– Um acordo a cem anos não é um contrato: é uma hipoteca geracional.
Andrés Giussepe [*]
Há uma imagem que se repete sempre que a Venezuela negocia o seu petróleo sob pressão: a assinatura é celebrada em Washington ou no Truth Social antes mesmo de o país ter conhecimento dos seus termos. Foi o que aconteceu a 28 de agosto de 2026, quando Donald Trump anunciou “o maior acordo petrolífero da história mundial”: controlo maioritário dos Estados Unidos sobre mais de 65 000 milhões de barris de reservas venezuelanas, concessões por cem anos a uma empresa privada aliada do seu próprio governo e uma Delcy Rodríguez a agradecer o gesto como se fosse um resgate e não uma cessão.
Não é a primeira vez que vendem isto à Venezuela como se fosse um presente. É, quase palavra por palavra, a mesma promessa que foi feita há um século.
A memória que querem fazer esquecer
Em 1943, sob a ditadura de Isaías Medina Angarita, foi aprovada a primeira Lei dos Hidrocarbonetos, que regulamentava as concessões petrolíferas estrangeiras em troca de uma maior participação fiscal para o Estado. Foi então apresentada como um triunfo da soberania face ao regime de concessões ainda mais leoninas herdado de Juan Vicente Gómez. Oito décadas depois, a nacionalização de 1976 assentou precisamente na ideia de que o subsolo não se negocia por prazos que excedam a vida daqueles que o negociam.
Um acordo a cem anos não é um contrato: é uma hipoteca geracional. Ninguém que o assine hoje estará vivo para prestar contas quando ele vencer. Isso, por si só, deveria bastar para que qualquer cidadão — chavista, da oposição ou indiferente — exija saber o que foi assinado e em nome de quem.
O que o anúncio não diz
Rodríguez fala de 17 campos, de 100 mil milhões de dólares em investimento e de 209 mil milhões em impostos futuros. São números feitos para soarem bem num comunicado, não para serem auditados. Ninguém mostrou o contrato completo. Ninguém explicou como foi calculado esse “mais de 50%” que Washington atribui a si próprio do valor da operação, nem com base em que fórmula o petróleo venezuelano chegará “ao custo” à Reserva Estratégica dos Estados Unidos, enquanto o país que o produz continua a sofrer de escassez de combustível nos seus próprios postos de abastecimento.
Essa assimetria não é um pormenor técnico: é o resumo completo do acordo. Os Estados Unidos duplicam as suas reservas comprovadas sem gastar um dólar dos seus contribuintes, segundo as próprias palavras de Trump. A Venezuela, entretanto, entrega o ativo e recebe a promessa de um investimento que ainda não chegou e de um imposto que ainda não é cobrado.
O preço de negociar sem comparações
Nenhum país sério negocia o seu principal recurso estratégico sem comparar alternativas. Não houve concurso internacional, não houve outros concorrentes, não havia forma de saber se a Chevron, alguma petrolífera árabe ou um consórcio asiático teriam oferecido melhores condições. Negociou-se com um único comprador, que, além disso, é a mesma potência que apoia politicamente o governo signatário.
Isso não é diplomacia energética: é negociar com a corda ao pescoço e chamar-lhe aliança estratégica. Países como a Noruega criaram fundos soberanos multimilionários porque nunca cederam o controlo do seu petróleo nem negociaram sob pressão com um único interveniente. A Venezuela, com reservas comprovadas superiores às da Arábia Saudita, faz exatamente o contrário: cede o controlo, aceita um único comprador e celebra isso como um renascimento.
O que realmente depende de nós
Não é preciso ser jurista para compreender o essencial: um recurso que pertence a todos os venezuelanos, presentes e futuros, está a ser comprometido por um século sem que a maioria desses venezuelanos tenha visto o contrato, se tenha pronunciado sobre ele ou tenha escolhido quem o assinou. A discussão não deveria ser se o acordo “traz investimento” — quase qualquer cessão traz investimento a curto prazo —, mas sim se a Venezuela recebeu o que o seu petróleo realmente vale e se alguma vez a decisão de o vender assim nos pertenceu.
A pergunta que cada venezuelano deveria fazer não é quanto promete o comunicado. É muito mais simples: quem nos representou naquela mesa e quem nos representará daqui a cem anos, quando chegar a altura de pagar a conta?
29/Agosto/2026
[*] Economista, doutorado em gestão, especialista em Política e Comércio Petrolífero Internacional, [email protected]
Ver também editorial do Tribuna Popular, órgão central do PCV:



