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sábado, 30 maio 2026

Trump entre Cuba e Taiwan

Por Atilio Boron*

Trump e sua equipe medíocre de assessores nunca aprendem. Os Estados Unidos se atolaram na Guerra do Vietnã e sofreram uma derrota humilhante. Repetiram o mesmo erro no Iraque e no Afeganistão, com resultados idênticos. A retirada caótica das forças americanas estacionadas em Cabul é um dos capítulos mais vergonhosos da história militar dos Estados Unidos.

Agora, ataca o Irã, bombardeando indiscriminadamente alvos militares e civis, ameaçando fazer o país retroceder à “Idade da Pedra”. Mas a resposta de Teerã foi devastadora: destruiu quase todas as instalações militares estabelecidas nas petro-monarquias do Golfo e fechou o Estreito de Ormuz, causando um enorme aumento nos preços do petróleo e colocando em risco a economia mundial.

Segundo informações vazadas do Comando Central dos EUA (CENTCOM), havia entre 40.000 e 50.000 soldados nessas bases. Mas o Oriente Médio, que, como a Bíblia descreve, é uma terra de milagres, levou a Casa Branca a reconhecer apenas 14 mortes — um milagre bíblico, sem dúvida! — e cerca de 400 soldados feridos, números totalmente inventados e que precisarão ser corrigidos o quanto antes. A menos que, ao primeiro tiro disparado, esse grande contingente militar tenha fugido às pressas, buscando refúgio em um país amigo da região, ou retornado aos Estados Unidos em desgraça.

Lembremos que a primeira vítima da guerra é a verdade, e o império não pode ser acreditado “nem um pouco”, como Che bem alertou.

A destruição do sistema de radar instalado por sucessivos governos dos EUA nessas bases coincidiu com uma mudança climática repentina e radical ocorrida a partir do final de abril, quando a seca extrema e interminável que assolava o Irã há vários anos deu lugar a chuvas torrenciais em grande parte de seu território.

Essa rápida mutação parece confirmar as suspeitas das autoridades iranianas de que radares americanos e israelenses estavam guiando o movimento de aviões que lançavam substâncias capazes de afetar a formação de nuvens e reduzir a precipitação.

A técnica de semeadura de nuvens, usada para induzir a chuva, é bem conhecida. Mas pouco ou nada se sabia sobre a eficácia de certas substâncias na prevenção da chuva. Agora sabemos algo mais: é possível induzir e prolongar uma seca. A guerra climática entrou em cena.

Retomando nossa linha de raciocínio, Vietnã, Iraque, Afeganistão e agora Irã são todos marcos de derrotas previsíveis, o que nos leva a perguntar por que esse “erro” persiste. A resposta: porque não se trata de um “erro”, mas sim da execução implacável do plano de negócios do gigantesco “complexo militar-industrial”, cuja lucratividade é alimentada pelas guerras intermináveis ​​que o império provoca e trava.

Não nos esqueçamos que esses lucros derivam, em parte, do financiamento das carreiras políticas de legisladores nacionais e estaduais, governadores e, claro, daqueles que aspiram a ocupar a Casa Branca. É evidente que esses políticos, com pouquíssimas exceções, uma vez no poder, sabem exatamente o que devem fazer: fomentar guerras em todos os cantos do planeta e manter esse tipo perverso de keynesianismo baseado em gastos militares exorbitantes. Sem os superlucros desse sistema fatídico, o financiamento privado da atividade política cessaria, e ninguém na classe política quer que isso aconteça.

Trump reiterou que, assim que a vitória dos EUA no Irã estiver garantida, ele “assumirá o controle de Cuba quase imediatamente”. Se o fizer, estará caminhando para outro desastre, como o que Washington sofreu na Baía dos Porcos em abril de 1961.

Os covardes alados podem até conseguir bombardear a ilha e causar grandes danos materiais a edifícios e infraestrutura, mas para “tomar o controle” daquele país, especialistas militares estimam que seria necessário mobilizar uma força de cerca de 220.000 soldados em solo cubano para manter o controle e a ordem após a invasão, que desencadeará uma luta feroz contra as Forças Armadas Revolucionárias Cubanas e as milícias populares ainda ativas nas menores cidades da ilha.

Essa iniciativa de Trump também representaria o golpe final nos frágeis alicerces da ordem mundial em declínio e estabeleceria uma espécie de lei da selva, onde, seguindo a doutrina Trump, qualquer país poderia invadir e tomar o território de outro.

Pequim e Moscou já alertaram sobre esse perigo e expressaram suas críticas às ambições de Trump. Mas alguém também deveria dizer ao falastrão nova-iorquino que, se ele avançar militarmente sobre Cuba, estará entregando de bandeja a legitimidade de uma operação semelhante que a República Popular da China poderia realizar para reintegrar à força a província rebelde e estratégica de Taiwan.

Se algo assim acontecesse, como poderia Washington condenar Pequim por retomar à força uma de suas próprias províncias quando tentou fazer o mesmo com um país independente como Cuba?

*Atilio Alberto Borón (Buenos Aires, 1º de julho de 1943) é um cientista político e sociólogo argentino, doutor em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Atualmente, é Diretor do Centro de Desenvolvimento Curricular da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade Nacional de Avellaneda. É também Professor Consultor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e Pesquisador do IEALC, Instituto de Estudos Latino-Americanos e Caribenhos. Recentemente, aposentou-se como Pesquisador Sênior do CONICET (Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica). Foi Vice-Reitor da Universidade de Buenos Aires (1990-1994) e Secretário Executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) de 1997 a 2006. É Diretor do PLED, Programa Latino-Americano de Educação a Distância em Ciências Sociais do Centro Cultural de Cooperação Floreal Gorini. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa pelas universidades nacionais de Cuyo, Salta, Córdoba e Misiones, na Argentina. da Universidade Nacional Experimental Rafael María Baralt de Cabimas (Zulia, Venezuela), Prêmio Internacional UNESCO José Martí (2009) e Prêmio Honorário de Ensaio Ezequiel Martínez Estrada da Casa de las Américas (Havana, Cuba), de 2004.

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