Foto Mundo Educação (Arquivo)
Pedro Augusto Pinho*
AS RAZÕES DE 1930 E A REVOLUÇÃO NACIONALISTA
A Revolução de 1930 mais corretamente deveria ser denominada REVOLUÇÃO NACIONALISTA, pois foi até aquela data a única que se preocupou com o Brasil.
Nossa história também ainda não encontrou quem a narrasse corretamente. Que espécie de país descobriu o Brasil? Vamos nos valer de três historiadores, estudiosos do país denominado Portugal: Emílio Aquiles Monteverde (1803-1881), Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894) e António Sérgio de Souza Júnior (1883-1969).
Escreve Monteverde que “a terra hoje chamada Portugal está tão ligada com a Espanha que não é possível separá-la”. Realmente, ao final do século XI, a Península Ibérica estava ocupada, do centro ao sul, pelos muçulmanos, então denominados “mouros”, e ao norte por quatro reinos cristãos: Aragão, Castela, Leão e Navarra. Pelo ano 1080, Dom Afonso, rei de Leão e Castela, pediu ajuda aos países cristãos na luta contra os mouros. Foi atendido pelo francês Henrique, Duque de Borgonha, que veio a constituir, por seu filho Dom Afonso Henriques, a primeira dinastia das terras que se chamariam Portugal, a Afonsina. Mas foi na segunda dinastia, a de Avis (1385-1580), que o Brasil foi descoberto.
Oliveira Martins entende que Portugal não formou uma nacionalidade. A primeira dinastia tinha a influência francesa, e não se identificou com a população de Coimbra, Lamego, Viseu, Porto, Braga, Guimarães e outros condados e regiões que constituiriam Portugal, um presente de Dom Afonso ao genro Duque de Borgonha. António Sergio concorda com Oliveira Martins: “um dos grandes males da nação foi que a fidalguia não se enraizou nos seus campos, não exerceu um verdadeiro papel civilizador, antes se fez parasita do povo e do poder central”.
(Foto: tvescola.mec.gov.br)
Darcy Ribeiro (1922-1997), gênio brasileiro, antropólogo e político, escreve que o Brasil não surgiu de uma etnia, não se estruturou como nação, na verdade foi um indesejado e surpreendente subproduto de um empreendimento comercial religioso destinado a gerar lucro para Portugal, que, por sua vez, pagava à Inglaterra pelos constantes empréstimos.
Assim, o país que se formou nestes oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados, com as diversas populações indígenas que acolheram os portugueses e outros europeus, com as etnias africanas importadas como mão de obra escrava e pelos europeus que aqui vieram fazer fortuna, não constituiu uma identidade. E a tal ponto era alienada de uma nacionalidade que, ao proclamar-se independente de Portugal, em 1822, manteve o mesmo modelo de governança, o império, e com os mesmos monarcas portugueses, da dinastia dos Braganças, que vinham governando Portugal desde 1640, com Dom João IV, o Restaurador.
E os Braganças dirigiram o Brasil escravocrata até 1989, quando a insatisfação militar proclama a República. Dura pouco esta república. As cortes do Império, que formavam uma aristocracia tão distante do povo quanto os franceses do reino que criaram na Península Ibérica, constituem a Primeira República com latifundiários, financistas e representantes de interesses estrangeiros na administração do Brasil.
Os militares positivistas se revoltam na década de 1920, mas faltava-lhes uma liderança e um projeto de país que veio com a Revolução Nacionalista, conduzida por Getúlio Dornelles Vargas, em novembro de 1930.

As duas primeiras medidas de Vargas são exemplares. Tomando posse como Presidente do Governo Provisório em 3 de novembro cria, em 14 de novembro, o Ministério da Educação e da Saúde Pública, trazendo pela primeira vez, para a órbita do poder público, a educação e a saúde para todos os brasileiros, sem qualquer exclusão e sem ônus para população. Doze dias depois promove a verdadeira libertação dos escravos, com o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, colocando trabalho e capital na mesma igualdade participativa.
Fazer do filho de escravo um brasileiro igual ao filho de latifundiário e do banqueiro, e dar ao trabalho a mesma força política dos capitalistas foi demais. Pode-se dizer que, ao fazer a Independência efetiva do Brasil, Getúlio ganhou a oposição que o levaria à morte e impediria a governança nacional, até que uma gestão militar, com os tenentes que o levaram ao poder, governasse o Brasil. Mas as mesmas forças externas, agora sob o controle das finanças apátridas, novamente deram um golpe para assumirem a direção do Brasil, dando título de “redemocratização”.
Nos 45 anos de governo da “Redemocratização”, o Brasil retrocedeu de tal modo que só, após um século, com o povo insatisfeito, desempregado, pobre e doente nas ruas, promova a Segunda Revolução Nacionalista para prosseguir o trabalho de Getúlio Vargas na constituição da nação soberana e formadora de um povo cidadão.

O RETROCESSO DA NOVA REPÚBLICA E DA “REDEMOCRATIZAÇÃO”
Na década de 1970 o mundo conheceu o surgimento de dois processos radicalmente transformadores: a miniaturização e a virtualização. A partir de então novos recursos foram disponibilizados nas duas áreas mais sensíveis da civilização humana: da informação e da energia.
Façamos sumária recapitulação do Brasil após o Governo do General Geisel, ou seja, para enfrentar este novo mundo.
Na poderosa tecnologia da informação, sirvo-me da análise do professor Ivan da Costa Marques, ex-presidente da Cobra – Computadores Brasileiros, em “Minicomputadores brasileiros nos anos 1970: uma reserva de mercado democrática em meio ao autoritarismo” (2003).
Afirma Costa Marques: “no começo da década de 1980, o Brasil foi dos poucos países (apenas quatro) em que empresas sob controle local conseguiram suprir parte significativa do mercado interno de minicomputadores (ápice tecnológico da época) com marcas e tecnologias próprias. Equipes de engenheiros e técnicos brasileiros haviam absorvido a tecnologia de produtos originalmente licenciados e efetivamente conceberam e projetaram sistemas completos (hardware e software) de minicomputadores e diversos outros artefatos de computação, colocados no mercado por empresas brasileiras com sucesso econômico e técnico”. O sucesso técnico era medido pela capacidade de processamento (em mips), as capacidades de memórias RAM, ROM, de disco (em kbytes ou mbytes) e o número máximo de terminais (Paulo Tigre, Computadores Brasileiros: indústria, tecnologia e dependência, 1984).



