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sexta-feira, 24 abril 2026

Cobre chileno: entre barreiras e oportunidades

Fotos: Presidência do Chile

Santiago, Chile (Prensa Latina) A decisão dos Estados Unidos de impor tarifas de 50% sobre o cobre está criando incerteza no Chile, o maior produtor mundial do mineral vermelho, mas também representa uma oportunidade para diversificar as exportações.

Por Carmen Esquivel

Correspondente-chefe no Chile

Segundo dados da Subsecretaria de Relações Econômicas Internacionais, o cobre liderou a lista de produtos mais exportados em 2024, com vendas superiores a US$ 50,155 bilhões.

A Ásia responde por mais de 70% dessas compras totais, sendo a China o principal destino, com 52,1%, enquanto os Estados Unidos recebem apenas 11 a 12% do produto refinado.

Por isso, especialistas consideram limitado o impacto das tarifas que o presidente dos EUA, Donald Trump, planeja aplicar ao mineral a partir de 1º de agosto.

Por outro lado, a demanda pelo metal não diminuirá porque ele está presente em praticamente todos os setores: construção civil, indústria, transporte, telecomunicações, entre muitos outros.

Soma-se a isso seu amplo uso em novas tecnologias, desde dispositivos móveis, computadores, satélites e inteligência artificial até eletromobilidade e transição energética.

Nesse cenário, os analistas daqui acreditam que mais do que um problema, essa pode ser uma oportunidade para o Chile diversificar seu mercado e explorar outras possibilidades na Ásia e na Europa.

“O cobre que não vai para os Estados Unidos devido ao aumento de tarifas será facilmente vendido em outros lugares, como a Índia, que está experimentando um crescimento impressionante”, disse Joaquín Villarino, CEO do Conselho de Mineração, à televisão.

A NACIONALIZAÇÃO DO COBRE

Segundo o site Memoria Chilena, desde 1905, as principais jazidas de cobre do país eram exploradas pelo capital norte-americano, que constituíam “verdadeiros enclaves” dentro do território nacional.

A partir da segunda metade do século XX, a relação dessas empresas com o governo local foi marcada por sucessivas disputas sobre investimentos, preços e impostos.

Na década de 1960, as ideias sobre a recuperação dos recursos naturais ganharam força na América Latina, e o governo de Eduardo Frei Montalva (1964-1970) propôs uma nova política para o cobre conhecida como “A Chileanização do Cobre”.

Isso permitiu que empresas chilenas interviessem na propriedade e gestão da mineração em larga escala, por meio de parcerias com capital estrangeiro.

Mas o aumento dos preços e os altos lucros das corporações americanas reavivaram o debate aqui sobre a necessidade de nacionalização, que se materializou durante o governo do presidente Salvador Allende (1970-1973).

Em 11 de julho de 1971, o Congresso Nacional aprovou, por unanimidade, a recuperação integral do mineral vermelho, considerado a principal fonte de riqueza do país e seu principal recurso de exportação.

Falando no evento em comemoração ao 54º aniversário da nacionalização, o presidente Gabriel Boric lembrou a suspensão das exportações em portos ao redor do mundo e as tremendas sanções que o país enfrentou por tomar essa decisão democraticamente.

O presidente listou os benefícios da recuperação desse recurso e destacou que somente na última década o cobre contribuiu com nove por cento do Produto Interno Bruto, o que se traduz na construção de escolas e hospitais, e na expansão dos serviços de saúde, entre outras coisas.

Boric reafirmou que “a National Copper Corporation (Codelco) é estatal e continuará sendo 100% estatal” e que eles não permitirão que a empresa seja privatizada em nenhuma circunstância.

TARIFAS DE TRUMP

Em 8 de julho, o presidente dos EUA anunciou em sua rede Truth Social que imporia tarifas sobre o cobre, com base em uma lei de 1962 que autoriza o líder da Casa Branca a impor restrições se considerar que certas importações “ameaçam a segurança nacional”.

Nos Estados Unidos, o metal é usado em veículos elétricos, baterias e outros produtos, mas também na fabricação de aeronaves, munições e sistemas antimísseis, e Washington visa reduzir a dependência estrangeira.

Ao reativar sua guerra comercial, Trump também anunciou a imposição de tarifas sobre outros produtos que entram no país com o suposto objetivo de “proteger a indústria nacional e equilibrar a balança comercial”.

Assim, o governo americano começou a enviar cartas com os valores dos impostos para países como Japão, Coreia do Sul, Tailândia, África do Sul, México e União Europeia.

Numa intervenção descarada em assuntos internos, anunciou tarifas de 50% sobre o Brasil em razão do julgamento naquele país do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de promover uma tentativa de golpe.

O Chile, assim como outros países, não recebeu as notificações, mas impostos sobre produtos refinados são uma possibilidade.

Ao abordar o assunto, o presidente chileno manifestou seu repúdio aos obstáculos e penalidades impostas ao cobre e enfatizou que o mineral é essencial para substituir os combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Boric afirmou que seu país tem força institucional para enfrentar as contingências e os altos e baixos deste mundo turbulento.

Segundo o Itamaraty, o Chile retomará as negociações com os Estados Unidos entre 28 e 31 de julho, véspera da entrada em vigor da tarifa do cobre, para analisar, entre outros temas, barreiras comerciais.

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