Massa compacta do povo em Teerã dirigindo-se à Praça da Liberdade
No meio, Ahmadinejad, o único personagem arriscando no meio da massa. Atrás, o cartaz “Morte à América” e foto dos dois líderes espirituais e políticos da revolução islâmica iraniana.
A massa oceânica e compacta rumo à Praça da Liberdade, entrava e saía para dar passo aos novos chegados. No meio, estava o ex-presidente Ahmadinejad, a única personalidade que arriscava, submersa no meio da multidão, diante do cartaz que dizia “Morte à América” com as fotos dos dois líderes espirituais e políticos da revolução islâmica, Khomeini e Ali Khamenei.
Estas manifestações não são apenas reivindicatórias de direitos, ou para conquistar as praças, mas sim para retomar o que era seu, o governo do país. A psicologia social é de retomada do poder que explode a cada momento; o povo grita e marca presença, com grande consciência, graças às diretivas e análises, quase diárias, do Leader Khamenei que intervém, analisa, orienta e concentra a atenção sobre um alvo momentâneo em movimento, contando com o apoio de várias forças militares, dos “Guardiões da Revolução”, das milícias, dos paramilitares, e várias organizações capilares, populares, incluindo às ligadas às mesquitas.
São explosões de alegria porque o povo sente que chegou o seu momento de decidir e dar atenção ao dito por Ali Khamenei: “as pessoas se lamentam porque há muita coisa que não vai bem”. Portanto, é preciso esperar a partir de agora que o vulcão expele muita coisa retida, indigesta, nas vísceras da história, e nos primórdios da revolução islâmica.
Quantos milhões saíram às ruas em todo o país? O oceano não se conta, se qualifica. E a qualidade é o sentido desta enorme rebelião festiva de romper com o imperialismo e com os seus testas de ferro, o governo milionário de Rouhani, que tanto mal tem feito à população e, agora, por pressões e próprias contradições, expressas nas diferenças entre os ministros. A polarização do mundo reflete-se também no Irã. Não tanto militarmente como na Síria, mas do ponto de vista da superestrutura de governo, que atua sobretudo no interesse de um capitalismo monetário, financeiro, de livre mercado, de liberalização e integração global capitalista. Esta enérgica ocupação dos espaços públicos é uma declaração de guerra contra as ameaças do imperialismo e, sobretudo, buscando superar um governo intruso que respondeu mais aos interesses externos que aos do povo iraniano, agravando a situação de vida e de trabalho da população, comparando a oito anos do governo de Ahmadinejad.
O Irã não é somente um país coberto de mistérios orientais da Ásia onde é fácil desorientar-se e perder-se, mas um país movido desde as raízes por uma imponente revolução social, nacional e de credo revolucionário islâmico que, contrastando com os esquemas prefixados do capitalismo ocidental, desorientam mais ainda os analistas, jornalistas e comentaristas ocidentais que se perdem nos meandros complexos e contraditórios de um processo desigual, mas rapidamente mutável com variantes. Nada nasce do nada e, aquela revolução de 38 anos atrás foi uma explosão de uma situação que amadureceu ao longo da história, não confinada nos limites geográficos atuais, mas oriunda da profundidade onde nasceram os primeiros movimentos coletivos de Mazdak que fez o império tremer nos anos 400 d.c., isto é, um século antes do nascimento de Maomé; e antes de Mazdak existiu Maani em 250 d.c., um movimento que combateu o império romano e saxônico, desde o norte da África até as fronteiras da China; ou o movimento que abalou o Irã, derrubou a dinastia árabe-mussulmana de Omayedi. Há uma veia onde corre a busca da justiça social que teve sempre como símbolo a corajosa afronta de Hussain, neto de Maomé contra as injustiças dos califas, criando um movimento subterrâneo pela justiça social islâmica, no Irã e que perdurou quase 1.400 anos até a revolução islâmica de 1979. Lá estão suas raízes e sua potencia. Esta é a razão pela qual, apesar de todos os golpes baixos, traições ou falta de organização de massas, o movimento se reapresenta fresco e mais combativo, como neste acontecimento surpreendente que maravilhou a tantos e desiludiu a tantos que querem dividir e debilitar as massas para conduzir o país nas fauces da globalização capitalista e ficar com o suborno.
Juntas os jovens “modernos” revolucionários e os estudantes tradicionalistas apoiando o líder supremo Khamenei
No Irã, quase tudo surge em base aos movimentos, que se recolhem com frequência regular nas mesquitas, nas rezas da sexta-feira, onde, atualmente, os oradores declamam de armas na mão, intervindo contra os aparatos e privilégios abusivos, chantagens e conspirações, ao não existirem os instrumentos e organizações de massas, os Partidos de classe, salvo os de categoria. Isso, porque no fundo não existem ainda as classes socialmente bem formadas e estruturadas, enquanto os operários industriais organizados vivem separados ou longe dos centros e não têm possibilidade de pesar diretamente nas esferas sociais; ou não recebem informações, que chegam escassamente ou de forma seletiva. Dado que as instituições de poder do Estado não são bem formadas, as propriedades caem em mãos dos agiotas, das construtoras expelindo as populações da terra agrícola, transformando as propriedades sociais em privadas, retirando dos trabalhadores rurais e passando aos novos sultãos da terra, do açúcar ou da água, dentro de um processo de privatização selvagem. Por isso há um cadastramento lento, sem ser atualizado, nem informatizado.
Não existem os Cartórios, ou órgãos de registros de imóveis e, portanto, enquanto os contratos de aluguel durem somente um ano, pelo aumento contínuo dos preços é impossível fixar o tempo de locação das famílias que devem mudar-se continuamente. Estas instituições são necessárias para as eleições, os processos jurídicos, mas sobretudo como parte da formação estrutural do Estado Revolucionário, de modo que as suas potencialidades possam unir-se rumo às transformações sociais e ao socialismo.
Não existe uma rede unificada de informação, e os aparatos e o contrabando continuam a devorar e criar escorias em prejuízo da sociedade e do eco-sistema. O volume de negócios de contrabando, que tem posto de joelhos a indústria nacional, é enorme, e boa parte dos produtos agroalimentares, em nome do excedente do mercado interno de consumo, é exportada sem que o dólar obtido retorne ao país. Isso foi denunciado por um ministro contra o outro.
As estatísticas oscilam entre fontes opostas de referencia. A inflação é apresentada vergonhosamente muito abaixo da realidade vivida diariamente pelo povo que ridiculariza a porcentagem anunciada pelo governo. A justificação do governo é que a diminuição da inflação não significa diminuição dos preços, mas a contenção do seu impulso. O desemprego, já alto, sobe como consequência das “veias abertas” e da grande importação de mercadorias e produtos manufaturados no Irã, que já produzia eletrodomésticos, vagões e linhas ferroviárias, automóveis e acessórios, tecidos calçados, vestimentas, etc.. Tudo está paralisado, em falência, ou funciona muito abaixo da capacidade, com muitos pequenos e médios empresários na prisão.
O exemplo da grande sociedade paraestatal de Khatam al Anbiá, dos guardiões da revolução é fulminante. Esta sociedade, composta de 350 pequenas sociedades privadas e com 1 milhão de empregados, construtores de gasoduto, autoestradas e sobretudo a Sociedade Sadr, dos estaleiros navais para as petroleiras, está parada e, agora, opera com 20% da sua capacidade. O governo fez acordos e contratos com a sociedade Sul-coreana para a construção de 3 naves cisternas, retirando a tarefa da Sociedade Sadr e, suspendeu a continuação do gasoduto “da Paz” rumo a zonas carentes no leste e sudeste, na fronteira com o Paquistão. Agora, foi retomada parcialmente, mas com muito atraso e quase ao final do mandato de governo. O dano é devastador! Vejam alguns exemplos: os contratos fixos de trabalho são ao redor de 5% do total. Os trabalhadores estatais que Ahmadinejad tratava de assumir diretamente com contratos a tempo indeterminado, são dependentes das empresas privadas. Há dois anos atrás, três operários das mineradoras de ouro, concessões privadas a companhias estrangeiras, suicidaram-se porque, tendo o contrato com vencimento de 10 meses, eram demitidos antes das festas de fim de ano para que os empresários não pagassem o 13o e o seguro, mesmo sendo o salario equivalente a um terço das outras categorias. Outros 300 mineiros, tendo ocupado a autoestrada, foram pisoteados, presos e condenados a 5 anos de prisão, e readmitidos para continuar o trabalho, sob pressão, levando 75 chicotadas, apesar do Irã fazer parte da Organização Mundial do Trabalho, subscrevendo as regras.
O governo Rohani convida companhias e empresários estrangeiros a investir em todos lados, como no gigante complexo da Petroquímica, com até 100% do capital. Chegaram várias empresas europeias e turcas para a construção de três grandes centrais elétricas a ciclo combinado de gás e água; tudo, para ser exportado à Turquia. O Irã oferece infraestrutura, gás quase grátis, mão-de-obra barata e sem proteção sindical. A exportação da eletricidade é entre as coisas mais absurdas, estúpidas, anti-sociais e contraproducentes. Isso porque o consumo de água, o bombeamento dos aquíferos via poços profundos, fossas já recicladas, já enxugou os sistemas milenares de canais de água subterrâneos, num país árido e semiárido, destruindo a agricultura, levando mais de 70% da população a migrar para as cidades, transformando produtores em desempregados na busca de trabalhos temporários.

O Irã prometeu à Europa o fornecimento de gás iraniano em concorrência ou substituição ao gás russo, com a justificativa da crise ucraniana. O excesso da sua exportação provocou a diminuição da injeção de gás nas camadas petrolíferas e isso fez diminuir o rendimento das jazidas e dos poços petrolíferos, reduzindo, em média, a 20% a sua capacidade, prejudicando a atividade das refinarias e inclusive a venda do petróleo cru. O pior é que militares pediram ao ministro do Petróleo de vender uma parte do petróleo ao Exército e aos Guardiões da Revolução para que estes pudessem revende-lo a fim de comprar armas mais modernas para os arsenais militares. O ministro Zanghené, recusou qualquer tipo de acordo, dizendo: “os americanos não querem”.
Segundo os apoiadores de Ahmadinejad, o governo diminuiu a 1/10 o orçamento das Forças Armadas em relação ao período do governo precedente. Agora, o parlamento obrigou o governo Rouhani a aumentar de 5% o financiamento do exército, ainda muito abaixo das necessidades de renovação das Forças Armadas como a aquisição dos caças Sokhoy, dos tanques russos e outros armamentos. Há um processo de bipolarização onde o governo, por um lado, obstaculiza e corta todos os programas iniciados com Ahmadinejad – sobretudo com a Rússia – como a construção das novas centrais nucleares para produção de energia elétrica em Busher que, com os seus mecanismos de dessalinização teriam transformado o deserto no sul em terras cultiváveis; e, por outro lado, assinando acordos sobre o nuclear com o 5+1, apostando numa abertura e investimentos por parte dos EUA e os governos europeus no mercado aberto iraniano. Isso não ocorreu e, segundo Khamenei que esteve, há pouco, no encontro com o governo sueco, “todos os acordos ficaram no papel neste ano e meio”
Vale recordar que John Kerry fez um giro em todos os países da Ásia Central, tratando de criar as premissas para uma colaboração militar e instalar as bases norte-americanas na zona. Agora, contrariamente, Vladmir Putin, faz um giro no Kazakistão, Ghirghizistão e Tagikistão para renovar e reforçar as bases russas; entre elas, uma na fronteira do Tagikistão com o Afeganistão. Portanto, o uso das bases iranianas de Hamedan está dentro deste contexto onde a Rússia colabora também com as organizações “moderadas” dos Talibãs afegãos contra as mais violentas, da mesma forma que na Síria.
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Em contraposição à permanente persuasão e insistência do Líder Khamenei em conduzir uma “economia de resistência, com passos e fatos concretos”, existe uma vontade de manter um cenário confuso e obscuro para que esta potente revolução não possa formar-se, levantar-se e, chegar a expressar com uma estrutura e ossatura forte com toda sua energia concêntrica e dirigida a atingir os objetivos da luta pelo socialismo. Nesses quase 4 anos de governo neoliberal de Rouhani, o nível de vida do povo caiu, a capacidade de compra e o valor da moeda nacional também. Enquanto se mantinha o país com o respiro suspenso na expectativa dos resultados do “acordo nuclear”, por fim aos embargos e dar início aos investimentos, os tijolos e os pilares do edifício eram desmantelados e demolidos. Tudo isso enquanto na guerra na Síria tantos voluntários iranianos intervieram rompendo o cerco a Damasco junto às decisões da Rússia de intervir diretamente em colaboração com as forças e generais iranianos do Pasdarán, para combater fortemente e acabar com os planos imperialistas na zona. Desapareceram das telas da TV estatal as reportagens sobre os aviões russos quando bombardeavam posições ou caravanas de cisternas petrolíferas do Daesh, porque Putin está adquirindo grande popularidade e o povo sempre esperando vê-lo com as suas boas novas.
Nesta situação surge este acontecimento como uma explosão de alegria, de sentimento de vitória, gritos de combate e um compromisso de derrubar por terra o nefasto que já passou dos limites da zona vermelha do Estado Revolucionário. Agora que, de repente, apagou-se a sombra sufocante do dinossauro Hashemi Rafsanjani. Agora que a espera pela bendita compaixão e colaboração dos americanos entrou em curto circuito e, enquanto o Líder Khamenei, apelando às massas populares a sublevar-se, com aquela autoconfiança e dignidade de ser o verdadeiro protagonista do Estado, capaz de tomar nas mãos a própria sorte, reaparece a figura de Ahmadinejad. E vieram todos, desde recém-nascidos de um ano a velhos em cadeiras de roda como se fossem vitoriosos. Mas, contra quem? Para fazer o quê? Para onde ir?
Entre o caráter quantitativo e qualitativo não escorre uma narração em mão única, de causa e efeito; e a enorme a alegre participação das massas combativas, muito maior que nos anos passados, é resultado de um salto de qualidade que já se manifestou entre o povo nos últimos meses onde, por diversos fatores, as coisas se compactaram rapidamente; houve uma acumulação e um esclarecimento, sobretudo no campo político. Portanto, as pessoas esperavam o momento para manifestar com toda sua força, a sua própria opinião.
Esta grande explosão de energia nacional durou somente um dia. No dia seguinte, aparentemente, tudo era como antes, mas os efeitos do terremoto se manifestarão em breve, caso por caso. Pode-se analisar os efeitos que poderão dar-se no campo econômico, mas a grande incidência se verá sobretudo no campo político, dado que os prazos são concentrados e os tempos muito curtos, seja a nível nacional, regional ou internacional. Daqui até as eleições presidenciais são três meses. Impossível qualquer manobra corretiva, mesmo que quisessem. Mas, eles não desistirão e farão fumaça ao fogo como aquele enorme incêndio com a caída do edifício em Teerã que comoveu a todos pela coragem e abnegação dos bombeiros, atrás do qual não se sabe ainda quem conseguiu libertar-se da prisão. Talvez o irmão do Presidente que, parecia estar prestes a ser preso por corrupção. Agora, aparece a proposta de “conciliação nacional”, “a defesa dos acordos com os EUA, caso contrário nos farão a guerra”, o que significa absolver em liberdade política a Khatami, Moussavi e Karrubi, os chefes da contrarrevolução colorida de 2009, que empurrou, segundo o New York Times, os EUA a aumentar as sanções contra o Irã para submetê-la definitivamente. O Líder Supremo, Ali Khamenei interviu fortemente contra esta provocação, não deixando nenhuma possibilidade de difusão e divulgação, dizendo: “com aqueles, nenhuma paz! E a razão pela qual os americanos não fazem nenhuma guerra contra o Irã não é graças aos acordos, é a força da revolução e a capacidade do nosso exército”.





