Acusação: Mau
Por Moisés Mendes, em seu blog
Os ditadores da América Latina têm o jornalismo das corporações. Houve até alguns donos de organizações de mídia que começaram a apoiar seus golpes, o que era a regra, e depois se dedicaram ao que viraram a ser mais atraentes: a defesa da democracia como arma para conter a intromissão dos militares em seus negócios e como oportunidade de mercado.
Ser democrata, mesmo que genericamente, foi charmoso e lucrativo no final do século 20. Eram os tempos dos direitos humanos, do abaixo da ditadura e da tortura e de todas as ações antitotalitárias. Em algum momento, até os jornais foram considerados transgressores como desafios dos poderosos.
Aconteceu assim no Brasil, na Argentina e em outros países da vizinhança, enquanto a imprensa americana inspirava e denunciava as atrocidades das guerras deles. Jornais que apoiaram ditadores quando a tomada do poder acabou sendo absorvidos pelas mobilizações pró-democracia.
Assim os donos dos jornais foram empurrados, no exemplo clássico brasileiro, para o movimento das Diretas Já. As redações eram redutos quase incontroláveis andando na direção do que o povo desejava. Os ditadores passaram a ter medo do jornalismo da grande imprensa, e não só da imprensa dita alternativa e que chamavam de nanica.
Hoje, fascistas e simpatizantes em geral de ditadores não temem Globo, Folha ou Estadão. Porque os herdeiros dos donos já não envelheceram como seus antecessores, que pelo menos fizeram a remissão de pecados.
E as redações não têm as virtudes da bravura e do improviso dos anos 70 e 80. Os jornalistas driblavam até os patrões. Mas não há mais drible na grande imprensa brasileira, só há toque para os lados, quase sempre para a direita.
Bolsonaro, seus filhos e seus cúmplices são inimigos pessoais dos jornais e das corporações de mídia porque nunca se entenderam. Mas não temem essas corporações. Nem Alcolumbre teme. Nem Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab, Tarcísio de Freitas.
O centrão e as quadrilhas das emendas não têm medo dos jornais. Nem os sócios do PCC dentro das fintechs que fazem lavagem de dinheiro na Faria Lima temem os jornais. A grande imprensa fala do PCC, mas não fala de seus parceiros no mercado financeiro.
A regra é essa: as pautas dos jornalões, e em especial o colunismo de intrigas e de ‘opinião’, não têm conexão com o que o jornalismo já fez no passado recente na tentativa de conter os avanços da extrema direita.
Não há um exemplo, um só, de que o jornalismo possa apresentar como resultado de investigação sobre uma tentativa de golpe contra Lula. Nada sobre o plano dos assassinatos de Lula, Alckmin e Moraes pela gangue dos garotos pretos. Nada sobre os bloqueios de rodovias. Nenhuma linha sobre os atendidos às torres de energia. Nada sobre os grandes financiadores do golpe.
Não há nada porque a reportagem um dia chamada de investigação foi superada pela preguiça do jornalismo de vazamentos. Com abordagens cada vez mais raras e afirmadoras de uma regra que deveria constranger as empresas e seus profissionais.
Os colunistas passaram a comer pela mão de vazadores e se tornaram dependentes de suas rações. Desde que a informação vazada seja contra Lula e as esquerdas e, agora, contra o Supremo.
A democracia deixou de ser um bem relevante para a sobrevivência dos jornais, e é provável até que o contrário seja o que mais interesse hoje para que as corporações fidelizem audiência e mercados.
Os jornais já não têm riscos apostando de novo na derrota de Lula, mesmo que a única alternativa seja Flávio Bolsonaro e o retorno do fascismo ao poder. A missão maior de defesa da democracia perdeu sentido. Até a história de que a grande imprensa é a única arma de briga contra as fake news que viraram uma conversa gasosa.
As corporações só não se atiraram sem disfarces nos braços do bolsonarismo porque é por ele esnobada e porque ainda enfrenta uma guerrilha do jornalismo independente e progressista. Os jornais são gatinhos ronronando no sofá da direita brasileira.