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domingo, 31 maio 2026

DO GOVERNO AO MITO, DO MITO À LENDA

Pedro Augusto Pinho*

 

Um País, esquecido de si mesmo, deve estar constantemente repassando seus momentos, como fazem seus inimigos na permanente doutrinação para aviltar nossos melhores sentimentos, reduzir nossas legítimas pretensões, acomodar nossas irrefreáveis revoltas.

Trago à reflexão de meus caros leitores, uma conferência, entre tantos trabalhos exemplares, de um intelectual brasileiro, jurista e político, que muito nos engrandece: Francisco Clementino San Tiago Dantas.

Nestes sombrios tempos de uma justiça abastardada, partidária e inculta, reler San Tiago Dantas é como renovar a esperança no saber, na diplomacia, na política como solução dos conflitos.

Inicio transcrevendo de “D. Quixote um apólogo da alma ocidental”:

“Se me é lícito empregar um dos termos favoritos da filosofia moderna, direi que vou tratar do Quixote como símbolo, isto é, do sentido que o próprio Quixote adquiriu, refletindo-se secularmente na consciência ocidental, onde se tornou, a meu ver, uma fábula construtiva, um episódio exemplar, a cuja luz julgamos muitas de nossas experiências, e de que tomamos modelo para muitas de nossas aspirações”.

Quem, lendo este “Quase um Prefácio”, como San Tiago denominou sua introdução, não lembraria de outro mito, quase uma lenda da política brasileiro: Luiz Inácio Lula da Silva.

O menino pobre, nascido na região pobre do Brasil, o nordeste, como tantos outros trazidos para o sul, ou sudeste, onde haveria maior condição de enfrentar a vida, numa sociedade injusta e excludente, acostumada a destratar os mais desvalidos, os descendentes de escravos, os despossuídos que explora e odeia, como numa freudiana reação à sua própria incapacidade.

A história das vicissitudes de Lula, para aprender uma profissão, encontrar trabalho, revoltar-se, ao tomar consciência, pela via da religião e de sua experiência cotidiana, das iniquidades da sociedade colonial e escravagista brasileira até firmar-se como um líder, engrandece qualquer biografia.

Não é um santo que recebeu a inspiração e as palavras divinas; é um homem que aprendeu com os erros e acertos e cresceu com sua inteligência até ser atacado pelas forças que ele procurara defender, acomodando direitos com deveres, conciliando intereses rentistas com os do trabalho, harmonizando a projeção nacional com as geopolíticas colonizadoras.

Muitos compreenderam nosso mito, mas, pelos preconceitos de ideologias alienígenas, construídas para justificar o domínio europeu por todo mundo, não puderam aceitar.

E, em outra freudiana reação, de uma classe que se julga superior às outras, dá um trocado para o guarda não ver sua ilícita conduta, que considera um suborno a justa retribuição de um favor, que não enxerga privilégios que lhes são concedidos, mas denuncia os que não lhe favorecem, se incomodaram com o operário, conduzido pelo povo, vencendo as vilanias, as obscenidades que a mídia comercial e impatriótica lhe dirigia, chega à Presidência do Brasil.

Aguardavam, ansiosas e desejosas, seu fracasso. O operário não teria estatura do bem nascido para enfrentar os problemas nacionais, dirigir-se às lideranças mundiais.

Mas deu-se exatamente o contrário. E começa a se formar o mito. O mito da construção da cidadania, do orgulho de ser brasileiro, de agir com a soberania nacional que seu antecessor, cujo chanceler se humilhara diante de um guarda alfandegário estadunidense, não conseguira.

Era demais, precisava ser riscado da política brasileira. E renasce a ação típica da elite brasileira, principalmente nestes tempos do poder financeiro – a corrupção – que esta sociedade, por seus dirigentes públicos e privados, imitando os colonizadores de sempre – portugueses, ingleses, estadunidenses e, hoje, financista – pratica à exaustão.

Ressuscitam o “mar de lama”, com que agrediram Getúlio Vargas, Presidente que empobreceu no poder, um fantasioso comunismo de Presidente fazendeiro, João Goulart; não precisa prova, basta convicção, basta suborno e pressão a que se curva invertebrado judiciário, que faz da mídia sua jurisprudência.

O mito se faz lenda. E como lenda irá correr o Brasil pobre, o Brasil dos esmagados pelo poder opressor, o Brasil dos milhares de mortos por exigirem, tão somente, que lhes deem trabalho, terra para viver.

Hoje só se tem uma certeza: a mídia, o dinheiro e a onipresença das instituições estrangeiras no Brasil corromperam o Poder Judiciário. Qualquer tentativa de colocar o Brasil entre as nações independentes irá começar pela redefinição dos objetivos do Poder Judiciário e sua radical reestruturação. Os penduricalhos, tão ao gosto destes falsos moralistas, serão eliminados em simples pé de página, onde se encontrarão seus novos encargos e direitos.

Também a mídia radiofônica e televisiva comercial não poderá ter direitos que a levem a ser majoritárias no Brasil. Como os tão buscados exemplos europeus, a mídia principal será a da rede pública, a da participação do Estado. Esta mídia audiovisual comercial, como na grande maioria dos países, será complementar.

E a lenda, como conhecemos desde a história ancestral, só se confronta com outra lenda. E esta outra lenda não existe.

 

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

 

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