Foto: Arquivo Público
Por: Wagner França
O diário oficial do império publicou, e a BBC repercutiu como quem narra a chuva: o Comando Vermelho e o Terceiro Comando da Capital agora são, para Washington, “Organizações Terroristas Estrangeiras”. O ato, assinado nos gabinetes climatizados do Norte, não é uma notícia policial. É uma declaração de intenções geopolíticas. É o prenúncio de que o cerco se fecha sobre o território, as riquezas e a soberania da nação brasileira, enquanto as sirenes da mídia burguesa tentam nos convencer de que se trata apenas de “combate ao crime”. Desmascaremos, ponto por ponto, essa manobra.
Não é de hoje que o império precisa de um inimigo que justifique seu apetite. No século passado, foi o “comunista ateu” que serviu de desculpa para os tanques rolarem em Santo Domingo, em Granada, para sustentar Somoza, Pinochet e os generais da tortura. Com o fim da União Soviética, o “narcotraficante” ocupou o lugar vacante – e a invasão do Panamá, com seus milhares de mortos, foi a primeira demonstração dessa nova doutrina. Depois veio o “narcoterrorista” do Plano Colômbia, que transformou um país irmão num protetorado militarizado, semeou deslocamentos forçados e consolidou o latifúndio armado, tudo enquanto os dólares da “ajuda” escorriam para os bolsos da indústria bélica.
Agora, o império dá mais um passo: funde, numa só palavra, o “narcotráfico” e o “terrorismo” e a aplica contra organizações que, por mais bárbaras que sejam, são filhas da decomposição capitalista periférica, não de um projeto de tomada do poder político. É uma fraude conceitual com fins muito concretos. O CV e o TCC não são as FARC, não são o Hezbollah, não reivindicam a derrubada do Estado burguês. Mas chamá-los de “terroristas” é útil: porque autoriza, na lei interna americana, que qualquer um que com eles interaja – o comerciante que paga taxa sob coação, o familiar que envia dinheiro ao preso, o advogado que defende o acusado – seja tratado como “fornecedor de apoio material a terrorista”. Transforma-se a economia informal das periferias num imenso campo suspeito, pronto para ser criminalizado e, se necessário, bombardeado.
A história que não muda: o playlist da intervenção
Quem tem memória sabe que essa lista de “terroristas” não é um catálogo neutro. É uma ferramenta de guerra. Foi assim na América Central dos anos 80, quando a administração Reagan classificou movimentos populares como terroristas enquanto financiava os “contras” que estupravam e assassinavam camponeses na Nicarágua. Foi assim no Oriente Médio, onde a mesma etiqueta serviu para destruir o Iraque sobre mentiras de “armas de destruição em massa”.
Na América do Sul, o roteiro é conhecido e foi testado na Colômbia. O Plano Colômbia, vendido como guerra às drogas, foi na verdade uma colossal transferência de recursos para as forças repressivas e uma justificativa para a instalação de bases militares americanas – bases que não miravam apenas os acampamentos guerrilheiros, mas a Amazônia, a água, a biodiversidade, os vizinhos. O Brasil, maior detentor da floresta e do aquífero Guarani, reserva de nióbio e pré-sal, sempre foi o alvo final da mira que começou em Bogotá.
Ao listar CV e TCC como terroristas, Washington ignora propositalmente o ordenamento jurídico brasileiro, que tipifica esses grupos como organizações criminosas – uma diferença que não é mera semântica. O império sabe que não há consenso internacional para essa definição, sabe que o Conselho de Segurança da ONU não chancelou essa lista. Mas não precisa: impõe unilateralmente sua lei, porque pode. E ao fazê-lo, cria as pré-condições jurídicas internas para que, amanhã, a Quarta Frota, reativada em 2008 para “patrulhar o Atlântico Sul”, tenha uma desculpa para se aproximar ainda mais de nossas águas profundas.
Quem lava o dinheiro não vai para a lista
Há uma contradição instrutiva nessa lista. Se o problema fosse realmente o combate ao crime organizado transnacional, os primeiros da fila seriam os bancos que lavam o dinheiro do tráfico, os escritórios de advocacia que criam offshores, os paraísos fiscais que escondem a fortuna dos barões da cocaína – muitos deles situados sob a bandeira estrelada ou em territórios que lhe são vassalos. Mas esses não aparecem. O que aparece são os elos mais frágeis e substituíveis da cadeia: os soldados do varejo nas favelas, os jovens negros e pobres que o capitalismo dependente já condenou ao desemprego e à morte precoce.
É a lógica seletiva do imperialismo: atacar as “vítimas” periféricas enquanto preserva intactos os mecanismos financeiros centrais que tornam o narcotráfico um negócio global hiperlucrativo. A mesma hipocrisia que sustenta a “guerra às drogas” há meio século, sem reduzir um grama do consumo nos países centrais, mas enchendo os cemitérios e os presídios do Sul Global.
A lista de FTOs não é simbólica. Seus efeitos são materiais e imediatos. Congelamento de ativos. Proibição de transações em dólar. Criminalização de qualquer “apoio material”. Para um país como o Brasil, cujas periferias têm nas remessas e na economia informal uma tábua de salvação, isso significa que milhares de famílias podem ser enredadas nas malhas do “combate ao terrorismo”.
Além disso, a designação pressiona o Estado brasileiro a alinhar sua doutrina de segurança pública às exigências de Washington. Já há setores das Forças Armadas e do Judiciário que sonham com a adoção do direito penal do inimigo em sua versão mais brutal, com treinamento e equipamento americanos. A lista é um presente para esses setores, uma alavanca para empurrar o país ainda mais para a militarização da vida civil. E, no horizonte, paira a possibilidade de operações unilaterais: drones, agentes, forças especiais agindo em território nacional sob o argumento de que “o Estado anfitrião não é capaz ou não quer enfrentar a ameaça terrorista”.
Nosso caminho: nem facção, nem império
A esquerda revolucionária não nutre ilusões sobre o CV, o TCC ou qualquer organização criminosa. Elas são parasitas do povo pobre, exercem controle territorial pela violência, impõem toques de recolher, executam rivais e desafortunados. São um produto bárbaro do capitalismo em sua fase de decomposição, e os trabalhadores das favelas são suas principais vítimas. Não merecem defesa – merecem ser varridas pela organização popular e pela construção de um poder que emancipe, eduque e empregue.
Mas a solução para o crime organizado brasileiro não virá de Washington. Virá da luta do próprio povo, com reforma agrária, trabalho digno, fim do genocídio negro e da guerra às drogas, e construção de um Estado verdadeiramente popular que enfrente as causas da criminalidade e não apenas seus sintomas. O que o imperialismo oferece é uma falsa solução que apenas agrava o problema e entrega nossa soberania em troca.
Por isso, a resposta à lista de “terroristas” não pode ser o silêncio ou a resignação. Deve ser a denúncia incansável, o repúdio nas ruas, a solidariedade ativa com as comunidades ameaçadas e a construção de uma alternativa anticapitalista, anti-imperialista e verdadeiramente socialista. O império que ontem financiou a tortura e hoje patrocina a guerra às drogas não libertará o povo brasileiro. Quem libertará é o próprio povo, em marcha, com suas mãos calejadas e sua consciência desperta.