escoamento de mercadoria, trouxe a ideia de uma nova rota em parceria com a Rússia, escoando os produtos não só pela Ásia, pela África, mas por cima, pelo Ártico, o que a gente chama de ‘nova Rota da Seda polar'”, afirma a pesquisadora.

A parceria entre Moscou e Pequim é altamente sustentável e vantajosa para ambas as partes, conforme Letícia da Luz, mestranda em estudos marítimos da Escola de Guerra Naval (EGN). Enquanto o lado russo se beneficia do investimento em infraestruturas, a China encontra facilidade ao ter acesso direto a petróleo. Há uma “assimetria nessa relação entre China e Rússia, mas os dois países caminham juntos pelo mesmo objetivo, que é escapar desse cerco ocidental”.

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Por outro lado, quem não se beneficia tanto dessa parceria, segundo Hernandez, são os Estados Unidos, “que não querem a ampliação do escopo de atuação dos seus inimigos”.

“O Ártico ficou um pouco esquecido nos últimos anos, principalmente com as tensões voltadas para outras regiões, e a China conseguiu crescer nessa região junto com a Rússia. Os EUA perceberam essa falha, mas já havia ocorrido o crescimento maior desses países nessas regiões”, acrescenta a doutora.

As pesquisadoras explicam que o trânsito na região é sazonal, sendo maior em períodos de verão ártico. Atualmente o tráfego é, em grande parte, controlado pela Rússia, uma vez que 50% do oceano Ártico está no território russo, com dois portos no perímetro.

“A Rússia acaba tendo essa vantagem de ter os quebra-gelos, usados como escolta de outros tipos de navio, petroleiros, navios comerciais“, comenta Luz. Com isso, Moscou desenvolveu expertise na região e adquiriu vantagem na navegação do Ártico em comparação aos demais países.

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Nos últimos 12 anos, de acordo com Luz, o trânsito cresceu quase 400% no Ártico, e Moscou já utiliza a rota para escoar petróleo. “Isso prova que a logística para grandes petroleiros já é uma realidade, não é mais apenas uma promessa. A rota já é operacional e está se expandindo cada vez mais para fazer esse escoamento”, analisa.

Ela ressalta que a rota pode, sim, ser uma alternativa, mas não a principal passagem. Segundo Hernandez, o caminho pelo Ártico pode, também, beneficiar a Índia, através de uma parceria com a Rússia.

Para o Brasil, que também compõe o BRICS, a região polar não se apresenta como uma oportunidade interessante, sobretudo pela questão geográfica. Luz destaca que “o Ártico ainda não seria uma rota muito viável, porque a gente faria uma viagem muito grande” para exportar petróleo.

Nesse sentido, para um país que precisa exportar seu petróleo bruto, o estreito de Ormuz ainda é prioritário. “Uma rota alternativa seria o cabo da Boa Esperança”, mas “aumenta o tempo de viagem, o custo e tudo mais”, completa.

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