Por Zeus Naya
Correspondente-chefe na Guatemala
A avaliação realizada recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) expôs este país na última posição do ranking mundial: 84º lugar entre 91 em leitura, 86º em matemática e 87º em ciências.
O dado que mais chamou a atenção de muitos foi a primeira variável analisada, em que o país obteve 37 pontos a menos do que em 2022, embora na segunda tenha havido uma queda de 10 pontos e na terceira de 22.
O PISA, que tem como foco medir a capacidade dos alunos de 15 anos de aplicar o que aprenderam na resolução de problemas do mundo real, mostrou que apenas 8% dos guatemaltecos atingiram o nível básico em matemática, 17% em leitura e 21% em ciências.
A OCDE constatou que 43% dos estudantes guatemaltecos admitiram ter faltado a pelo menos um dia de aula durante as duas semanas anteriores à prova, em comparação com a média internacional de 22%.
O apoio familiar relatado pelos adolescentes caiu substancialmente entre 2022 e 2025, de 69% para 55%; eles responderam que seus pais lhes perguntavam semanalmente o que tinham feito na escola.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SOBRE A REGRESSÃO MARCADA
O vice-ministro da Educação, Francisco Cabrera, afirmou que a avaliação do PISA mostra um declínio geral nos territórios participantes e que isso se deve a um fator comum: a pandemia da Covid-19.
Este foi o país que manteve as escolas fechadas por mais tempo, quase dois anos, explicou o vice-ministro, acrescentando que durante esse período não houve nenhum mecanismo de resposta para mitigar o efeito da interrupção das aulas presenciais.
Portanto, ele observou que seu ministério se opõe à paralisação do ano letivo, como aconteceu em 2025 com a greve dos professores, porque “isso prejudica gravemente o aprendizado”.
Outro fator que pode ter influenciado os resultados, segundo o funcionário, é que o teste foi aplicado digitalmente pela primeira vez, o que acrescenta um grau de dificuldade para os alunos.
Nesses tipos de análises globais, o país sempre obteve pontuação abaixo da média, especialmente quando comparado às nações mais prósperas, enfatizou Cabrera, citado pelo jornal Prensa Libre.
Ela considerou necessárias ações de médio e longo prazo para sanar a lacuna educacional, como a política de transformação digital que está sendo implementada pela organização. Ela também mencionou a equiparação dos resultados de aprendizagem, a formação de novos professores e as mudanças curriculares, nas quais já estão trabalhando.
OPINIÕES DE ANALISTAS
As evidências e o estudo compilado sugerem duas coisas: que a enorme perda de dias letivos durante a pandemia sem dúvida teve um efeito, observou o especialista em educação Fernando Rubio.
Outro impacto é que o uso de dispositivos eletrônicos e o abuso das redes sociais estão roubando tempo da leitura, principalmente da leitura profunda e longa, afirmou ele em declarações à Emisóras Unidas.
Por outro lado, especificou ele, deve-se levar em conta que os centros educacionais demonstraram um claro esforço para melhorar o ensino da matemática, embora isso não se traduza em uma reversão da tendência.
Verónica Spross, diretora executiva da Empresarios por la Educación (Empreendedores pela Educação), afirmou que o retorno às aulas presenciais foi condicionado por problemas de conectividade, falta de equipamentos tecnológicos e dificuldades que já existiam antes da Covid-19.
Em entrevista ao canal de televisão Antigua Guatemala, o economista e pesquisador também destacou que o problema começou em estágios anteriores.
Ele citou deficiências de aprendizagem acumuladas, limitações tecnológicas, falta de professores especializados e a perda de dias letivos efetivos.
O diretor do Centro de Pesquisa Educacional da Universidade do Valle, Jorge Andrés Gálvez, alertou que os resultados do teste PISA são “um alerta” de que o sistema precisa ser aprimorado.
Ele descreveu as conclusões relativas a esse território da América Central como graves, pois refletem o fato de que os jovens, que representam o dividendo demográfico e a força produtiva, não estão sendo adequadamente treinados ou educados.
Gálvez, citado pela Prensa Libre, destacou a necessidade de investir mais no setor.
NAUFRÁGIO EDUCACIONAL OU CRISE ESTRUTURAL
Um artigo de opinião publicado pelo jornal La Hora intitulou a apresentação do PISA de “Naufrágio Educacional da Guatemala”, destacando que o estudo expôs mais uma vez uma realidade que havia sido minimizada no país durante anos.
No entanto, explicou ele, muitos fatores impediram que o sistema educacional guatemalteco se encontrasse em “condições precárias” no que diz respeito à formação das habilidades mais básicas para o desenvolvimento pessoal, social e econômico.
Ele descreveu como as notas baixas representam milhares de pessoas que chegam à adolescência sem compreender adequadamente um texto, resolver problemas matemáticos elementares e sem desenvolver o pensamento científico que o mundo moderno exige.
Assinado pelo jornalista Marco Tulio Trejo, o documento reconhece que, enquanto outras nações caminham rumo a uma economia do conhecimento, o país permanece preso a uma crise educacional estrutural que compromete seu futuro.
O autor pediu aos pais que assumissem a responsabilidade pela pouca atenção que dedicam aos filhos.
O relatório deixa claro que o problema não é a falta de motivação dos alunos, mas sim a qualidade das oportunidades educacionais que recebem e a incapacidade do sistema de eliminar as profundas desigualdades, salientou ele.
O jornal Prensa Libre relatou algo interessante: a queda foi ainda maior nas escolas particulares, que representavam 36% da matrícula de jovens de 15 anos, alunos do ciclo básico (pré-universitário).
Diversos relatórios enfatizaram que o problema transcende a sala de aula do ensino fundamental.
Eles afirmaram que, se o país expandir a cobertura do ensino secundário sem reformar o programa ou conectar as habilidades técnicas ao mercado de trabalho, continuará a emitir diplomas de nível médio sem competências para o ensino superior ou para a economia.
Eles pediram intervenção e ação urgentes, especialmente nas áreas rurais, e perguntaram o que o Chile, a Costa Rica, o México e, mais recentemente, El Salvador estão fazendo de diferente para melhorar sua situação.
Além disso, Trejo afirmou que tudo isso “é resultado de uma classe política que historicamente encontrou mais vantagens em gerir a ignorância do que em promover o conhecimento”.