Foi aí que Egydio teve os primeiros contatos com os povos indígenas, por quem foi convertido. Ele conta, na entrevista a Tiago, que trabalhou durante três anos, em dois internatos, em uma missão tradicional, em Utiariti e Diamantino-MT: “Eu vi crianças chegarem com arco, flecha e penas; no dia seguinte, ajoelhados, de roupa, no banco da igreja, rezando. Quer dizer: um absurdo, não é? O internato era a primeira etapa para o índio abandonar a terra e esconder a sua identidade em Cuiabá ou desintegrar-se”.
As fontes orais são cruzadas por Tiago com os registros escritos e iconográficos do acervo particular da Casa da Cultura do Urubuí (CACUÍ) criada por Egydio e Doroti em 1992 no município de Presidente Figueiredo-AM. São cadernetas, relatórios, diários, fichas, artigos, textos acadêmicos, jornais, postais, fotografias, correspondência epistolar e até cartas de crianças de etnias diversas, ex-alunos de Egydio. Contém mais de 5 mil páginas organizadas por ano de 1959 a 1980 com dados sobre sua trajetória pessoal e sua vida pública, abordando o movimento indígena e suas lutas, o indigenismo, a relação Igreja – Estado durante a ditadura, as tensões e conflitos internos da pastoral indigenista.
Isso porque o drama indígena vivido indiretamente por Egydio em sua infância fez com que sentisse o peso do etnocentrismo. É que sua primeira língua, a alemã, usada na comunicação do ambiente familiar e do entorno, estava proibida de ser empregada em espaço público, o que era tipificado como um crime no Brasil durante a II Guerra Mundial. Ele só aprendeu a língua portuguesa na escola, onde foi vítima de intolerância e discriminação. Experimentou na própria pele o sofrimento dos indígenas recém-chegados das aldeias ao iniciar o processo de escolarização no Internato de Utiariti ou no Lar do Menor em Diamantino. Agora, além de valorizar a língua Kiña, o casal ensinou os Waimiri a ler, num processo que iniciava com narração oral das histórias, continuava com as figuras desenhadas no papel e a leitura das imagens até chegar à escrita alfabética em língua materna.
Sabíamos que missionários, indigenistas e líderes indígenas eram vigiados de perto por informantes dos órgãos de repressão pagos pelo contribuinte para realizarem esse trabalho sujo e ilegal, que contrariava até mesmo a legislação autoritária vigente. Mas uma coisa é “saber genericamente”, outra é ter a comprovação detalhada que Tiago registra em sua tese, com documentos reveladores do modus operandi do sistema de informações da ditadura para reprimir os movimentos indígena e indigenista.
Peço licença para concluir essa apresentação com um depoimento muito pessoal relacionado ao tema, que me traz para dentro do texto e reforça aquilo que consta no livro que você vai ler. Pude acompanhar de perto o casal Schwade, quando me incorporei ao CIMI em plena ditadura, após retornar do exílio e permanecer preso três semanas pela Polícia Federal em Manaus. No final do Curso de Indigenismo Missionário propus a criação do jornal mensal Porantim – Em defesa da Causa indígena, do qual fui o redator-chefe, compartilhando com o secretário regional do CIMI, Paulo Suess. Os oito primeiros números foram rodados no mimeógrafo em plena ditadura militar e depois passou a ser impresso até os dias de hoje.