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Postado em 05/07/2021 11:50

Alencar: até breve, cabra da peste

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José Bessa Freire

¡Tanto amor y no poder nada contra la muerte! (César Vallejo, Masa, 1937)

Iara era, então, um povoadozinho com cerca de 30 casas de taipa, duas ou três de tijolo e 120 moradores. Foi lá que nasceu, em 1937, Francisco Joaquim de Alencar, cuja infância foi marcada por banhos nas águas límpidas do rio Carás, no qual nadavam peixes e até jabutis, antes de ser poluído por esgotos. Uma vez por ano a família percorria 60 km de estrada carroçável a Juazeiro do Norte (CE) para rezar pro meu Padim Padre Ciço. Numa dessas, Alencar não retornou. Ingressou no seminário salesiano e, como todo arigó que se preza, veio parar no Amazonas. Antes de se ordenar padre, viu a Stella, se apaixonou, deixou o seminário e casou com ela, com a Tequinha, cúmplice de minha infância.

Nove irmãs, todas vivas. Nove cunhados, quatro deles mortos, o último nesta quinta-feira em Manaus. Cunhado é parente? Sim, diz o Código de Processo Civil, é parente por afinidade. Tentaram mudar a lei. Leonel Brizola, impedido legalmente de se candidatar à sucessão de Jango, seu cunhado, lançou em 1963 a campanha: “Cunhado não é parente, Brizola pra presidente”. Felizmente não sou candidato a nada, assumo o parentesco com esse cabra da peste, que se tornou meu irmão, sepultado no cemitério Recanto da Paz, em Iranduba nesta sexta-feira, 2 de julho.

– Dois de julho brilha mais do que o primeiro, porque é o dia do bombeiro – ele costumava brincar, conforme contou Tequinha no enterro, cercada por filhos, netos e familiares, entre os quais duas irmãs e um irmão que assistiram à cerimônia via internet e se permitiram rir. Todos cantaram “Asa Branca”, a música predileta do nosso herói, perguntando a Deus do céu “por que tamanha judiação”?

As raízes: o Juáforró

Foi uma despedida serena e discreta. Nas redes sociais, ex-alunos expunham seus sentimentos: “Foi um professor querido que sempre tratava seus alunos com muita paciência e humor” – postou Regina Spener.

O primo Públio Caio escreveu em “Cinco minutos para Stella” que Alencar “ensinava língua portuguesa e em suas aulas dava ênfase de como deve ser o sujeito e seus predicados”. A intenção era que todos, ex-alunos e filhos, herdassem os predicativos do sujeito, suas qualidades, com a oração principal estabelecendo ligação de continuidade com a vida.

O artigo engenhoso lembra ainda que o ex-seminarista, quase padre, foi ministro da Eucaristia, levando a comunhão para muitas pessoas que não podiam se deslocar à igreja. Seguia o exemplo do Padinho Padre Ciço que rezou em 1871 a missa do galo em Tabuleiro Grande, nome antigo de Juazeiro do Norte, e ministrou o sacramento à Maria de Araújo, quando a hóstia se transformou em sangue. Esses fatos impregnaram a religiosidade popular que Alencar tanto admirava.

O casal costumava ir de férias ao Ceará, com passagem obrigatória por Juazeiro – centro da fé popular, sede da primeira escola rural do Brasil criada em 1934 e do Colégio Salesiano. Visitava a Pedra do Santo Sepulcro, lugar de reza e meditação do Padim Ciço, cuja estátua gigantesca domina a colina do Horto. Era uma forma de reafirmar a identidade Cariri.

Cada visita de turismo religioso permitia acompanhar o crescimento desordenado da cidade, os novos bairros que brotavam como mandacaru, o Cariri Shopping, a Universidade Patativa do Assaré (UPA), o VLT que liga Juazeiro ao Crato, o Aeroporto Regional do Cariri, a emissora local TV Verde Vale, o estádio do Praxedão, onde o Botafogo, seu time do coração, nunca jogou, mas observou também aquilo que restou da tradição renovada: os grupos folclóricos, a literatura de cordel, a festa junina do Juáforró, o Ceará Sporting Club. Alencar, nunca deixou de ser cabra da peste, sempre cultivou as raízes nordestinas, como mostram vídeos, onde ele dança quadrilha.

Tal pai

Um dia antes da morte de seu pai, o jornalista Fábio Freire Alencar escreveu um belo texto abaixo reproduzido, que elabora o quanto é universal a dor inexorável da perda.

“Como diria Suassuna, chegou a hora de encontrar-se ´com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre´. Mas, parafraseando São Paulo, diria que combateu o bom combate e guardou a fé.

“Meu pai, Francisco Joaquim de Alencar (o ‘professor Alencar’ como muitos chamavam), 84 anos completados no último dia 18 de junho, está internado na Beneficente Portuguesa, com falência renal e o pulmão tomado por uma bactéria teimosa que se recusa a ceder aos medicamentos. Está sob sedativos, sem forças para passar por uma diálise, apenas aguardando a hora de ‘mudar de casa’.

“Ele está partindo? Não sei se posso usar o verbo partir para me referir a alguém que nunca vai sair da minha mente. Ele não parte, ele se enraíza para sempre no meu coração, se funde, seremos agora um só. Ele me deu o dom da vida e cada vez mais será parte indivisível dela. Basta um rápido olhar no espelho e o que verei é sua criação, sua cópia, seu clone, seu caçula. Cada detalhe, cada ação do dia-a-dia (acordar, fazer o café, tomar banho, trabalhar, cuidar das filhas…) TUDO me dará motivos para lembrar dele.

“Ele, fisicamente falando, segue vivo, mas a saudade já é imensa, porque quem descansa no hospital já não é mais aquele nordestino cabra da peste brincalhão, caridoso e cioso de suas obrigações. Ainda que, por milagre, deixasse hoje aquela UTI, já não seria mais o ‘Dr. Alencar’ de outrora. Seria egoísmo demais de minha parte querer mantê-lo ao meu lado sem a qualidade de vida pela qual sempre prezou. Na última vez que trocamos olhares, ele já nem parecia me reconhecer. Olhar perdido no horizonte…E quem somos nós sem nossas lembranças? Filosoficamente, simplesmente ‘deixamos de ser’.

“Prefiro guardar na lembrança, como nosso último encontro, o dia em que me deixaram entrar pela primeira vez na UTI para vê-lo. Ele estava deitado, olhando para o teto e eu do outro lado do vidro, tentando entender o porquê daquela situação. O enfermeiro se aproximou e o fez olhar para o lado, onde eu estava. Ele me identificou e sorriu. Mandei um beijo e ele colocou também a mão sobre a boca e me devolveu o carinho. Ah, quanto amor, meu Deus…e quanta dor nesse momento.

“Agora é administrar as lembranças. Tudo me fará recordar, é inevitável. Então preciso trabalhar a mente para que a saudade não seja um veneno, mas sim doses homeopáticas de amor, que me ajudem a seguir em frente sabendo que cada passo em nossa trajetória valeu – e me preparar para o reencontro.

“Sempre te amei, sempre vou te amar, não importa a distância, não importa o plano. Obrigado por tudo, Dr. Alencar!”

Herói do cotidiano

Agora é administrar as lembranças: sobrinhas e sobrinhos reverenciaram o tio, destacando o seu humor e a sua doçura por trás da carapaça de cabra da peste, como fizeram Ana Ponciano, Maria José, Amaro Jr. e muitos outros.  As cunhadas, de quem eram parceiro de dominó, prantearam sua partida: – ele estará sempre em nossos corações – escreveu Preta.

Vários fatos desta semana mereciam, do ponto de vista jornalístico, uma abordagem da coluna: as lutas indígenas, as reviravoltas da CPI da COVID, os escândalos de corrupção que demonstram a putrefação cada vez mais fétida do genocida, as manifestações “Fora Bolsonaro” deste sábado, as revelações sobre as trapaças do governador do Amazonas Wilson Lima. Peço licença e desculpas, mas minha cabeça e meu coração estavam em outro lugar, focado no cabra da peste – um herói anônimo do cotidiano como existem tantos por esses Brasis.

Com seu desconcertante humor que a todos surpreendia e alegrava, Alencar leva com ele o seu amor pela Tequinha, filhos, netas e netos, o seu Ceará, o nosso Amazonas, o bairro de Aparecida, a sua fé, o seu amor pelo Botafogo e as suas lembranças que marcaram os nossos destinos. Te echaremos de menos, Hermano.

P.S. Francisco Alencar, casado com Maris Stella, pai de Silvio e Fábio, sogro de Mayara e Laisa, avô de Silvinho, Leila, Malu, Maria Clara e João Felipe.No ano em que ele nascia, o poeta César Vallejo escrevia seu poema MASA, no qual um dos versos reza: “Tanto amor e não poder nada contra a morte”. 

Ver também: 1)  MEU PAI É UMA FOTOGRAFIA – http://taquiprati.com.br/cronica/1105-meu-pai-e-uma-fotografia;

2) BYE BYE, BIBI –  http://taquiprati.com.br/cronica/1283-bye-bye-bibi

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