Foto HIU/Outras Palavras
César Fonseca
A Revolução Socialista Bolivariana, comandada por Hugo Chávez(1999-2013), que se estendeu com Nicolás Maduro(2013-2025), e, agora, está sob ataque cerrado do presidente fascista Donald Trump, sob pretexto de combater narcoterrorismo na América Latina, enquanto deixa correr solto o comércio das drogas nos Estados Unidos, nunca foi aceita pela esquerda social democrata ocidental, especialmente, latino-americana; Chávez, antes de morrer, defendia a realização de uma Quinta Internacional Socialista, para retomar a herança marxista-leninista-trotskista soviética, que havia caído com o muro de Berlim(1989), marco do início da globalização neoliberal.
O revolucionário Chávez, admirador de Getúlio Vargas, havia dado passo adiante na social democracia de Carlos Andrés Pérez(1974/79-1989/93), que, inicialmente, estatizou o petróleo na Venezuela e agendou pagamento de indenizações às petroleiras americanas, que exploravam o petróleo venezuelano; o líder militar revolucionário bolivariano trabalhou em cima de uma realidade dada, ou seja, já estava em curso a exploração petrolífera na Venezuela, o que não foi o caso de Getúlio, que o antecedeu, na Revolução de 1930, quando o petróleo, no Brasil, ainda não era uma realidade; mas, já em 1938, Vargas decretou o monopólio do produto, sem ter, ainda, o pleno desenvolvimento da indústria da extração, produção, refino e distribuição; a Petrobrás – e a Eletrobrás – nasceriam na era do nacional desenvolvimentismo trabalhista varguista, nos anos 1950; eis porque Getúlio Vargas foi um dos ídolos de Hugo Chaves.
O germe histórico da antipatia indisfarçada da esquerda social democrata latino-americana e brasileira, cooptada por Washington, quanto a Chávez tem origem distante: decorreria, no desenrolar da história, da propaganda espalhada pelo Partido Comunista, comandado por Josef Stalin, nos anos 1940, de que o nacionalista trabalhista Getúlio Vargas era nazifascista, uma mentira comprovada com aliança Vargas-Roosevelt para derrotar Hitler; lembre-se, para relevar o equívoco dos comunistas prestistas stalinistas, que tentaram derrubar Getúlio, em 1935, que Trotsky, então exilado, no México, sob governo nacionalista de Cárdenas, disse, em resposta à imprensa sobre o que achava de Vargas; o criador do Exército Vermelho soviético disse, na ocasião, que preferia o populista Getúlio do que a ordem imperialista inglesa, então dominante, por adotar governo nacionalista, antiimperialista, na América Latina.
Nos dias de hoje, Trotsky diria que Chaves era marxista-leninista-trotskista, o fenômeno populista decorria da fragilidade dos partidos burgueses latino-americanos, incapazes de ganhar credibilidade popular, sendo, portanto, o populismo nacionalista getulista e peronista mais adequados aos interesses populares; o velho partidão stalinista não entendeu o movimento histórico getulista; a esquerda, que a direita gosta, como dizia Darcy Ribeiro – os comunistas(PCB) e, posteriormente, os petistas sociais democratas lulista–, faria oposição ao trabalhismo nacionalista(Vargas, Goulart, Brizola), considerando-o pelego; engajaram-se, lamentavelmente, no jogo ingênuo do imperialismo americano, como fizeram, até agora, contra o chavismo socialista, cujo período histórico cobre os anos 1999-2025.
SEMPRE O PETRÓLEO
Era o mesmo jogo equivocado quanto ao que acaba de acontecer na Venezuela: golpe imperialista para tomar petróleo latino-americano; o imperialismo e sua Doutrina Monroe(1823), potencializada pela pregação de Theodore Roosevelt(1901-09), de dar golpes de estado para defender interesses das empresas norte-americanas, em toda a América Latina, conseguiu alienar, completamente, a esquerda social democrata, para barrar o socialismo, ao obrigá-la a conciliar com o capitalismo; é o que ocorre na era globalista neoliberal(1991-2025), agora em crise, no cenário da financeirização especulativa.
Trump repete/prossegue na perseguição às tentativas socialistas na América Latina; Tio Sam jamais perdoaria Fidel Castro e os revolucionários cubanos, que, em 1956, enxotaram os capitalistas da Ilha, sob governo fantoche de Fulgêncio Batista, para instalar o regime socialista; de lá para cá, persiste a paranoia anticomunista, que, por exemplo, alimenta o bolsonarismo fascista; há mais de 65 anos, Washington impõe o bloqueio comercial a Cuba, como faz, agora, com a Venezuela, estacionando forças americanas na costa marítima, no Caribe, de onde articulou a derrubada de Maduro.
O golpe contra o presidente venezuelano, herdeiro de Chávez, é isso aí: evitar avanço do socialismo do século 21, concebido pela revolução chavista, de modo a impedir, a ferro e fogo, a generalização de possíveis quedas do regime capitalista no continente.
A social democracia latino-americana, cooptada por Washington, engoliu a propaganda de que Chávez e Maduro são ditadores, quando, na verdade, durante os governos de Chávez(1999-2013) e de Maduro(2013-2025) ocorreu a mais avançada conscientização política latino-americana, depois da revolução cubana; somente por meio de violentas sanções econômicas determinadas pelo imperialismo americano foi possível barrar o avanço do socialismo chavista do século 21, comandado pelo PSUV – Partido Socialista Unido da Venezuela –, estruturado como força política cívico-militar, ancorada na potência econômica do petróleo, que, diga-se, Trump ainda não conseguiu derrubar.
PIRATARIA IMPERIALISTA SOBRE CHAVISMO
Nesse período histórico(1999-2025), o chavismo venezuelano tem sido alvo de sequestros de suas reservas monetárias e minerais(ouro/dólares roubado pelos bancos internacionais), o que não impediu que fossem realizadas eleições democráticas ao longo dos últimos 26 anos, sempre contestadas pela mídia pró-Washington; a propaganda midiática imperialista disseminada pelo império, contaminando todo o espectro midiático global, especialmente, na América Latina, dobrou a esquerda social democrata no sentido de convencê-la de que tanto Chaves, quanto Maduro, não passaram de reles ditadores; Chaves teve a sorte de conviver com o preço do petróleo valorizado acima dos 120 dólares o barril, o que lhe permitiu avançar em programas sociais e econômicos; mas, Nicolás Maduro, na sequência(2013-2025), teve que enfrentar a baixa na cotação, que chegou a 40 dólares o barril, lançando-o no abismo econômico, enquanto era obrigado a suportar, concomitantemente, as sanções imperialistas.
RESISTÊNCIA SOCIALISTA HERÓICA
Passado o vendaval das oscilações dos preços do óleo – cuja oferta é controlada pela OPEP, da qual a Venezuela faz parte –, a economia venezuelana voltou a respirar, tendo que pagar o elevado preço da desorganização social que provocou maior surto de imigração da história latino-americana; no momento, porém, segundo as estatísticas da CEPAL, a Venezuela é o país que mais cresce na América Latina(9% em 2025), embora, graças às sanções econômicas impostas por Washington, esteja alijada do sistema de pagamentos internacionais(SWIFT), sem condições de possuir moeda nacional estável, valendo lá, o dólar como meio circulante predominante; foi, portanto, depois de todas as tentativas frustradas do império para dobrar – sem conseguir – o socialismo do século 21 chavista que o imperador Trump resolveu partir para a ignorância total, lançando o bombardeio sobre Caracas, em 03-01-2026, utilizando a tecnologia de vanguarda, movida pela cibernética, para sacar Maduro de uma base militar para levá-lo a julgamento em Nova York, sob acusação de crime de narcoterrorismo, sem provas disponíveis; a inexistência de provas, aliás, já faz Trump mudar de ideia, deixando de lado a acusação lançada a Maduro de narcoterrorista, evidenciando que tudo não passa de farsa barata para assaltar o petróleo venezuelano; são com as reservas petrolíferas venezuelanas(302 bilhões de barris) que Trump pretende garantir lastro ao dólar, que está sob ameaça, desde que expirou o acordo de Jeddad, assinado entre Estados Unidos e Arábia Saudita, com duração de 50 anos(1974-2024), criando o petrodólar; sem este, os Estados Unidos estão expostos às crises financeiras especulativas, frente à moeda fiduciária deslastreada, meramente, especulativa; portanto, a verdade escondida por trás do golpe contra Maduro é o colapso do dólar sem lastro, exposto à concorrência implacável da China, aliada da Venezuela; Trump quer o petróleo venezuelano como novo lastro do dólar, diante do perigo da desdolarização, que acelera debacle capitalista americana.
DEMOCRACIA DESCARTÁVEL
O brutal ataque trumpista ao socialismo venezuelano do século 21 deixa clara a nova realidade mundial: a democracia, para o império, é uma fantasia descartável, que pode e deve ser rasgada quando está em causa o interesse imperial.
A esquerda comunista stalinista fantasiada de social democracia, no pós guerra, que caiu, depois da queda do Muro de Berlim, no conto do vigário da globalização neoliberal, agora, é obrigada a reconhecer que o ditador não é aquele que ela, enganosamente, elegeu – Vargas, Chaves ou Maduro –, mas o imperador de plantão: Donald Trump; munido das armas atômicas e da tecnologia cibernética, ele rasga a carta da ONU, desfaz o conceito de autodeterminação dos povos e estabelece a lei do capital em crash: a força bruta imperial.