A antropologia abriu uma questão nos últimos anos. Com a presença de fósseis espalhados pela África e pela Ásia, datados de dois milhões de anos, onde precisar o nascimento do homem?
Antropólogos também se questionam sobre a biologia ou a cultura para definir o homem: “homo erectus” ou “homo sapiens”? E as já percebidas miscigenações entre seres em formação: Sahalanthropus, Orrorin, Ardipithecus, Australopitecus, Kenyanthropus, Paranthropus, em diversos ambientes geográficos, savanas, desertos, mais ricas e de quase inexistente biodiversidade?
A “Mater et Magistra”, Carta Encíclica do Papa João XXIII (15 de maio de 1961), se apresentou como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Mas o atual pontífice Leão XIV nos questiona – “Magnifica Humanitas”, 25 de maio de 2026 – se permaneceremos humanos no futuro da inteligência artificial.
A RAZÃO
Vamos sair, por enquanto, da vinculação unicamente religiosa, para conhecer o trabalho do médico, neurocientista e pesquisador paulistano Miguel Ângelo Laporta Nicolelis (27 de março de 1961), e o fazemos com seu livro “O Verdadeiro Criador de Tudo – como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos” (2020).
E Nicolelis nos adverte logo no início de seu trabalho: “a humanidade enfrentará nos próximos anos, em decorrência de nossa interação e da nossa dependência cada vez maiores em relação aos sistemas digitais, estabelecendo verdadeira simbiose que pode afetar profundamente o cérebro, por meio da plasticidade neural”.
O que significa “Plasticidade Neural”? Responde-nos a Inteligência Artificial: “é a capacidade notável do cérebro e do sistema nervoso de se adaptar e modificar sua estrutura e função, em resposta a novas experiências, aprendizados ou até mesmo lesões”, e prossegue: “O cérebro faz isso através de três mecanismos principais: (1) Sinaptogênese: criação de novas conexões (sinapses) entre os neurônios; (2) Fortalecimento ou poda sináptica: conexões usadas com frequência se fortalecem, enquanto as menos utilizadas são descartadas (processo natural conhecido como esquecimento) e (3) Neurogênese: formação de novos neurônios em certas áreas do cérebro”.
Retomemos a questão dos antropólogos: biologia ou cultura? Ambos. A vida se faz de agregações, não de exclusões. Nicolelis cita o antropólogo e psicólogo britânico Robin Dunbar (1947): “o córtex superdimensionado nos dotou de capacidades mentais que nos permitem lidar com um grupo social formado por aproximadamente 150 indivíduos”.
Ora, se há uma evolução que distingue os pequenos grupos de australopitecos de outros, compostos de 150 pessoas, separados por dois a três milhões de anos, podemos inferir uma evolução crescente, que a inteligência artificial apenas colocou a matemática de Claude Shannon (1916-2001) em destaque. Evidentemente que a complexidade crescente do ser humano não se reduziu à cultura e à biologia.
Para não nos alongarmos, fiquemos com a “informação gödeliana”, também batizada por Nicolelis, a partir dos trabalhos do lógico tcheco Kurt Gödel (1906-1978), que tratam da informação contínua e analógica, e não daquela descrita em termos matemáticos, como por Shannon.
Afirma Nicolelis: “a informação gödeliana embutida na cadeia linear proteica manifesta-se diretamente durante o processo físico natural de torção que gera a estrutura tridimensional da proteína. O mesmo processo, quando abordado em termos de lógica digital, pode se tornar não tratável ou não computável, o que basicamente significa que nenhuma predição confiável da estrutura tridimensional da proteína em questão pode ser feita a partir da cadeia linear de aminoácidos que a define. Essa é a razão pela qual nos referimos à informação gödeliana como sendo de natureza analógica, em vez de digital, porque sua manifestação integral depende de um processo contínuo de transformação da estrutura orgânica, de um sistema biológico dependente das leis da física e da química e não pode ser reconstruída nem copiada por um algoritmo rodando em um computador digital”.
O PAPA E A ENCÍCLICA
Leão XIV nasceu e criou-se em Illinois (EUA) com nome de Robert Francis Prevost e completará, em 14 de setembro próximo vindouro, 71 anos de idade. Tornou-se frade agostiniano em 1977 e foi ordenado sacerdote em 1982. Nomeado pelo Papa Francisco, no consistório de 30 de setembro de 2023, recebendo o título de Cardeal-Presbítero de Santa Mônica.
Sua cidadania estadunidense o fez acompanhar a decadência dos Estados Unidos da América pelas derrotas nas guerras, após a II Grande Guerra (1939-1945), na Coreia, no Vietnã, no Afeganistão, e, mais recentemente, na Ucrânia e no Irã, na derrota tecnológica, comercial-econômica frente à República Popular da China (China) e ver a fé cristã praticamente desaparecer no Ocidente, com domínio neoliberal hedonístico. O protagonismo chinês não o incomoda apenas pela questão da nacionalidade, mas por ser um país onde mais de 90% da população se declara ateia.
Com a Rerum Novarum (15/5/1891) do longevo romano Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci-Prosperi-Buzzi (1810-1903), Papa Leão XIII, a Igreja Católica Apostólica Romana dava, finalmente, sua resposta ao Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, de 21/2/1848. Estava criada a Doutrina Social da Igreja, que se consolidou em diversas encíclicas ao longo do século XX.
Surgia não mais no campo social mas no campo tecnológico, com Claude Shannon, em 1949, em parceria com o também matemático, Warren Weaver (1894-1978), “The Mathematical Theory of Communication”. Estava criada não mais uma questão social, mas nova forma de expressão humana, a digital. Mas esta também iria interferir, crescentemente, na vida das pessoas, seria um importantíssimo instrumento político.
A Igreja Católica dá sua contribuição ao debate com o Papa Leão XIV e a encíclicaMagnifica Humanitas, que trata de salvaguardar a pessoa humana da escravidão tecnológica, de colocar limites éticos diante do avanço da “inteligência artificial”, das maiores e mais influentes corporações de tecnologia do mundo (Big Techs).
É a tradução da velha disputa entre capital e trabalho que se atualizou com o ingresso da Mater et Magistra.
Leiamos na recente Encíclica:
“A empresa mostra-se imponente: uma única língua, uma única tecnologia, uma única direção. Todavia, o projeto esconde uma profunda insídia: é uma obra pensada sem referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em vez da comunhão, opta pela homogeneização. Quando a cidade se edifica sobre o orgulho e a pretensão de se bastar a si mesma, a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se e os seres humanos deixam de se compreender. O resultado não é a unidade, mas a dispersão”.
“Hoje, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos enganadores: a ilusão duma técnica que promete libertar-nos de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que “deixam para trás” povos inteiros. Não raro, depositamos a esperança num aperfeiçoamento sem limites, em formas de progresso que podem exacerbar as desigualdades, em soluções imediatas incapazes de curar as feridas dos povos. Então, enquanto alguns perseguem a quimera de uma autoafirmação ilimitada, muitos continuam sem o essencial. A Igreja recorda – com voz humilde, mas firme – que a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos”.
“ENQUANTO PENSAMOS EM ANOS O INCONSCIENTE PENSA E VIVE EM MILÊNIOS”
A frase com que concluímos estas reflexões é atribuída ao suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), criador de alguns dos mais conhecidos conceitos psicológicos. Ela nos remete ao gênio brasileiro Miguel Nicolelis e seu livro citado onde se lê:
“a dinâmica cotidiana do sistema financeiro mundial escapou ao controle de qualquer ser humano ou instituição de fiscalização, passando a ser dirigida, única e exclusivamente, por uma guerra virtual não declarada entre um número razoável de supercomputadores que disputam a supremacia dos mercados mundiais, agindo como prepostos digitais de um reduzido grupo de vice-reis humanos que assistem a essa feroz disputa a distância, tendo perdido qualquer compreensão do novo ecossistema econômico”.
O Brasil vive hoje, 2026, a realidade escravista e desumana da união dos Vorcaros com os Bolsonaros e os Alcolumbres e Ministros da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Para estes, prepostos dos gestores de ativo, que trabalham as máquinas pensantes.
Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado, membro do Conselho Editorial do PÁTRIA LATINA.
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